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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Coty


Joaquim Bispo


Meu querido Amadeo,

Sei que estás em Manhufe, a fugir da guerra. Escrevo-te esta carta depois de me terem falado do quadro que pintaste e não intitulaste, mas a que todos chamam “Coty”. Acertaram. Conheço-te bem; sei que mascaraste o nome que me davas, com a marca do perfume que sempre uso.
Podes achar que ninguém vai reparar, mas há pessoas que me conhecem e vão perceber tudo e as intimidades que tínhamos. Não devias ter feito isso. As pessoas vão ver os insetos pousados nas pétalas rosadas e vão perceber, vão ver os ganchos de cabelo e vão perceber. Escusavas de ter posto as tulipas. Só não vê quem não quer. Olha que eu não sou dessas!
Era bem preferível ficares-te pelos seios e pelas pernas. Disso está a pintura francesa cheia. Não há Ingres, nem Renoir, nem Toulouse-Lautrec que não exponha a nudez das modelos e amantes. Ninguém me vai reconhecer por aí. Agora, os frascos de perfume, as cartas de jogar… Há quem saiba as habilidades que faço com elas. Por isso te escrevo.
Continuo a preferir a discrição de casa, aos grandes salões. Nisso não mudei. Até nas grades da janela me identificas. Mas me associas a uma planta carnívora. O que torna ainda mais perversa a imagem que dás de mim. Fiquei irritada, mesmo magoada. Eu não te merecia isto.
Também sei que casaste. Espero que sejas feliz aí nesse teu Portugal. Bem vi nos teus quadros que não esqueceste nunca os potes, as bilhas e outras vasilhas de feira.Tonto!
Quando acabar a guerra, vem visitar-me. Quero mostrar-te a minha nova carpete. É florida. Vais gostar dela, tanto como daquela dos quadrados. Mas não é para depois me pintares coberta de cravos e margaridas e gladíolos, que eu não sou dessas. Maroto!

Beijo da tua,
“Coty”


Amadeo de Souza-Cardoso, Título desconhecido (Coty), 1917.


[Até 19 de janeiro de 2014, está patente no Centro de Arte Moderna, em Lisboa, a exposição “Sob o Signo de Amadeo – Um Século de Arte”, com uma mostra representativa da obra deste pintor vanguardista falecido em 1918, em diálogo com obras correlatas de outros artistas nacionais e estrangeiros.]

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

Uma resposta que Amadeo jamais escreveria
Sim, querida Coty, o perfume é para mim representativo do que há de mais essencial na personalidade individual humana, na expressão dos seus mais íntimos desejos, alguns inconfessáveis até.
Mas que as pessoas saibam de nossas íntimas relações… que mal isso tem? Não serão também elas livres de as terem a seu jeito? É verdade que te prometi um Amor Perfeito, Amor Eterno, mas não é menos verdade que preferiste a fama e a ascensão rápida, com o qual corres sérios riscos de me traíres, de traíres os valores sem os quais a vida para mim perderá o pouco sentido que ainda lhe resta, mas mais que isso, faria perder para mim o sentido da eternidade sem o qual jamais poderia cumprir a primeira promessa que alguma vez te fiz.
E depois esse gosto que tens cultivado desde há já tanto tempo pelas cartas de jogar, como lhe chamas, e que manuseias como ninguém; não compreendes que cuido apenas que te não venham a rebelar-se os trunfos que acreditas tão bem manipular? Não entendeste ainda que têm vida própria e que a todo momento despertarão fazendo dissiparem-se os véus que até então velavam os teus segredos que ainda dissimulam uma realidade que não é a tua verdadeira?
É verdade que o Amor que te tenho me faz ver-te em todas as partes e nem a discrição a que aludes, meu Amor, te guardará perante a emergência de tão inesperadas como insuspeitadas variáveis, perante os quais a tua refinadíssima habilidade se esfumará.
É por saber teres perdido a antiga candura que te escrevo estas linhas. De alguma forma é verdadeira a imagem que tu própria afirmas de ti. Tornaste-te um planta carnívora, uma devoradora de homens. Talvez não tenha nunca perdoado teres-me trocado por outro. Mas não procuro vingança. Quero apenas a Verdade das razões que te levaram a percorrer outros Caminhos.
Os quadros a que te referes, faço-os apenas para “agradar” ao “mercado” sem o qual recurso, lamentavelmente, não poderia sobreviver. Da Arte verdadeira, nos tempos que correm, só os querem coleccionar para quando o tempo chegar, mas a esses reservo-os para mim e apenas alguns amigos mais chegados.
Num quadro pintado para ti, colocaria margaridas e gladíolos apesar de tudo, jamais cravos de que como bem sabes nunca apreciei.
Beijo do teu,
Amadeo

Se ser lido é o primeiro objetivo e obter retorno alimenta o sonho, ser brindado com um texto que suplanta o comentado desvanece qualquer autor. Obrigado!

Muito boa interpretação da pintura! A carta da amada sutilmente retratada! Que ótimo, adorei! E a resposta, do escritor anônimo, na mesma toada maravilhosa! Abraços!

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