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domingo, 21 de abril de 2013

Entrevista com um papagaio de pirata


- Estamos aqui na Cinelândia com o senhor Jair. Ele é conhecido como o maior papagaio do pirata do Rio de Janeiro, aqueles sujeitos que ficam atrás das equipes de reportagens e dos entrevistados com o único objetivo de aparecerem na televisão. Bom dia seu Jair.
- Bom dia, dona...
- Cláudia Freitas...
-... dona Cláudia Freitas.
- Quando o senhor começou sua carreira de papagaio de pirata?
- Isso foi há muitos anos. Eu estava indo para o escritório onde eu trabalhava depois do almoço quando uma pessoa caiu dentro do buraco da obra do metrô lá na Rua Uruguaiana. Juntou gente para ver o resgate e quando eu fui assistir o jornal à noitinha, vi que eu estava atrás do Bombeiro que fez o regate e estava sendo entrevistado por uma mocinha que agora é apresentadora daquele programa de domingo à noite e que esqueci o nome. Mal acabou a reportagem, meu telefone não parou de tocar. Era um tal de parente, amigo da roda de chopp, colega de trabalho dizendo. “Pô, cara! Te vi na televisão! Aí, eu tomei gosto pela fama e estou aqui até hoje.
- O senhor é muito conhecido por suas aparições. Como o senhor sabe onde as equipes de televisão estarão?
 - Ah, minha fílha... feeling... Tem uns lugares básicos onde sempre tem jornalista de TV. Aqui, na Cinelândia é um deles. O Largo da Carioca é outro lugar fácil de achar repórter. A Praça Nossa Senhora da Paz em Ipanema também é outro ponto bom. Tenho que ficar atento aos horários também. Os jornais de manhã e da hora do almoço sempre entram ao vivo. Aí eu dou um uma arriscada por estes lugares e, de cada cinco, seis tentativas, uma eu acerto.
- O senhor não se incomoda de ser chamado de papagaio de pirata?
- Que nada, minha filha. Essa gente é invejosa. Já fiquei atrás do ombro de ministro, jogador de futebol, cantor de dupla sertaneja e até de um governador de estado. Tudo inveja.
- E a concorrência?
- Pois é. Apareceram uns caras agora que querem competir comigo, mas eu sou mais eu. Se for necessário, eu dou um chega pra lá e me posiciono melhor. Essa garotada tem que comer muito arroz com feijão para aparecer na televisão. Mas tem uns meninos que me respeitam, pedem até umas dicas. Pra estes eu até dou uma mãozinha, mas não ensino o meu pulo do gato.
- E quais são as dificuldades que o senhor encontra nesta sua atividade, seu Jair?
- Os cinegrafistas! São piores que os repórteres. Tem uns que já chegam dando esporro, mandando a gente ficar de longe. Outros desfocam a nossa cara, movem a câmera para deixar a gente fora de cena mas, eu já sou macaco velho e quando percebo o  movimento da câmera, dou um passo de leve para a direção que o cinegrafista aponta e fico em cena. Tem uns entrevistados que também ficam fulos da vida. Quando acaba a entrevista saem logo para a ignorância, dizendo que eu atrapalhei o desempenho deles e o diabo a quatro. Mas eu fico na minha, mantenho minha postura. Sou um gentleman. Não vou ficar dando cartaz a qualquer um.
- Afinal de contas, por que o senhor faz isto?
- Por quê? Para ser famoso, minha filha. Todo mundo quer ser famoso, aparecer na televisão. Você mesma não ta aí na batalha para ficar famosa? Aliás, de que canal você é?
- De canal algum. Isto aqui é uma reportagem para o jornal de faculdade de jornalismo onde eu e o Bruno, que está operando a câmera, estudamos. Vai passar só lá.
- Caramba, minha filha! E eu perdendo o meu tempo com você? Faça-me o favor! Jornalzinho de faculdade! Era só o que me faltava! Tá me achando com cara de palhaço? Que não tem o que fazer? Ora essa!

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Zulmar Lopes
Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Finalmente concluiu o maldito romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca e está na expectativa de que alguma editora incauta se atreva a publicá-lo.
todo dia 21


1 comentários:

Eh, eh!

E entretanto percebi que "pulo do gato" é uma expressão brasileira.

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