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terça-feira, 19 de março de 2013

Um filme à meia-noite (Parte 2)

(Maristela Scheuer Deves)

Na escuridão completa, seu coração deu um salto. Sem nem mesmo perceber, trancou a respiração e ficou estática, sem mexer um músculo. Só escutando. O ruído dos passos cessara, mais uma vez. Depois de alguns segundos, atreveu-se a respirar novamente e baixou as pernas da poltrona da frente. Ficava ali esperando para ver se o filme recomeçava, ou saía da sala?

Seu desejo, tinha de admitir, era sair dali imediatamente, mesmo que nunca ficasse sabendo o final da história que tanto quisera ver. Seu orgulho, no entanto, obrigava-a a continuar ali, esperando. Eles vão voltar a passar o filme, e as luzes de emergência vão voltar a se acender, garantiu a si mesma em pensamento (ainda não se atrevia a falar alto, mesmo estando sozinha na sala - estaria mesmo?).

Esperou pelo que lhe pareceu uns dois minutos, depois cinco. Já se mexia incomodada na poltrona quando os passos voltaram. Eles estavam ali, não era produto de sua imaginação. Talvez fosse um funcionário do cinema, que procurava-a para avisar que houvera um problema técnico ou de falta de luz, e que ela deveria voltar outro dia ou aguardar por tanto tempo. Se era um funcionário, porém, por que ele andava no escuro, sem uma lanterna? Por que não falava nada? Por que só andava, sorrateiramente? Por que...

Foi aí que ela ouviu. Além dos passos, havia algo mais. Uma respiração pesada. E não era ela, tinha certeza. Como alguém respirando pela boca, ou talvez... O som chegou mais perto, e já não parecia mais uma respiração, por ais pesada que fosse. Agora, parecia mais um rosnado... Algo inumano, algo animal. Começou a tremer, incontrolavelmente, e sufocou um grito. Fosse quem fosse (ou o que fosse, corrigiu-se mentalmente), melhor não revelar sua localização.

Localização. Era isso, precisava se localizar. O rosnado e os passos vinham de trás, vagarosamente, porém se aproximando. A entrada estava à frente, à direita. Ou seria à esquerda? Droga de cinema, em que cada sala te entrada por um lado! Se ao menos as luzes de emergência tivessem continuado acesas, ela saberia onde estava a saída...

Deixou escapar um gemido, e a coisa que estava atrás ouviu, tinha certeza. Até rosnou mais alto dessa vez, derrubando as últimas dúvidas que ela tinha. Agora, o barulho estava muito próximo. Uns dois ou três metros, no máximo. Levantou-se, tentando não fazer barulho. Precisava sair dali, e o mais rápido possível. Mas como? Para que lado ir? Ainda se decidia, tentando enxergar algo na escuridão absoluta, quando alguma coisa tocou o seu ombro, e ela não pensou mais: correu na direção oposta, tropeçando nas poltronas no caminho.

(termina no dia 19 de abril)

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Maristela Scheuer Deves
Jornalista por formação e escritora por vocação. Atua como editora assistente de Variedades no jornal Pioneiro, de Caxias do Sul/RS, em cujo site também mantém o blog Palavra Escrita, voltado ao mundo dos livros. Escreve desde que consegue se lembrar, e atualmente prepara para publicação seu terceiro livro, o infantil "Os Deliciosos Biscoitos de Oma Guerta", contemplado pelo Financiarte. De sua autoria, já estão nas livrarias o romance policial "A Culpa é dos Teus Pais" e o infanto-juvenil "O Caso do Buraco".
todo dia 19


2 comentários:

Ai, ai, ai... Quem deixou sair o lobisomem?

Ai!!! Abril, ainda??? Parece lobisomem, rosna como lobisomem... Mas será um lobisomem? E o que será que ele vai fazer com ela? Daqui até abril, será que dá tempo de passar a lua cheia? Aguardemos!

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