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terça-feira, 25 de dezembro de 2012

O menino do natal

Joaquim Bispo


Os capelos que vivem da exploração pecuária levam, em geral, uma existência muito frugal pelo que não são muito dados a comemorações caseiras, sejam aniversários ou festas tradicionais, mas não deixam passar o natal sem uma almoçarada abundante.

Ruben, capelo solene e encorpado, não é exceção. Na véspera de natal, na sua quinta do interior, reuniu no tanque fronteiro à casa, os filhos – um capucho e duas capucinas – e o sobrinho, recém-chegado da cidade, a fim de distribuir as tarefas preparatórias do almoço do dia seguinte, enquanto, dentro de casa, Yela, a sua capuça infatigável, amassava cereais pulverizados para os fritos tradicionais, com os seus oito braços, grossos como troncos.

«Prestem atenção, amanhã é natal e é preciso preparar o habitual almoço de festa» – começou ele telepaticamente, acompanhando as instruções de alguns gestos sinuosos, e subtis mudanças dos tons da pele. – «Vamos todos ajudar, para que seja um almoço excelente e honre os tios da cidade, que chegam amanhã. Siena, tu vais com o teu primo Grino à corte dos patos recolher ovos para fazermos farófias e tigelada. Depois vão colher umas laranjas para pôr em rodelas a acompanhar o assado. Ciano e Cerúlea, vocês vão à corte das mulheres buscar leite para o puré de batata e os doces. Depois vão apanhar o Trunfa, que deve andar pelo pomar atrás das lagartixas, e levam-no ali para o telheiro das pesagens, que eu já lá vou. É só afiar a faca de desmanche e trazer um alguidar para o sangue. Vai ser uma cabidela daquelas.»

«Pai, pai!» – apressou-se Cerúlea – «qual é a que ordenhamos?»

«Não há muito que saber, não é?» – explicou Ruben, mudando a cor da pele para um esverdeado didático – «A Espinhas ainda não teve crias, e a Dengosa está a amamentar e não convém tirar-lhe leite. Só se o da Amarela não chegar.»

«A Amarela é loira, não?» – perguntou o vivaço capucho da cidade.

«Claro. Sequem bem os braços, que ela não gosta do contacto frio e às vezes retém o leite. Depois, levem-no à vossa mãe. Mais logo vamos todos para a cozinha dar-lhe um bracinho.»

Quando Ciano e Cerúlea voltaram com o rapaz, já a brigada dos ovos e das laranjas se tinha despachado e aguardava com curiosidade o momento sempre especial da matança.

«Oh, tão fofinho!» – enterneceu-se Grino. – «Que idade tem ele?»

«Ora, deixa ver» – calculou Ruben –, «a Dengosa pariu pouco depois de a Siena ter nascido. Uns quatro anos e tal.»

«Vai matá-lo, tio?»

«Pois, e é se queres rapaz assado para o almoço. Não gostas?»

«Gosto, mas quando como já só o vejo no prato, em fatias. Agora, assim!» – tentava o capucho da cidade explicar o inesperado dilema que se lhe punha, enquanto acariciava a farta cabeleira lanosa do miúdo, o qual, ignorando o funesto destino imediato, brincava com uma ventosa de um dos braços de Cerúlea. – «Porque temos de comer sempre rapazinhos no natal? Só porque é tradição?»

«Não temos, Grino, mas a tradição geralmente tem uma razão de ser» – explicava o adulto, carregado de paciência forçada, denotada por laivos carmesins a percorrer-lhe o capuz. – «A tradição estabeleceu-se porque quando o múltiplo Ca veio ao mundo para nos libertar do cativeiro aquático e determinou que todos os bichos que andam ou rastejam, todos os que voam, todos os que nadam, e toda a restante natureza, têm como finalidade prover o sustento dos capelos, ensinou-nos a criar homens, e outras espécies com valor pecuário, mas declarando que a carne desta espécie, quase tão pelada como nós, é a que, na grelha, emite um aroma mais agradável e a que mais enobrece repastos em seu louvor e comemoração. E amanhã comemora-se a sua vinda.»

«‘Tá bem, tio, mas não pode matar outro menino? Este tem uns olhos tão doces!»

«Tu não sabes, que raras vezes cá vens, mas como todos os natais matamos um, só temos este e dois mais novos, um da Dengosa e outro da Amarela. E o Dentolas, mas esse já é um homenzinho, já tem doze anos. Com os teus pais para o almoço, um menino de menos de quatro anos não dá.»

«E o Dentolas, tio? Esse tem carne suficiente.»

«Sim, mas é já um bocado rija. Além disso, estou a pensar nele para substituir o velho Pirraça, para puxar a carroça. E também quero experimentá-lo na cobrição, a começar pela irmã gémea dele, a Espinhas, que já está em idade. O Pirraça mal dá conta do recado. Da última vez, tive de pedir emprestado o homem dos vizinhos além do monte.»

Entretanto, Trunfa deambulava por entre a floresta de braços viscosos repletos de divertidas ventosas dos donos e, como que percebendo quem era o seu dono de coração mais sensível, começou a trepar por um dos braços de Grino, emitindo um riso cristalino próprio das crias dos homens.

«Oh, tio, não o mate, por favor!» – emocionou-se Grino, irisando o capuz. – «Deixe-me ficar com ele, que eu trato-o bem. Eu ligo-me com o meu pai e peço-lhe que traga um menino já arranjado do talho da cidade.»

«Não vale a pena comprar meninos no talho; o sabor é completamente diferente. Se calhar, são alimentados a rações. Aqui, eles só comem produtos naturais, da quinta.» – ripostou o experiente capelo rural, simulando sobranceria, mas reconhecendo a candura genuína dos capuchos daquela idade juvenil. Também o Dentolas escapara do espeto, quando o seu Ciano, agora já um capelinho, tinha feito um pedido semelhante, já há uns bons sete anos. “Paciência! A juventude demora tanto tempo a aceitar as leis da vida!” – «Achas que os teus pais te deixam ter um rapaz, na vossa casa da cidade? Tens de lhes pedir!»

«Eu vou já pedir, tio. Ele pode ficar na sala dos arrumos, para já. Depois mandamos fazer uma casota. Já uma vez estivemos quase a comprar um.»

«’Tá bem, pronto, podes ficar com ele!» – suspirou Ruben, amarelando. – «Mas olha que não é o melhor animal de companhia. Na adolescência ficam muito rebeldes. O melhor é mandar capá-los. Quando te cansares deste, diz aos teus pais que não o metam logo no forno; venham cá deixá-lo para o comermos todos no natal seguinte. Agora, vai com os primos apanhar o Penca, o peru maior. O múltiplo Ca vai entender.»


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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


7 comentários:

adorei!
porque está tão bem escrito
porque prende
porque...
agora é que fico vegetariana de uma vez por todas :)


Credo! Fiquei impressionada! Quando a gente pensa... Não consigo deixar de ser carnívora, mas gostaria muito. Lendo, dá arrepios. E logo eu que adoro animais. Cadeia alimentar... Será tão simples assim?

Maravilha de texto. Vim a convite da amiga Cinthia Kriemler e gostei do que li, embora ache que o peru maior não vai gostar da troca.

Muito bom, Joaquim! É quase um "Animal Farm" de Orwell... :D

Estas inversões sempre são eficazes para trazerem à luz nossos conceitos e preconceitos, e também os absurdos de certas tradições.

Abraços.

Joaquim, minha amiga, e escritora, Nena Medeiros é vegana. E vive em campanha pelo não consumo de carne. Eu me confesso ainda uma carnívora, como disse, mas achei que ela ia gostar de te ler. Porque o texto faz mesmo refletir.

Obrigado, amigos, colegas da Sam! E obrigado, Nena, grande adversária em Humor.

Eu como de tudo e não sou militante anti consumo de carne, mas acho um pouco obscenas as grandes comezainas, em que não está presente a necessidade de se alimentar, nem a mínima contenção em sacrificar vidas animais, mas sim um desfrute alarve da vida terrestre. Visto de fora, o nosso comportamento para com os animais, usados e abusados de todas as maneiras, merece questionamento.

Incrível interpretação
Possui este conto qualidade literária, pela sua narrativa rica de pormenores, capaz de nos manter cativos ao longo do imaginário desenrolar dos acontecimentos em paralelo e decalcado até do que para muitos de nós é já vastamente conhecido pelas habituais características dos períodos festivos tornados os mais importantes do calendário religioso-cultural judaico-cristão concebido este para maioritário consumo ocidental, mas agora em que uma pretensa-quase-chocante bilocação se verifica; em que os homens se vêm aqui já resumidos e subjugados literalmente à inferior e gregária condição animal cordeiro-sacrificial em favor de uma outra qualquer raça, presumível polvo neste caso, de braços tentaculares e inúmeras ventosas qual mitológico Kraken emergindo do profundo Oceano Temporal, símbolo do drama da liberdade do Espírito encadeado na Roda –Eterna?!– do Samsara.
Não interessa afirmar não ter havido a mínima intenção de quaisquer extrapolações aqui sugeridas, trata-se antes aqui meramente do potencial significado que o velho/novo Argumento por si, já encerra.

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