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sábado, 9 de fevereiro de 2013

O Rei e os seus Ministros

 
ilustração Matos Costa

O Rei e os seus ministros

Era uma vez um Rei que tinha três ministros.
E os ministros decidiam, punham e dispunham e o Rei assinava, mataborrava, lacrava e selava tudo o que os três ministros decidiam, punham e dispunham.
E cada vez que os ministros reuniam para decidir, pôr e dispor e o Rei assinava, mataborrava, lacrava e selava, o País perdia um bocadinho de cor.
Tudo começou tão devagarinho que quase nem se deu por isso.
Primeiro as pessoas deixaram de vestir de vermelho, depois esqueceram o verde, o amarelo e começaram a vestir de preto, cinzento e castanho.
E os ministros continuavam a reunirem-se para ministriarem, decidirem, porem e disporem e o Rei continuava a assinar, mataborrear, selar e lacrar e as pessoas deixaram de pintar as casa, as cores foras descascando, escorrendo pelas paredes, até que ficaram todas do mesmo tom cinza pálida.
 E esqueceram-se dos jardins e das flores, de regar a erva e tudo foi ficando cinza, castanho, preto, queimado, esquecido.
Um dia o Rei chegou à janela e olhou aquele país sobre o qual ele assinava, mataborrava, selava e lacrava e sentiu o peso do país sem cores e a tristeza que mataborreava tudo.~quando os três ministros que tudo decidiam souberam que o Rei ia sair para observar de perto o seu Reino, acorreram imediatamente, cheios de urgências e muitos, muitos decretos a necessitar serem assinados, mataborreados, lacrados e selados e, perante tanta insistência o Rei prendeu-os numa rede mágica que encolhia um bocadinho de cada vez que eles asneiravam no seu decidir, ou no pôr, ou no dispor.~hoje o Rei tem os três ministros em cima da secretária, vivem num cubinho de rede muito pequenino, sevem de pisa-papeis a todos os decretos que o Rei trata de assinar, mataborrar, lacrar e selar para ver se as cores regressam ao seu país cada vez mais cinzento.

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Maria Isabel Moura
Nasceu na Covilhã e não adere ao acordo ortográfico.
É autora de: "Vinte maneiras diferentes de contar a mesma história", que por acaso chegaram às 55 histórias, até expurgar a situação e que foi Prémio Nacional de Conto Manuel da Fonseca.
É autora de: "Todo o começo é involuntário", livro erótico, com prefácio de Urbano Tavares Rodrigues, que passou em brancas nuvens pela sociedade portuguesa, sem espalhafato...
E de: "Vamos dar pontapés na lua", livro infantil, em que revisitei a minha infância.
todo dia 09


4 comentários:

olá temos aqui gente do dizer literatura!! gostei demais Isabel!

Bem Isabel, estás na linha dos contos da crítica social e política que, bem contado e como uma dramatizaçãozinha pelo meio, seria pedagógico até para crianças.
Vou passá-lo para meu blogue claro que com o nome da autora e com a ilustração do Chico.

No inteligir e perpectivar tens a mestria!!!!
Quero ser rei no teu reino e liquidar todos os ministros, não vá a política morrer de insignificância...
O teu admirador
Emanuel de Pádua

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