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sábado, 22 de junho de 2013

Contra a estatística

- Alô, mãe? Que bom que tu atendeu esse telefone, criatura! Já liguei umas quantas vezes e só me dava caixa de mensagem. Escuta, eu preciso de ajuda.
- Oooooi, filhota! O celular tava na bolsa, não ouvi. Mas não me preocupa, o que foi que aconteceu, querida?
- Não te assusta, é assim: meu carro pifou. Tava andando bem, aí um barulho de batida, um toc-toc seco, depois trancou todo e veio um cheiro bem forte de queimado. Estacionei, esperei uns dois minutos e tentei ligar de novo. Nada. O carro tá mortinho.
- Aciona o seguro agora, enquanto eu localizo teu pai. Se for o caso vou de táxi até aí, ou chamo o Maurinho aqui de baixo para nos ajudar. Ele deve entender alguma coisa disso, sei lá. Já são quase dez da noite. Aonde é que tu tá?
- Calma, mãe, escuta: não dá. O seguro venceu faz duas semanas. Esqueci de renovar. Baita bobeira. Presta atenção, eu não sei direito que lugar é esse e eu meio que tô em pânico. É na zona oeste, a ruazinha fica perto de um beco, logo que sai da estrada. Tem uma valeta grande e um mercado azul chamado Estrela Dalva. Tô com medo.
- Que tu tá fazendo aííí?! Barra pesada, pesadíssima. Sobe no primeiro ônibus que vier e te toca pra casa. Fecha esse carro, amanhã a gente vê. Tem alarme, não? E se levarem, azar. Saí já daí. Tô ligando pro teu pai agora, beijo, tchau.
- Mããããe, não desliga!
Nem sinal de ônibus, um risquinho de bateria do celular. O corpo inteiro gelado. Crise de asma começando. Que zica. Vem um rapaz ali da esquina na minha direção. Abro o vidro? Não tem jeito de bandido, aliás tem pinta de mecânico, aliás tem cara de prestativo, aliás é franzino e se precisar dou conta de fugir, mesmo com essas botinas.
- Oi, moço, tu é mecânico?
- Sou. Ouvi um barulhão antes de tu parar. É motor, quer que eu dê uma olhada?
- Não sei o que houve com o carro. Por favor, me faz essa gentileza?
- Sem problemas, dona. Só preciso das ferramenta. A minha casa é ali, ó. Vem comigo para não ficar no sereno. Essa hora é perigoso. Me espera aqui no pátio.
O telefone de Renata se desliga com oito chamadas não atendidas. O cara volta de casa com uma barra de ferro na mão. Parte para cima dela e diz me dá, ô, vagabunda. Cala a boca e deita que é melhor. Vai correr e sente a pancada nos ombros. Cai de bruços. Peso morto por cima. Não entende como, mas já está de costas na grama molhada, braços imobilizados, o ar curto no peito, a barra perto do muro que os separa da rua deserta. Um tapa, outro, sangue pelo nariz. A saia erguida de qualquer maneira. Algo morno entre as pernas. Ódio quente na garganta. Sufoca o grito, mas deixa a boca agir, mordendo a bochecha com barba até tirar pedaço. Libera o braço e crava as unhas no rosto vermelho diante do dela. Caça a barra de ferro. Bate com força. De novo. De novo. Chora e cospe e cospe. Cretino. Por sorte, vem vindo o primeiro ônibus e ela se toca para casa.

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Andréia Alves Pires
Nasceu em Rio Grande, cidade ao sul do Rio Grande do Sul, é jornalista, mestre em história da literatura e autora do livro de contos De solas e asas. Integra o Coletivo Fita Amarela, colabora semanalmente com contos ao jornal Diário Popular e publica o que escreve, em primeira mão, no blog www.desolaseasas.blogspot.com.
todo dia 22


5 comentários:

Eu agora já aprendi a esperar pelos seus finais de adrenalina pura. Quer saber? Tenho até medo de pensar em duas coisas. A primeira é que se fosse com minha filha ou comigo ou se visse acontecer, faria a mesma coisa com aquela barra de ferro. A outra é que não sentiria o menor remorso. Acho o estupro o pior crime contra a mulher. E mandar vagabundo pra cadeia pra quê? Pena leve, e isso se a vítima puder provar. E ainda tem imbecil por aí dizendo que tem mulher que provoca. Nossa, fui longe com seu texto! Excelente!

Forte. Mas deste gosto mais.

Muito bom. Cruel, mas realmente interessante e de efeito.
Bjs.

foda-se!
perdoe o peso da expressão, mas foi o que saltou a terminar de ler
brutalmente realista e por isso... saio senão ainda repito o palavrão

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