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segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Dia do Juízo Final


Joaquim Bispo



Olá, caras amigas, amigos! Acabei de chegar do Juízo Final, e ainda estou meio deslumbrado. Por isso, relevem alguma inconveniência que eu diga. A propósito, não vos vi lá! Deixem-me adivinhar: nem foram convidados… Não fiquem aborrecidos – continuem a enviar currículos. Devem estar, por isso, curiosos em saber como decorreu esta edição do Juízo Final. Eu conto:

O Juízo Final deste outono – inverno estava marcado para 12/12/12, não só para dar tempo de se acabar o Mundo a 21, conforme profetizado, mas também porque Deus gosta destas datas com números repetidos, para não se esquecer. Mesmo assim, deixou passar o especialíssimo dia 11/11/1111. Parece que nessa altura andava distraído com o hobby de desenvolver a peste negra, que foi um sucesso algum tempo depois. Já em 8/8/1888, a razão do esquecimento foi a azáfama de tentar convencer toda a gente que Ele é que tinha criado a Evolução.

Desta vez, cumpriu-se a escritura. O cenário, feericamente iluminado, era deslumbrante: em círculos envolvendo a cadeira d’Ele, legiões de anjos, querubins, serafins e arcanjos perfilavam-se em “ombro arma”. Mais abaixo, santos de todas as maleitas e clérigos de todas as patentes esperavam pacientemente a prometida honraria de entrada no Céu, ao som de fanfarras. Por fim, multidões incontáveis entretinham-se a cochichar ou esticavam o pescoço, ao reconhecer esta ou aquela celebridade que só conheciam do catecismo. A entrada de Maria Madalena provocou mesmo uma enorme ovação e alguns assobios de apreço. A chegada conjunta da irmã Lúcia e da madre Teresa de Calcutá suscitou o primeiro “Misericórdia!” da noite.

Os pagãos estavam visivelmente fora do seu meio e olhavam repetidamente para o relógio, temendo perder o último transporte para casa.

Finalmente, aí pelas dez e meia, ouviram-se trombetas estridentes e a voz cavernosa do Diabo anunciou: «Sua Omnipotência: Deus!» Este entrou arrastando os pés sob uma túnica fora de estação, seguido pelo Filho com ar cabisbaixo, e sentou-se de cenho carregado. O Diabo fez-se ouvir pela segunda vez: «Está aberta a sessão.»

Como era evidente, julgar todos os presentes, um a um, seria tarefa para milénios, isto falando em julgamento justo, com concessão de todos os direitos de defesa aos réus. Deus, para evitar o arrastamento do julgamento e previsíveis recursos para o Supremo, anunciou que a sessão era única e inapelável. Na verdade, não houve defesa, ninguém pôde justificar-se e as sentenças foram coletivas.

Por exemplo: «Aí em baixo, toda essa caterva de beatos, místicos, ascetas, e todos esses padres, freiras e mulás vestidos de preto, ou de branco, e todos esses bispos e cardeais de vermelho, vão para a reciclagem – fundir e voltar a moldar. Motivos? Não Me ouvistes dizer “Crescei, multiplicai-vos e povoai a Terra”? E o que fizestes vós?: abstinência, temperança, mortificação da carne, e outras parvoíces. Diabo, toma nota: reciclagem!»
De todos os pontos desse enorme grupo, ergueram-se pedidos de clemência e protestos de inocência. Do tipo: «Desse crime não posso ser acusado. Estão aí os meus filhos para o provar.» Ou: «Eu era o melhor cliente do bordel da cidade». Ou ainda: «Eu não tenho culpa que as crianças não engravidem!».

 A seguir, disse Deus: «Todos os médicos aqui presentes, veterinários, caçadores, desinfestantes, pasteurizadores, farmacêuticos e todos os fabricantes de químicos mortais, em geral: reciclagem! Não andei seis dias a puxar pela cabeça, para criar milhares de espécies diferentes, e depois virem uns racistas e matarem metade da Criação. Diabo, toma nota: reciclagem!»

Depois: «Budistas, maometanos, cristãos, jeovistas, animistas, jupiterianos, mitómanos em geral, votantes em salvadores da pátria e outros crentes em milagres – reciclagem! Não conheço gente mais ignorante do funcionamento da Natureza.»
«Diabo, como são quase os mesmos, junta-lhes os que estão sempre a cantar louvores e a azucrinar-Me os ouvidos com rezas, e os pedintes de favores em geral. Põe-nos dez mil anos a atender pedidos num call center; a ver se começam a ter uma ideia de Inferno!»

«Mais: automobilistas, gestores de indústrias, criadores de vacas e outros produtores de gases geradores de efeito de estufa: reciclagem! Diabo, altera-lhes o design oficial para líquenes. Detesto que decidam os dilúvios por Mim!»

Apontou, então, para americanos, ingleses, australianos, e outros falantes de inglês de várias nacionalidades, decretando: «por tentarem reunificar as línguas que Eu confundi na Torre de Babel: oito anos de martírio! Diabo, manda aí o teu amigo Bush, contar-lhes as piadas dele!» Pela segunda vez, um “Misericórdia!” rouco saiu de milhões de gargantas.

A sessão ainda se estendeu por mais um par de horas, até que Deus, visivelmente cansado, adormeceu. O Diabo deu, então, uma sonora marretada na moleirinha dum querubim, anunciando: «Por hoje é tudo. A audiência deste tribunal fica suspensa. Recomeça daqui a dez mil anos, à mesma hora.»

Um indescritível clamor de protesto pelo tempo perdido não se fez esperar e eram milhões as vozes alteradas a exigir que os Juízos Finais sejam privatizados. Seguiu-se um engarrafamento infernal que durou umas dez semanas. Foi por isso que só cheguei agora. 

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

Que delícia de Juízo Final! Como tenho dois contos sobre o assunto, você sabe que gosto dessas picardias com santos, serafins e o dono da casa. A marretada na moleirinha do querubim foi ótima! E eu que ando meio azeda, precisava mesmo de dar umas risadas. Valeu!

Excelente, Joaquim, pena que perdi este mega-evento? Foi só em Portugal ou terá uma turnê mundial?

Abraços.

olha Joaquim escrevi uma lauda e perdi, mas eu trono
ADOREI e conseguiste um feito: por-me a gargalhar sem preceito e sem meu consentimento
e foi desde que apareceram as personagens que "só conheciam do catecismo" passando pela "reciclagem" até já nem ver o monitor de tanta lágrima com aquela do call center...
e fiquei a querer mais texto e fiquei praguejando que tenha que esperar 10000anos pela tua próxima reportagem
cá estarei para degustá-la, meu estimadíssimo Joaquim!

Para não me ficar pelo “Obrigado, amigos!”:

Na minha vida, já conheci os resultados trágicos de várias, talvez dezenas, de profecias de fim do mundo. Um tal Jim Jones convenceu mais de 900 seguidores a suicidarem-se.

O mais provável é que a Terra permaneça igual por mais 5.000.000.000 de anos, até ser engolida pelo Sol a transformar-se numa estrela gigante vermelha. Já os humanos talvez se autoextingam muito antes disso.

Para as mentalidades pequeninas, incapazes de vislumbre dos intervalos temporais cósmicos, a decadência acelerada dos seus corpos será sentida como um fim dos tempos. A ideia de que tudo continuará igual depois da sua morte será, para muitos, insuportável. Para outros, incompreensível. Para os primeiros cristãos, era certo que a segunda vinda de Cristo (e consequente Juízo Final), aconteceria durante o tempo das suas vidas. S. Paulo disso os convencia.

Para as mentalidades mitómanas, incapazes de compreender o funcionamento autónomo da natureza, e considerando que há Bem e Mal, parecerá que também terá de haver um equilíbrio final que entregue o Bem em falta a quem dele careceu, e entregará o Mal a quem o praticou. E quem mais habilitado para o fazer que uma suposta entidade que supostamente tudo sabe? Parecer-lhes-á uma entidade tão necessária que, mesmo que dela não se encontre nenhuma evidência, ou nem existir, a necessidade dela torna a sua ideia obrigatória.

Lá se foi o humor...

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