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sábado, 10 de agosto de 2013

"Matadouro 5" de Kurt Vonnegut, ou encontrando comicidade na devastação da guerra

Henry Alfred Bugalho

Já havia ouvido falar muito sobre Kurt Vonnegut, inclusive cheguei a traduzir algumas dicas do autor sobre como escrever contos.
No entanto, nunca havia me interessado muito em ler seus romances, isto até fazer um curso online sobre a manipulação da imagem e mencionarem o bombardeamento de Dresden, durante a Segunda Grande Guerra, então surgiu o nome de Vonnegut e de seu principal romance, "Matadouro 5".

Primeiro, precisamos entender o que foi o bombardeio desta cidade alemã.
O ano era 1945 e já era quase o final da guerra. A Alemanha havia sido bastante devastada pelos bombardeios aliados, nenhuma grande cidade industrial havia sido poupada. A oeste, as tropas americanas, francesas e britânicas haviam retomado muitos dos territórios ocupados pelos nazistas e já haviam adentrado o território germânico, enquanto a leste o Exército Vermelho iniciava a contra-ofensiva após a malfadada companha alemã contra a URSS.

Dresden havia sido uma das poucas grandes cidades alemãs que ainda permanecia intacta, principalmente porque não possuía valor estratégico algum, não tinha indústria bélica relevante e sua produção era voltada principalmente a bens de consumo. Quase na fronteira com a antiga Tchecoslováquia, ela estava um pouco distante das principais linhas de frente no oriente e no ocidente.
Todavia, os bombardeios empreendidos entre 13 e 15 de fevereiro daquele ano pela Royal Air Force, um mero ato de retaliação aos ataques da Luftwaffe contra o Reino Unido, provariam ser os mais devastadores e com o maior número de mortes de toda a Guerra, matando até mais civis do que as bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Algumas estimativas apontam que mais de 200 mil pessoas morreram durante aqueles ataques, apesar de haver uma grande controvérsia sobre isto (algumas pesquisas sugerem que estes números são exagerados e que o o total de vítimas não passaria de 30 mil).
O fato é que este evento passou despercebido por décadas, envolto numa nuvem de fumaça, sendo revisitado no final dos anos 60 e começo dos 70, quando novas evidências vieram à tona, entre elas, o polêmico romance de Vonnegut, que havia sido testemunha ocular do bombardeio e de suas consequências.


Kurt Vonnegut havia servido e lutado pelas forças americanas no palco europeu e terminou como prisioneiro de guerra, após o fracasso na Batalha das Ardenas, na Bélgica, sendo conduzido a um matadouro em Dresden, que serviu de cárcere para os soldados ianques, obrigados a realizarem trabalhos forçados.

Foi graças a este matadouro subterrâneo (Schlachthof-fünf, ou matadouro 5, em alemão) que ele e seus companheiros puderam sobreviver ao bombardeio, mas a memória das mortes e da devastação jamais deixou de assombrar a mente de Vonnegut. Segundo ele próprio, "quando voltei para casa da Segunda Guerra Mundial, há vinte e três anos, pensei que seria fácil para eu escrever sobre a destruição de Dresden, pois tudo que eu precisava fazer era relatar o que havia visto. E eu pensava também que seria uma obra-prima ou, pelo menos, que me daria bastante grana, pois o assunto era grande demais". (Slaughterhouse 5, p. 5)

Os EUA têm uma tradição de romances de guerra, ou de romancistas combatentes. Um país que se envolveu em quase todos os grandes conflitos do século XX e XXI, acaba inevitavelmente criando uma cultura da guerra e do massacre. Afinal, não são todas as nações que defendem o direto constitucional de porte de arma a seus cidadãos, nem se consideram o bastião da "liberdade" e da "democracia".
Sem dúvida, o maior símbolo deste espírito belicoso dos norte-americanos é Hemingway, que lutou na Primeira Grande Guerra, relatando suas experiências em "Adeus às Armas" e, posteriormente, cobriu como jornalista vários conflitos na Europa, incluindo a Guerra Civil Espanhola e também a Segunda Guerra Mundial, inclusive extrapolando o papel de mero observador e envolvendo-se em combate.
Não que Hemingway fosse um apologista da guerra, pelo contrário, como ele mesmo afirmou, "escrevia-se antigamente que era doce e justo morrer por seu país. Mas na guerra moderna não há nada de doce ou justo em sua morte. Você morrerá como um cão sem bom motivo algum." (Notes on the Next War: A Serious Topical Letter)

O que Vonnegut e Hemingway têm em comum em suas experiências na frente de batalha, não poderiam ser mais opostos em como cada um deles retratou este universo. Para Hemingway, a guerra não é um assunto sobre o qual se faz piada. É um tema sério e brutal, e que deve ser abordado com esta mesma seriedade e brutalidade.
Vonnegut, por outro lado, até para lidar com o trauma do horror, recai numa comicidade tão natural e extrema, que nem nos damos tanta conta de que aquilo que ele relata é, de fato, uma abominação inconcebível. É como um louco refletindo sobre seu mundo devastado. Um louco criado pela própria insanidade da guerra.
E para Vonnegut não basta apenas uma abordagem pouco convencional, a própria narração precisa ser um mergulho nesta sandice, o próprio protagonista também é, em grande parte, um maluco incompreendido e com profundas cicatrizes na alma.

Não espere uma narrativa linear de "Matadouro 5", nem grandes surpresas ou reviravoltas inesperadas, apesar da escrita ligeira, limpa e incisiva. Logo no primeiro capítulo, o narrador já nos diz sobre o que será o livro e como ele acabará. É sobre o bombardeio de Dresden, e isto já sabíamos, e acabará em suas ruínas.
Vonnegut faz questão de antecipar os eventos, de saltar como um macaco de galho em galho, intercalando futuro, presente e passado, infância, idade adulta e até a morte do personagem, vagando de Dresden para os EUA, para um planeta em outra galáxia, pois, como lhe ensinaram os extraterrestres no livro (sim, os ETs também estão presentes!), "todos os momentos, passado, presente e futuro sempre existiram, sempre existirão." (Slaughterhouse 5, p. 16)
Uma afirmação bastante einsteniana, o tempo não como uma sucessão de eventos, mas num continuum, onde todos os instantes estão lançados no plano do espaço-tempo, a quarta dimensão, que podemos apenas apreender, jamais vivenciá-la.
Quando se elimina a relação de causa-efeito, como ocorre nas experiências de viagem no tempo de Billy, muito da angústia sobre o futuro ou sobre os erros da passado deixam de ter relevância. Tudo tanto faz.

Neste sentido, pouco importa os bombardeios de Dresden, as vidas particulares de cada um de nós, ou até o fim do Universo. Tanto faz.

Publicado em 1969, "Matadouro 5" foi recebido com agressividade nos EUA, sendo banido de escolas públicas por causa de sua linguagem obscena e de sua irreverência, ainda hoje sendo alvo de ataques de pais e professores. Alguns críticos também preferem menosprezá-la, considerando-a uma obra conformista e quietista, que considera o homem desprovido de livre-arbítrio, incapaz de mudar ou melhorar sua realidade.
Quando Billy tentar descobrir uma solução para as guerras na Terra, os ETs respondem: "Em outras épocas, tivemos guerras tão horríveis quanto as que você viu ou sobre as quais leu. Não há nada que possamos fazer sobre elas, então simplesmente não olhamos para elas. Nós as ignoramos." (Slaughterhouse 5, p. 55)

Uma lição de conformismo? Talvez, mas a própria existência deste livro é uma prova que há dores tão profundas que precisam vir à luz, revelando-se aos outros quão graves elas são, mesmo que surjam como um constrangedor palhaço em frangalhos, ainda que cômico mesmo assim.
E nada há nada de conformista neste esforço. Não há nada mais visceral do que revirar e reviver os próprios sofrimentos.

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2 comentários:

Muito interessante. As histórias dentro da História.

Maravilha de crítica sobre um livro também maravilhoso. Até publiquei na minha Reviosta PROTEXTO - http://remisson.com.br/2013/08/19/matadouro-5-de-kurt-vonnegut-ou-encontrando-comicidade-na-devastacao-da-guerra/

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