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quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Dizem que quando a gente morre passa um filme

Dizem que quando a gente morre passa um filme. Mentira. Pelo menos comigo não foi assim. Tive para mim duas sequências que se alternaram durante longo tempo, uma à noite, outra de dia. Não sei precisar o quanto nem quantas vezes cada uma repetiu. Dentro disso eu perdi a noção de quase tudo, desaprendi as horas, a fome, a resistência, o meu nome, boa parte das sensações. Ainda me sabia mulher e dona daquele sobrado por onde vaguei até cansar do cansaço. Cada recomeço de cena me trouxe um detalhe novo e eu fui ficando, aconchegada, nesse movimento de carrossel.

Fazia uma noite quente, com vento que mal, mal sacodia a cortina da janela aberta. Eu mesma bordei as barras do tecido branco, escolhi o varão que o suspendeu e os arremates dourados. Estou no quarto onde vivi com meu marido madrugadas de sono pesado, roncos e algum amor. Minha cama cuidadosamente estendida, os lençóis bem passados e os travesseiros arrumados do jeito que eu gosto. Tenho a impressão de que faz muito tempo que não se dorme aqui. Vejo-me sentada sobre o baú de madeira que pintei de branco. Herança da família. Pensei que trocando a cor daria à peça a chance de pertencer ao quarto do casal, combinando com o resto da mobília. Ajoelho-me em frente ao baú e tento abri-lo, mas não tenho a chave do cadeado que o encerra. Quero ter meus livros nas mãos, rever meus recortes, botar meu perfume preferido, olhar as fotos do meu filho. Em vão. Chego a chorar e bater com os punhos sobre a tampa, peço ajuda, socorro, e ninguém vem. Sou apenas eu diante do baú no meio da noite.

Então muda e faz um entardecer alaranjado. Caminho devagar nos corredores do andar térreo. Na sala, o piano de cauda está no lugar onde deixei. Aproximo-me e toco as teclas, ensaio uma sonata, mas não produzo nenhum som. Não desisto. Circulo entre as poltronas e avisto nas paredes alguns retratos. Somos nós em quatro quadros: o clã ao redor do macho provedor, meu filho em seu terceiro aniversário, meu filho no colo dos avós, e eu, rosto e ombros. Gosto do meu penteado assim, em coque no alto da cabeça e a risca dividindo a cabeleira ao meio. Os brincos de ouro são meus preferidos. De repente passa rente às minhas pernas uma menina de uns dois anos, como se me atravessasse. Atrás dela uma jovem que não conheço solicitando disciplina e calma à criança. O que fazem essas pessoas na minha casa, me pergunto. Não demora, entra pela porta telada da cozinha um rapaz de calça caqui e camisa azul, carregando uma pasta marrom. Reconheço os cabelos lisos e castanhos muito escuros como os meus. Meu filho cresceu. Sinto um misto de orgulho e tristeza, quero me fazer presente e não consigo. Posso, no máximo, deslizar entre eles, observá-los de perto, esperar.

Um dia, a mulher ruiva interrompeu a sequência. Apareceu pela primeira vez de visita, com uma conversa mole sobre vida e satisfação pessoal, cigarro entre os dedos, meu filho atento, a jovem também, sentados ao redor da mesa da cozinha. Ela me percebeu. Me viu e passou a falar coisas olhando bem na minha direção. Fiquei irritada, mandei sair da minha casa. Somente ela ouviu. E ignorou. Voltou outras vezes até que conversamos diretamente. Perguntou se eu já tinha visto o jardim naquele dia. Que dia? - perguntei. Agora, já. Aproximou-se tanto que foi como se ocupássemos o mesmo lugar na cozinha. Ela e eu caminhamos, misturadas, até a porta telada. Ela disse que eu merecia cruzar a linha, vencer o limite. Abriu a porta, disse vai, e eu corri feito criança até a grama. Senti o capim sob os pés e o sol. O sol. Parece terrível assim, a repetição da repetição sem fim. E é. Mas o depois foi pior. Quando cessaram as sequências me ficou o nada. Eu fadada a ser ninguém na claridade.

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