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quarta-feira, 24 de abril de 2013

RESENHA: TERRA DE CASAS VAZIAS, de André de Leones


André de Leones
Rocco, 2013
318 p.
R$ 34,50



Assim que acabei de ler, pousei o livro nas pernas. Olhei para a capa por um minuto, talvez nem isso. Estava num local público, a trabalho (mas numa situação em que podia pôr minha leitura em dia). Depois desse intervalo de silêncio, senti-me tentado a compartilhar com alguém. Escrevi numa mensagem de celular, para contar a uma pessoa querida, que sabia o que estava lendo.

Terminei de ler Terra de casas vazias. Muito bem escrito. Um rico universo psicológico. Personagens bem construídos – que vivem numa espécie de silêncio social difícil de romper. A narrativa acontece muito no imaginário de cada um deles, atravessada pelo peso da solidão em que se vive, por perdas irrecuperáveis, mas por uns fios de esperança também: a possibilidade de existir, viver e cruzar desertos (físicos, como Brasília, um hospital, Israel; e íntimos, como a separação, a doença, os traumas e a morte). Ótimo romance. Mesmo.

O romance é dividido em cinco partes, com uma brevíssima sinopse abrindo cada uma.

“A primeira parte deste romance é também intitulada Terra de casas vazias e se passa em 2009. Nela, encontramos Arthur e Teresa. Eles vivem em Brasília. Tentam lidar com uma grande perda. No final, decidem fazer uma viagem.

“A segunda parte de Terra de casas vazias é intitulado Miastenia. Continuamos em Brasília, agora na companhia de Aureliano e Camila. A pedido de Camila, Aureliano parou de fumar.

“A terceira parte de Terra de casas vazias é intitulada Presente contínuo. Ela se passa em meados de 1986. A pequena cidade de Silvânia, no Centro-Oeste do Brasil, é o cenário. Arthur vive ali com seus pais, e recebe a visita de Aureliano.

“A quarta parte de Terra de casas vazias chama-se A inutilidade. Nela, somos apresentados à mãe e às irmãs de Aureliano e viajamos por São Paulo e Goiânia. A mãe se chama Isadora e as irmãs, Maria Fernanda e Marcela. Marcela é escritora e, anos atrás, esteve internada numa clínica, onde conheceu Nathalie.

“A quinta é última parte de Terra de casas vazias é intitulada Mar Morto. Acompanhamos Arthur e Teresa em sua viagem a Israel e reencontramos Marcela e Nathalie em Jerusalém. Ao final, lemos um conto de Marcela, passamos rapidamento pelo apartamento de Aureliano e Camila em Brasília e em seguida descemos ao Mar Morto com Arthur e Teresa, e o romance termina.

Em algumas entrevistas sobre este e outros livros, André de Leones diz que esta é uma “narrativa pretensiosa”, diferente de suas outras anteriores, onde apresenta um estilo mais cinematográfico e ágil. Desejoso de que este fosse mesmo de ação mais lenta, mergulhou na pesquisa dos romances psicológicos, nos clássicos do século XIX e XX. Parece-me ter sido feliz nesse ponto.

A leitura desse romance contrariou muito positivamente minhas expectativas (de modo geral, não as crio antes do final da primeira página). Entendi-o, se ainda é possível esse tipo de classificação, como um romance psicológico: o tempo é difuso, a ação em alguns pontos é anulada e a imersão da narrativa se dá para o imaginário dos personagens. Longos trechos passam inteiros, ou quase inteiros, na reflexão dos personagens sobre as coisas, os sentimentos, a auto-imagem, os eventos passados, as instituições, Deus, os lugares e as impressões que eles lhas causam. Esse transbordamento da imagética para o espaço físico cria uma bonita construção do ambiente: todos os lugares são desertos. Bonita, e às vezes asséptica, livre de sentimentalismo. O autor narra a existência desses desertos como uma constatação.

O fio condutor, a história que “acontece” no romance é a viagem do casal Arthur e Teresa, de Brasília para Jerusalém, seu contexto e suas implicações, para ambos os personagens. Como se pode supor, há uma tristeza longe de ser melancólica, que perpassa suas vidas e suas maneiras de ver e perceber o mundo. Tudo motivado pela perda irrecuperável de um filho. Com isso, outras histórias se desdobram para conhecermos esse contexto, e a transversalidade desse sentimento nas vidas de outras pessoas, mais ou menos próximas, desse casal. Assim também sabemos dos seus dramas, as suas perdas, os seus desertos. suas viagens, e suas mudanças geográficas que representam (será? não fiz nenhum esforço exegético nessa leitura) o transcorrer da vida, dos fluxos da vida, e a travessia desses desertos, e o que se encontra depois da travessia.

Terra de casas vazias é uma leitura mais que interessante para quem pretende começar por algum lugar na literatura em prosa brasileira contemporânea. Segue um excerto da primeira parte – não é para exemplo, mas pode-se perceber muito claramente o tom e a forma empregadas por André de Leones.


__________



Garoava quando Teresa deixou o prédio. A visão através das lentes dos óculos escuros impossibilitada em questão de segundos, o mundo mais e mais embaçado e disforme. Esperou até que tudo se transformasse em um borrão para tirar os óculos e encaixá-los na blusa, junto ao pescoço. Não precisava deles, na verdade. O dia tão escuro. Em seguida, cobriu a cabeça com o capuz, colocou as mãos nos bolsos da blusa de moletom e saiu pela calçada. Uma adolescente cabulando aula. Dia útil para os outros, não para mim. Seus passos eram incertos, como se tivesse bebido um pouco, e caminhava olhando para o chão, com medo de tropeçar no pavimento cheio de buracos, rachaduras, poças d'água, entulhos. Estava agora a favor do vento, o que não era ruim. O vento investia contra as suas costas e era como se a empurrasse. (Veja: sem raizes aqui.) À esquerda, do outro lado da rua, as árvores do parque ainda se dobravam. Lembravam pessoas se alongando antes de correr num domingo ensolarado. Evitou olhar para as árvores. A mesma sensação desoladora que tivera ao observá-las pela janela da sala, de que elas migrariam a qualquer momento. Não queria vê-las ir embora. Ou talvez elas apenas se dobrassem até quebrar. (Tudo se dobra e vai ao chão num estrondo, de um jeito ou de outro, mais cedo ou mais tarde.) Não queria vê-las se dobrando até quebrar. Não queria ver nada, mas um trecho menos acidentado da calçada permitiu que levantasse a cabeça. A cidade ao redor com que interditada, ninguém à vista. O cenário desolado de um filme apocalíptico. O mundo acabou: agora, podemos viver. Mas não havia ruínas. Os prédios, inteiros, se repetindo a distâncias regulares. Brasília, ora essa. Tudo em Brasília se repete a distâncias regulares. Fim do mundo, mas um apocalipse higiênico que extinguisse a vida humana, não as edificações. Todos os apartamentos vazios, como os de um prédio terminado e nunca inaugurado. Silenciosa e tranquila terra de casas vazias. Por alguma razão, isso lhe pareceu justo. Deus estala os dedos e desaparecem os seres, deixando os prédios intactos: concreto deiforme. Justo e agradável, sim. Glória a Deus nas alturas. Ao Senhor, que matou o próprio filho e também o meu. Também o meu. Respirou fundo. Não se sentiu melhor. Qual é a porra do Seu problema? Arrancando os filhos de suas mães. Disseram a ela que não pensasse nisso. Não pensasse nessas coisas. Não pensasse. Todos, sem exceção. Mas como não? Quando a falta é o que há. Quando tudo se reduz à ausência. Creio Em Deus Pai Todo-Poderos Criador Do Céu E Da Terra E Em Jesus Cristo Seu Filho Ungênito Nosso Senhor etc. Seu Filho Ungênito. Tenta não pensar nisso, disseram. É difícil, quase impossível. Mas tenta. Para não enlouquecer. Para se recompor. Para seguir em frente. Você e Arthur. Ele precisa de você. Que infantil, ela penso. Tudo, tudo isso. Do começo ao fim, afora e adentro. Pensar ou não pensar, seguir em frente ou não. Que besteira, que.

Tropeçou.

Uma rachadura na calçada, o tropeço e ela caindo de joelhos, as duas mãos ainda nos bolsos. Soltou um gemido, a boca mal se abriu. Não doeu com a testa no chão por muito pouco. Levantou-se com dificuldade. Dois pequenos rasgos na calça. Os joelhos agora poderiam enxergar o que estivesse à frente. Dois olhos vermelhos bem no meio das pernas. O moletom preto, quase não se percebia. Algumas lágrimas rolaram, poucas. Mais pelo susto. Esperou que o tremor das pernas passasse. Então, seguiu viagem, mais do que nunca concentrada no chão.

(Qual é a porra do Seu problema?)




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(Primeira Parte, capítulo 2, 21-23)

Editora Rocco
www.rocco.com.br
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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

todo dia 08


3 comentários:

Estreou com maestria as resenhas! Uma descrição honesta e apetitosa do livro de Leones. E, coincidência ou não, ambientado, em parte, na cidade onde moro, Brasília. Título e capa são impecáveis. E o conteúdo chama para a leitura. Muito bom, Volmar!

o grande Volmar da palavra! aqui a dizer da palavra de outro de modo apetecível, e eu apenas agradeço.

Excelente resenha! Já havia me deparado com esse livro nas livrarias, mas acabei adiando a compra. Agora tenho um motivo mais para fazê-la logo. Parabéns, Volmar!

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