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terça-feira, 16 de abril de 2013

Vem também

Chamou a atenção do motorista e de alguns passageiros quando subiu, cambaleante, os degraus do ônibus, parecendo embriagada. Algumas mechas caíam-lhe do rabo de cavalo malfeito, grudando-se ao suor do rosto lívido. O corpo encurvado, a mão trêmula sobre o ventre e o rosto que se contorcia em esgares faziam pensar no que estaria acontecendo àquela menina magra de pouco mais de 18 anos. Olhos baixos, como se a claridade a incomodasse, aceitou o lugar que lhe foi oferecido por milagre no veículo lotado. Tão logo se sentou, sentiu as carnes repuxando por dentro e uma dor muito forte no peito, impedindo-a de respirar. Alguma coisa não tinha dado certo. Ela ainda podia sentir os ferros da fazedora de anjos arrancando, indiferente, o seu destino indesejado. Por entre as pernas dormentes, escorreu um sangue escuro, sujando a calça jeans surrada, mas ela manteve as duas mãos pressionando a barriga, mostrando que só ali havia sofrimento. Quase desfalecida, foi deixada por uma alma anônima num hospital público, onde morreu sozinha no chão sujo do banheiro, poucas horas depois, esperando atendimento. Antes de fechar os olhos para sempre, escutou o chorinho fraco de bebê e a voz de criança que lhe pedia: “Vem, mamãe, vem também!”. 
 

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Cinthia Kriemler
Formada em Comunicação Social/Relações Públicas pela Universidade de Brasília. Especialista em Estratégias de Comunicação, Mobilização e Marketing Social. Começou a escrever em 2007 (para o público), na oficina Desafio dos Escritores, de Marco Antunes. Autora do livro de contos “Para enfim me deitar na minha alma”, projeto aprovado pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal — FAC, e do livro de crônicas “Do todo que me cerca”. Participa de duas coletâneas de poesia e de uma de contos. Membro do Sindicato dos Escritores do Distrito Federal e da Rede de Escritoras Brasileiras — REBRA. Carioca. Mora em Brasília há mais de 40 anos. Uma filha e dois cachorros. Todos muito amados.
todo dia 16


13 comentários:

Tão profundo, tão próximo da triste realidade do nosso Brasil!

Lindo texto Cinthia!!!

Um abraço

Obrigada, Daniel! É verdade, não? Triste realidade.

Meu amigo Joaquim, dureza, não?

credo Cinthia! esta foi em cheio na minha fraqueza!!
e nem palavra a mais e nem palavra a menos!Bingo no leitor que sou eu, de vez em quando, assim, desprevenida!

Assim não vale mesmo, Cinthia. Além da dura realidade, esse final faz a gente engolir em seco.

Fátima, acho que se nós duas lançássemos um livro em conjunto, sobre mulheres e seus dramas, íamos vender os exemplares junto com uma caixinha de lenços de papel. A gente vive, vive e acaba por conhecer tantas histórias, tantas tristezs, hein, minha amiga? Obrigada!

cecilia, há que se tentar enxergar dos dois lados, não? ou seriam quantos lados nessas questões tão delicadas? Bjs e obrigada.

" íamos vender os exemplares junto com uma caixinha de lenços de papel" :)

Texto de rasgar o coração, de fazer nossos minadouros portáteis desaguarem "milágrimas"...
Abs,
Tarlei

Obrigada pela leitura e comentário, Tarlei.

Qual dura crueldade estampada numa cruel realidade de uma vida, numa Sociedade sofrida por Socialmente desprovida do essêncial,
porque despida de Justiça... Forte,mas Real! Forte como é hábito...
Um muito obrigado, Réjo Marpa

Obrigada pela leitura e comentário, Réjo Marpa!

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