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terça-feira, 25 de junho de 2013

Pigmalião


Joaquim Bispo

Com um pedaço de barro se fez o Homem – diz o texto antigo.
Com um pedaço de pasta de moldar encho as mãos. Amasso-a, aqueço-a como massa de pão. Sinto que não há nada mais sensual. Sem que as procure, surgem-me formas orgânicas. Afinal, vivemos rodeados de seres, de pessoas. Crio espessuras, rotundidades. Faço estiramentos. A pasta é infinitamente moldável, maleável, modelável. Obedece submissamente aos movimentos não pensados das minhas mãos. Surgem cabeça, tronco, ancas, primeiro como meros esboços de volumes, depois em refinamentos de formas femininas. Crescem membros delicados. A textura do material, acetinada, torna-se cúmplice. Irrompem seios, dedos, faces.
Perfeita, a figura feminina reclina-se na minha mão, mansamente. A ilusão de vida é total. Uma emoção perturbadora apodera-se de mim. O quê? Como?


Uma sombra de tristeza primordial instala-se nos meus olhos.

* * *
[Miniconto integrante da antologia do I Concurso de Minicontos Autores S/A – 2013]

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


9 comentários:

Curto e bonito.
Todo criador se apaixona pela sua obra, não? Tirar vida do barro, ou fazer nascer uma mulher culta de uma mulher simples, enfim, transformar o quase nada em tudo. Acho que os escritores somos todos Pigmaliões, não? No final, nossa obra se torna maior e apodera-se de nós.

Hora de modelar uma maçã e uma serpente. Abs

Obrigado!
Sim, envergonho-me de reconhecer alguma falta de humildade, mas gosto muitas vezes dos textos que escrevi. No entanto, sempre lhes introduzo pequenas alterações, quando volto a usá-los.
Esta peça tem 25 anos e foi realmente perturbadora, talvez por ser iniciante na arte.

hahahaha Vi agora o final! De romântico a sensual, foi isso que os 25 anos lhe causaram! Vão-se os anos,mudam-se os finais...

Desculpem ter alterado, pela segunda vez, a frase final. De sensual a trágico?

Em 25 anos dá para notar a mudança de tom e estilo, Joaquim. Não saberia dizer qual destes dois Joaquins prefiriria.

O artista, além de fingidor, é um incompreendido: quando fala em peça com 25 anos, refere-se a uma estatueta em pasta de moldar, mas entendem-na como peça de escrita... :(

Algo me diz que você ainda vai mudar esse final outra vez...

KKKKKKKKKKKKKKKKKK

É por aí, Joaquim, é por aí!

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