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sexta-feira, 8 de março de 2013

o que todos os pais pensam






não acredito em deus
eu dizia nas solidões
não acredito em nada

as pedras ainda são as pedras entretanto
o céu ainda empurra nuvem depois de nuvem
chove e nos janeiros é ruim dormir porque o calor tem asas de mosquito
deus não está me observando e nem vai me punir porque não acredito

as lágrimas ainda lavam as mais belas bochechas
assim como lavam também as faces feias
os rostos dos condenados a passar anos na cadeia
as mãos despretensiosas dos trabalhadores indonésios
os lenços de papel burgueses
eu choro por uma porção de razões minhas
lágrimas amigas choram seus motivos (às vezes eu sou o motivo)
deus não faz nada para enxugá-las
deus não sabe nada sobre as alegrias e as tristezas
deus não sabe nada sobre o meu menino

meu menino vai ter suas cantoras preferidas e vai se apaixonar por elas e pelas mulheres que as canções de suas cantoras o lembrarem
vai chorar desesperado algumas vezes na vida e eu não vou poder fazer muita coisa
além de dizer que isso passa e que as garotas sempre nos fazem chorar
e que nem é bom ouvir certas canções em certas datas
mas que elas nos fazem muito bem também
e que quando elas estiverem tristes vai ser bom poderem contar com ele
porque ele será um bom rapaz
não só um belo homem mas um bom rapaz

(considerando que ele vá gostar de garotas
se ele gostar de rapazes as coisas não serão muito diferentes)

mas 
antes disso
meu menino vai ter de aprender a andar
e é muito bonito ver o esforço dos primeiros passos
e as suas gargalhadas pelas menores coisas de seu pequeno universo
(as coisas abstratas ele só vai entender 
quando já houver chorado por coisas abstratas)

deus não sabe que meu menino ainda não sabe andar
deus não sabe que meu menino tem muita sorte e muitos amores e uns quantos pares de olhos e mãos e pés para cuidar dele bem melhor que eu
e ainda que tudo corra bem
todos vão pensar ter feito algo errado

desconsiderando deus
todos os pais pensam









publicado originalmente em Pragas Urbanas Renitentes & Depois

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8 comentários:

que me perdoe o deus em que não acreditamos, mas eu nem tenho outro a quem agradecer por estar com este sentimento bom apenas por ter lido
obrigada deus
muito obrigada pelos dons assim que tão bem distribuis

Pois é, Volmar, eu que acredito em Deus fico chateada com Ele por um monte de coisas. Por acreditar, eu cobro sobre " os rostos dos condenados a passar anos na cadeia /as mãos despretensiosas dos trabalhadores indonésios..." E por acreditar eu cobro dele por que não faz nada para "enxugar as lágrimas", minhas e de tantos!
Seu texto me emocionou até as lágrimas. Não é incomum, mas é raro.
Obrigada por essa belíssima leitura!
E veja que, crendo ou não crendo, passamos todos pelas mesmas dúvidas, inseguranças, tristezas, questionamentos. Minha filha tem 23 anos. E ainda "não anda" em muitas coisas que precisa de mim. E eu lamento não poder ser estrada onde ela pise, banco onde ela descanse... Quanta impotência! Mas posso ser amor. Para ela. Com ela. Reflexões que me vieram desse texto que, como disse (e quero repetir) é belíssimo! Obrigada!

* "não é impossível, mas é raro...", queria dizer eu.

eu acredito, ainda, em um deus egoisticamente meu. e, acredito nesse texto e sua verdade poética. sou como a maioria contraditória, mas como a minoria, sei apreciar o belo e, aqui ele é.rosana banharoli

Independente daquilo que se acredite ou que se queira para os nossos filhos [a esse mesmo do poema, desejo um monte de ilusões que não consigo manter em mim], é um excelente poema esse, excelente!

Este comentário foi removido por um administrador do blog.

ah, obrigado pela querideza.

emoção! me senti assim, com o olhar filtrando cada palavra, e sentindo essas palpitações quando o assunto é filhos...
tenho os meus, e sempre penso, ainda penso, muito...
naquele que já não divide mais o seu sorriso farto e o olhar perguntador, terá sido "deus?"
e aquele que eu chego em casa e ainda há tempo para olhares provocativos e risadas descomprometidas
é isso aí meu amigo, pensar me faz ainda viva
beijo no coração!

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