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quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Natal, viagens e fantasias

Participei como autor convidado da antologia Natal, viagens e fantasias, organizada pela escritora curitibana Isabel Furini. Pela proximidade da data festiva, publico aqui os dois textos curtos que produzi especialmente para o livro.

Tive grande dificuldade para trabalhar com um tema previamente definido. Costumo trabalhar com base em lampejos, ideias de momento, que desenvolvo na hora - se possível - ou anoto para trabalhar em cima depois.

Creio que, como exercício, foi interessante e enriquecedor. Mas não sei se eu me disporia a abraçar outras empreitadas nestes moldes. Talvez por uma birra em relação às histórias que quero contar, talvez por um impulso egoísta, talvez seja só o cansaço desse fim de ano falando mais alto; mas, de fato, não sei se toparia produzir outros textos com tema pré-definido.

Fica aqui, então, além dos textos, o questionamento para os leitores-autores: vocês gostam de produzir textos com temas pré-definidos? Estão acostumados a isso? É comum os organizadores de antologia encomendarem textos com temas bem específicos, vocês estão preparados e/ou dispostos a enfrentar este desafio da profissão de escritor?


Globalização

Após a entrega dos presentes, curioso, reparou em uma pequena inscrição que constava em seu carrinho de controle remoto, no tênis de seu irmão, na bolsa da mãe e no celular do pai.

No ano seguinte, alterou o endereço na cartinha com os pedidos: do Pólo Norte para a China.





Tradição

Quando ele chegou à casa da família, com uma hora de atraso, após não fazer desfeita em nenhuma das casas pelas quais já havia passado, a barba desgrenhada carregava centenas de migalhas e algumas gotas de molho; já não trazia mais o gorro e, para piorar, cambaleava e exalava espumante barato.

Das tradições que ele deveria trazer ou inspirar, restou apenas o saco bem cheio, a ponto de explodir.





quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Finalmente

O rapaz chorava, infelicíssimo.
O seu desgosto era profundo e completo, desesperado. Estava fisicamente incapaz de recordar outros desgostos e a sua recuperação; não podia reconhecer que o tempo, mesmo quando não cura, atenua o sofrimento para níveis que a biologia pode suportar sem por em causa a sobrevivência.
Portanto, estava extremamente infeliz e por toda a eternidade, que é a duração do presente para os muito jovens.

Toda aquela miséria e desespero eram estranhamente doces; a sua juventude inocente também desconhecia que o sofrimento pode viciar, tal com a excitação, o amor ou mais duramente, a heroína.
Não, não sabia disso - mas sabia que não merecia a dor que lhe apertava o peito, a angústia, o futuro inexistente, não merecia nada disso. Sempre fora uma pessoa decente, um “homem bom”.
Mas o mundo não reconhece os homens bons, trata-os pior do que trata os maus. Levantou-se e com a mão, limpou as lágrimas. Ah! A vida não merecia a pena de ser vivida!

Pegou na caçadeira, entrou pelo colégio adentro e matou tudo quanto viu mexer: não sofreriam como ele, não! Era demasiado doloroso, crianças tão inocentes e frágeis não mereciam tal desespero.

Quando já tinha acabado com todo o sofrimento potencial, apontou a arma para si próprio e premiu o gatilho, matando o sofrimento actual.

A dor desapareceu. Finalmente





segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

MICROCONTOS TEMÁTICOS DE EDWEINE LOUREIRO – PARTE III


Amigos, retornando à série de microcontos com um tema específico, escrevo, nesta edição, sobre os artistas de cinema. Espero que gostem.
Macrossaudações.
Edweine Loureiro


LUZ, CÂMERA...

― Ação! – gritou o eterno aspirante a diretor de cinema para os enfermeiros que o conduziam ao manicômio.

*

O HOMEM SEM FACE

Sempre um ignorado, o dublê atirou-se de uma janela do trigésimo andar, esperando encontrar a fama póstuma.
E caiu sobre Mel Gibson.

*

PERFECCIONISTA

Insatisfeito com a atuação de seus parceiros de cena, o ator britânico Daniel Day-Lewis decidiu livrar-se do espelho. A sombra na parede, porém, continuava a incomodá-lo...

 ***





domingo, 23 de dezembro de 2012

Últimas palavras no voo 676


Se agora fossem seus últimos minutos na terra, o que você faria? Eu peguei papel e caneta e comecei a escrever. Deveria estar nervoso como as pessoas a minha volta, mas por alguma razão eu estou tranquilo. Mesmo quando o avião começou a chocalhar mais forte, mesmo com a turbulência cada vez pior, mesmo com a sensação de montanha russa, eu estava tranquilo. Quero escrever, quero que meus últimos momentos fossem registrados com essa emoção, descrevendo esse sentimento de medo, que nada mais é do que medo do desconhecido. 
Mas agora que escrevo, não me sinto compelido a falar de meus sentimentos. Olho as pessoas ao meu redor, e as observo. Talvez esteja fugindo do inevitável e por isso olho os outros. 
Há um senhor em minha frente, do lado esquerdo, retira do seu bolso um pequeno livro. Pensei que fosse escrever também, mas reconheço o formato e identifico uma palavra Salmos. Sim, como era de se esperar em alguém que tenha fé. Que reze por todos nós nesse avião. 
Nunca fui religioso, a própria palavra religião me estremesse, não gosto. Não lembra-me nada de bom, apenas mortes, perseguições e poder. Não me culpem por pensar assim. Não é culpa minha. Se há alguém com culpa nisso, são aqueles que vieram antes de nós, que fizeram a nossa história. Judeus que perseguiram cristãos, cristãos que perseguiram muçulmanos. As eras de civilização na América Latina e na África em nome de um único deus. Uma perseguição e repressão de uma cultura apenas por uma crença em um deus. Não não peçam, que mesmo agora na hora de minha morte eu mude minha concepção sobre a história das religiões ou os atos cometido em nome de deus. 
Eu respeito, e olhando esse homem que reza, que lê os salmos nesses seus últimos momentos, eu respeito ainda mais esses seres, diferentes de mim, que rezam que tem fé. Essa força humana, não divina, HUMANA, de crer em algo, de acreditar mesmo que aquilo seja impossível. Se deus existe, ele existe tão somente por essa força humana de crer. E se ele é feito dessa força, creio que a humanidade é a verdadeira força divina, o Deus. 
A turbulência parece ser pior, algumas pessoas começaram a vomitar. O piloto pede calma ele ainda não nos informou do fim trágico, mas eu sei que vamos morrer. Não é porque sou pessimista, é porque conheço os sistemas e as pessoas. Consigo perceber no sorriso disfarçado da aeromoça, o medo. O modo como ela toca uma mão na outra e depois leva a mão direita a boa, para morder a unha. E quando percebe o nervosismo, busca o auxílio da mão esquerda, para segurar o nervosismo. É a razão e a emoção materializada nas mãos dessa jovem. Um jovem bonita e julgo pela aliança na mão direita, seja casada. Em poucos minutos ela voltará para a sua própria cabine ou banheiro para se acalmar. Então virá um homem, que tentará ser mais frio, para tentar nos acalmar, mas a verdade é que nem ele nem ela fora treinados o suficiente para isso, apenas tentam fazer o seu melhor.  
Afinal todos nós, passamos nossas vidas tentando fazer o nosso melhor, mas as coisas são bem diferentes do que imaginamos. Há coisas que simplesmente não dependem de nós, mas olhando esse rapaz que não deve ter mais do que 25 anos, creio que ele esta representando muito bem. Mesmo sabendo do fim, ele faz o seu melhor. No fim é o que podemos fazer, tentamos fazer o melhor que podemos. Agora percebemo que não há nada do que se envergonhar e meu maior exemplo esta nesse moço que sorri, faz piadas e diz que essas turbulências são normais. Embora ele disfarce bem, vejo a mentira em seus olhos, ele está com tanto medo quanto nós.  
Sim, não pensei que não estou com medo. Tanta coisa que tinha por fazer, mas fiz o que podia. É o meu consolo. O tempo que não ajudou. Levei mais de 5 anos para ter coragem para rever meu filho e mais 20 tentando encontrá-lo e convence-lo a me ver. E agora finalmente que estava indo ao seu encontro, eu deveria aproveitar esse momento para falar sobre mim, para deixar-lhe uma última mensagem, mas eu falei sobre mim quase toda a minha vida. Agora eu só queria escutá-lo, ver como ele cresceu, saber se tem namorada, se trabalha, se é religioso, eu queria saber como era o meu filho, que tipo de homem ele se tornou e apenas pedir lhe... 

Encontrei esse fragmento enquanto fazíamos as buscas nos destroços do voo 676, de São Paulo ao Acre. Mesmo com a ajuda da equipe de peritos não conseguimos identificar o autor da carta. Pedi aos responsáveis para ficar com os documentos e anotações que, pela letra, pertenciam a mesma pessoa. Por que fiz isso? não sei, talvez na esperança de conhecer melhor essa pessoa que bem poderia ser meu pai e que não conseguiu em vida, nem ver e nem pedir desculpas ao filho.

Sargento Moraes - 22/12/2012 - Dia do fim do mundo





sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Quinze lances de uma paixão


Tudo se modificou após a arrebatadora chegada daquela forasteira. Sua Majestade, o Rei, não dava a mínima atenção para a Rainha. Esta, magoada, deixou de protegê-lo, aventurando-se por locais desconhecidos. Ela, a Rainha, tinha consciência de sua força. Sabia defender-se como ninguém. Os bispos confabulavam entre si, assustados com tamanho descaramento de Sua Alteza. Do alto das duas torres, observa-se o descalabro. A cavalaria, pasmem, revoltou-se e buscou refúgio no reino situado logo à frente. Sentiram-se estranhos, dada a lógica diferença. Somente a criadagem, o lado mais fraco deste episódio, manteve-se fiel. Como insignificantes servos, davam a vida pelo seu Soberano, não hesitando sacrificar-se na linha de frente de qualquer combate. Mesmo assim, não compreendiam o porquê da paixão fulminante do Rei por aquela peça de jogo de damas, que acidentalmente caíra no tabuleiro de xadrez.





quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

FEITIÇO E UTOPIA

Ela é linda. E charmosa. E cheirosa. E bem vestida. E elegante. E bem tratada.
Cara de menina rica, jeito de musa carioca. Tanta boniteza pra quê?
Metida a besta que só ela. Há mais de ano, todo santo dia útil saio para o escritório
às 8h:40 min. Desço no elevador que para invariavelmente no andar onde ela mora.
Sozinha. Eu sei que ela mora sozinha. Nunca a vi com ninguém,
nem aos sábados, domingos ou feriados, o porteiro diz que nesses dias ela viaja. 
Esbaforida e rebolativa, puxando mala cachorrinho, pega um taxi e some.
Volta domingo depois do Fantástico. O porteiro é linguarudo.
Mas deixa estar: de segunda a sexta, o encontro comigo é religioso.
Sempre às 08h40min. Faço o que me ensinaram meus pais, meus avós,
irmã mais velha, tias, padrinho, madrinha, professoras, padres, bedéis,
primos metidos, vizinhas faladeiras, chefes no trabalho, conselheiros de boas maneiras,
arautos da civilidade, consultores de RH: abro um sorriso, olhos nos olhos
e digo "Bom dia!". E ela, nada. Não pronuncia palavra alguma. Cara de entojo, 
revoa os cabelos castanhos claros ainda molhados, espargindo um leve perfume
de xampu de maçã. E me dá as costas arrebitada. Seus dedos bem feitos sem alianças reveladoras remexem a bolsa de grife, coloca os óculos escuros da mesma grife e fixa o olhar carrancudo na porta
pantográfica - prédio velho no Posto Seis tem dessas coisas. A eternidade é o tempo em que contemplo a deusa até chegar ao térreo, enquanto converso com o diabo. Altos desvarios.
Começo louvando a natureza que esculpiu seu corpo, depois vou aos detalhes.
Saia justa – a dona não repete roupa - uma blusinha chique, às vezes de manga,
às vezes sem manga, camisetas cavadas com discretas rendas, às vezes um
casaquinho leve nas costas, às vezes um jeans bem cortado e colado nas
suas curvas generosas. Quando chove, capa cinza claro, echarpe e guarda chuva All Burberry,
e botas poderosas. Alternam-se também leggings apertadinhos sobrepostos
por blusas e batas de fino desenho, calças largas e coloridas,
saias longas estampadas, vestidões esvoaçantes -  nesses dias penso que o
chão do elevador deveria ser aquele bueiro da Marylin Monroe.
Sempre reparo seu braço. Não o que segura a bolsa de grife, que também nunca vi repetir,
mas o braço que dá para enxergar uma discreta relva dourada sobre a pele bronzeada,
caminho que hipnotiza e me faz galopar roupa adentro, e imiscuir meus pensamentos
entre o decote maldoso e o sutiã meia-taça, porta jóia de um mamilo róseo de biquinho
empinado. Ninguém me tira da cabeça que seja assim, como também  ninguém
me tira da cabeça que ao descer os olhos vislumbro uma calcinha micra engolida
pela fresta entre seus glúteos rijos e de perfeitas dimensões, que protege no triângulo frontal
uma pelúcia rente e macia, densa e bem contornada - não admito depilações radicais nem nos meus delírios. O elevador é uma lesma. Ainda bem. Meu olhar abaixa às suas tenras panturrilhas
cor de caramelo e praia, que emanam convites velados para apalpar e morder
de olhos fechados. Num dos tornozelos mora um infinito tatuado, como um recado
de que minha viagem pela moça não tem fim. E chego aos calçados. Também nunca vi repetir.
Às vezes sapatilhas, às vezes rasteirinhas, às vezes um salto fatal, firme. Quando aparece de sandália alta, de tiras delicadas envolventes, meu baticum acelera. Hoje, por exemplo: a dona está mais uma vez como todo santo dia útil estonteante e desdenhosa. É devidamente fotografada da cabeça aos pés, por fora, de lado, de frente, por dentro, visão raio X que mira sua alma turva, seus sentimentos opacos, e só encontra o mistério que derrama impiedosa.
Chegamos ao térreo. Gentil contumaz, sem jamais passar lhe à frente, me desdobro
em abrir a porta e a deixo escapar para o dia lá fora. Nem um sorriso, nem um agradecimento.
Já estou acostumado. Nariz em pé, segue esbanjando antipatia entre transeuntes e figurantes
da sua vida, deixando um rastro de repulsa ao mundo. Seus passos decididos sobre os saltos me enfeitiçam. Um dia, quem sabe, um dia, bebo da poção de coragem destinada aos pusilânimes,
aos insignificantes, aos ruins de chinfra, aos sonhadores que não têm nada a perder,
e juro que declaro minha paixão. E os deuses haverão de me atender.
Nua sob meu corpo franzino e desprovido, ofereço meus dotes secretos e descortino
sua ternura, descerro sua meiguice, decifro sua volúpia enrustida.
E ela me devora: nos braços do vizinho outrora invisível e agora inusitado,
explode todo seu encubado desejo por mim, travestido há tempos
de uma antipatia impostora e estratégica. Não, não carece gemer desenfreada, minha querida, nem balbuciar sôfregos "Delícia! Delícia! Delícia!", "Homem gostoso da minha vida!",
"Me invade que esse planeta é todo seu!". Nada disso. Só quero que na hora agá, quando os fogos do amor pipocam, encoste seus lábios trêmulos no meu ouvido
e me diga finalmente e baixinho: "Bom dia".





quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Conto do fim do mundo

(Atenção: como vinha escrito nos romances antigos, "isso é uma obra de ficção; qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais é mera coincidência". E não, o mundo NÃO vai acabar, ao menos que eu saiba...)

Primeiro foram os pombos. Dezenas, centenas deles. Milhares mesmo, talvez. E isso foi só o começo, o começo do fim. Do fim do mundo. Nem sei por que escrevo isso; em dois dias, não mais haverá leitores, não haverá mais ninguém. Nem eu. Mas tenho de ocupar o meu tempo nesta véspera do apocalipse, e descrever o que se passa é uma forma tão boa de fazer isso quanto qualquer outra.

Como eu dizia, primeiro foram os pombos. Começaram a aparecer mortos nesta manhã, na praça central da cidade. Envenenados, disseram os apressados. Assassinados por alguém sem coração, acrescentaram os defensores dos animais, que já começavam a organizar protestos quando souberam que o mesmo acontecera em inúmeras outras cidades ao redor do globo.

Horas depois, foram os gatos. E os cachorros. Começaram a cair mortos, um a um, sem nenhuma razão aparente, para desespero de seus donos. Ao meio-dia, já chegavam notícias do interior, dando conta que animais de maior porte também estavam encontrando seu fim. Ovelhas, bezerros, vacas, até os cavalos, simplesmente deitavam-se no chão e fechavam os olhos, às vezes dando um último balido, mujido ou relincho.

Na televisão, especialistas das mais variadas vertentes tentavam explicar o fenômeno. Era algo na água, algo no ar, uma praga talvez. Como aquelas do Egito?, perguntou um repórter engraçadinho, deixando o "ólogo" da vez constrangido - mas, ao mesmo tempo, sem coragem de dizer que não. Os religiosos negaram enfaticamente que as visões de São João estivessem prestes a se concretizar, mas lembraram que sempre é bom repensar a vida, arrepender-se do que fez de errado, decidir mudar para melhor.

Lá pelo final da tarde, mais ou menos no mesmo horário em que as flores e as árvores passaram a secar e a perder pétalas e flores, as igrejas das mais variadas confissões começaram a se encher. Ainda faltavam trinta e poucas horas para o fim supostamente previsto pelos maias (e, diziam alguns, também por Nostradamus), mas pelo sim, pelo não, melhor garantir uma bênção... Não havia nenhuma notícia de tsunami ou furacão se armando, porém se os animais e as plantas já haviam perecido, quem poderia dizer o que viria a seguir?

Agora, já anoiteceu. A cada momento, restam menos horas para o temido 21.12.2012. Pouco mais de um dia. Há controvérsias: o fim seria à meia-noite desse dia? Ou nos seus primeiros minutos? Ao meio-dia? Nesse dia, o mundo já não vai mais existir, ou ele será o último? Os maias, afinal, não deixaram dita a hora exata? Sacanagem deles conosco. Claro, nos últimos anos já foram previstos vários fins, como na virada do milênio, em que nem o bug aconteceu, mas...

Quando já estou angustiada, olho pela janela. Lá fora, à luz da lua, vejo uma forma que passa voando, devagarinho. Será uma pomba? Uma pomba levando um raminho no bico? Pisco os olhos, e lá está ela. Como a pomba de Noé, mostrando que havia vida após o dilúvio. No caso, após o fim, que sequer acontecera. Talvez tivesse sido veneno mesmo, ou algo na água ou no ar. Mas estava passando, e a prova estava ali. A vida estava ressurgindo. O fim do mundo não chegara, nem chegaria. Abro um sorriso, que se alarga quando vejo: na sacada do apartamento, a orquídea que nunca antes florescera não estava seca, e aproveitava o frescor da noite para abrir seus pequenos e maravilhosos botões amarelos...





terça-feira, 18 de dezembro de 2012

LA BALSA


Otávio Martins

   Diacho, não perco essa mania de, sempre que vou escrever uma crônica, trazer à cabeça uma música. Esta crônica, confesso, surgiu junto com um bolero, antigo pra burro, que eu estava cantarolando, “La barca”. Uma música (e letra) do Roberto Cantoral. Ouvi esse bolero com vários intérpretes, entre eles Altemar Dutra, Trio Cristal y muchos otros. Entonces, desculpem, então, imaginando uma balsa como sendo um tipo de barca, ou embarcação, aproveitei que estava caminhando pelas pedras do porto, mandei ver. De cara, o título, La balsa. A essas alturas, já nem estava ligando o assunto com a tal de embarcação. Aproveitei os meus conhecimentos sobre a zona por onde ela, diariamente, se instala (por vezes, eu a vejo do outro lado do rio), mas, sempre ao alcance da vista.

   O que acontece do outro lado do rio, não vem ao caso. Gostaria de contar o que eu sei ou acho que sei sobre o lado de cá. Quase nada. Oitenta por cento, aproveito as informações que vou obtendo ao longo das minhas caminhadas pelo bairro, coincidentemente, bairro Balsa. Nem sei se são confiáveis. Os vinte por cento restantes, como diria o poeta Manoel de Barros, eu invento, podendo, até, ser pura mentira. Tem até uma Universidade Federal. Portanto, um bairro de algumas pessoas sabidas, ou letradas, supõe-se.

   Fiquei lembrando as minhas conversas com o seu Agostinho, bicheiro. Provavelmente, um homem aposentado. Deduzo isso, pela idade dele. Olha, mais de setenta anos, suponho.

   Seu Agostinho quis me fazer convencer que a partir da importância ($) de cada apostador; valor da aposta, acho, ele, mais ou menos, fica sabendo do poder aquisitivo de cada um. Nessa eu não embarquei. Eu, por exemplo, já cheguei a apostar em sua banca, mais de cinco reais. Entretanto, só tenho onde cair morto, porque a gaveta lá do cemitério está registrada no meu nome (herança de família). De papel passado. Essa –suponho - a minha tão almejada por muitos, propriedade privada. Ninguém seria louco de invadi-la. Pago pra ver.

   Aos sábados, contou-me, vai com o seu carrinho lá num clube para anotar a aposta de outros senhores (2) que só jogam no bicho nos fins de semana. Também, cinquenta mangos cada um. Quase o dobro do que eu, extravagantemente, por vezes, aposto. Ainda, argumentando em favor da sua tese, falou de uma senhora, de meia idade, que joga todos os dias, mas, não passa de cinquenta centavos/dia. Fichinha, comparados aos meus cinco reais, mesmo que esporádicos.

   Dicen que la distancia es el olvido. Noutros lugares também soube de algumas coisas do bairro. No ônibus – viajo nos bancos da frente – vejo cada uma; quase inacreditáveis. Isso ninguém me contou. “Meninos, eu vi!”. Tem uma senhora, setenta e lá vai fumaça que, volta e meia, viaja no “meu” ônibus. Mais ou menos ás 17:30. Entra com os dois netos que ela – deduzo – vai buscar na escola. Mais, acho que os leva, mais cedo. O menor é meu xará, Otávio. Os três, a senhora e seus dois netos ocupam um banco inteiro. Ninguém reclama. Onde ela pega o ônibus já é próximo ao fim da linha. Quase sempre os bancos da frente estão vazios. O maior fica na sua, observando se existe alguém (normalmente, velhos, aleijados, grávidas, obesos e outros qualificados) em pé. O Otávio não, já vai se abancando. Fodam-se!
 
Cuando la luz del sol se esté acabando... À noite, melhor não ficar dando sopa pelo Balsa. Apesar da noite ser uma criança, confiro minhas apostas na Internet. Nunca ganhei um puto tostão. Coisas da vida, já disse o Paulinho da Viola.

   Minha namorada nunca mais voltou. “... Piensas que yo por ti estaré esperando/Hasta que tú decidas regresar...
   Já ia esquecendo, tem um “canal” (a céu aberto) que teima em escorrer, para além da frente da minha casa, depois de cruzar por quase toda a cidade. Que merda!





segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Minha filha Rita em meu sonho me sorria –
com pena deste seu pai, que nunca a teve.

Rita – Rubem Braga


         Vera está esperando, em algum lugar. É uma linda menina, de cabelos castanhos e olhos profundos. Algumas coisas nela lembram a mim. Não sei se será espontânea como o pai, não sei se será calada, como o pai. Serei um orgulhoso pai e ela me amará profundamente, como sei que já ama. Sei que ela, de onde está, se irrita com meus erros, vibra com meus acertos, chora quando eu choro. Talvez ela sinta pressa em chegar, talvez ela deixe outras crianças passar. Mas saiba Vera, que, tristemente, talvez você nunca possa chegar. Queria eu conhecer logo a sua mãe, queria que o nosso amor fosse grandioso para tecer a rede que nos abrigará juntos, pai e filha. Eu acariciarei você e seus longos cabelos castanhos no meu colo, para vê-la adormecer devagarzinho e guardar seu sono como o mais furioso cão de guarda. Mesmo se não for pai, já o sou, em meus sonhos e na inveja que sinto dos homens que criam suas filhas. Se acontecer outra coisa, não me preocupo. Saberei criar e amar da mesma forma o menino que virá em seu lugar. Se ele também não vier, saiba que ainda assim, minha amada filha Vera, sempre estarei pronto a recebê-la, ensinar-lhe o nada que sei e o meu confuso e alegre jeito de amar...


***


          Minhas ilusões não duram tanto quanto eu gostaria. Acostumei-me a viver em uma rodoviária.


***

          …e no momento em que chegamos em sua casa, uma casa que eu já havia conhecido, lembrei de tudo o que eu havia visto ali. Os quadros de sua família, os rostos de antigamente, os móveis, os quartos, a cama que já havíamos partilhado. Eu estava feliz de estar ali novamente. Andei pela casa toda, revendo tudo o que estava em minha memória. Ela nada disse nem foi comigo. Ao voltar, vi que ela era familiar, seus modos, seu jeito de falar, andar, pegar na minha mão e beijar, não só a sua casa nem os quadros de sua família, os rostos de antigamente, os móveis, os quartos, a cama que já havíamos partilhado. Levei as mãos para o seu rosto e comecei a acariciá-lo, sorrindo por ter novamente familiaridade. Por aqueles segundos, eu senti que fazia parte de sua vida, como os quadros, as pessoas de antes, os móveis, os quartos, a cama. Todas essas coisas disseram-me que faziam parte dela e que estavam felizes por eu tê-las reconhecido. Agradeço por saber que o amor traz consigo tantos detalhes que animam um sentimento, e não lamento se ele acabou ou não...


***


          O papel da literatura é o papel de pão, a conta do supermercado, o recibo do cinema, a revista dos fatos da semana, o encarte do disco, o caderno da escola, o cartão de descontos, a prova do vestibular, a enciclopédia vendida na porta, a coleção de livros infantis, a nota do cartão de crédito, a cédula de dinheiro, a contracapa, a capa, a carta de despedida, o bilhete amoroso, o envelope, o voto da urna, a lista de compras, a lista telefônica, o rótulo da embalagem. O papel em que escrevo é tão bom quanto. Palhas de arroz.


***



          Eu quero fazer um romance, inteiro, demorado, clássico. Contu-do, não vou além disto. Faço pouco e não me sinto triste pelo pouco que fiz: me apronto na poltrona para cochilar sem a menor consideração com tudo aqui que deixei em branco.





domingo, 16 de dezembro de 2012


Nenúfar

Tenho sido nenúfar 
[caule de água fria]
e faço farto amor com o rio
que segue mas nunca 
se desvia
dos meus pés-raízes
-sem terra que não buscam nada
não se apegam a nada
só balançam empurrados pela corrente
doce
Tenho sido corpo-flor
aberto à superfície e à volúpia 
do vento que me cobiça em desejos 
segredados
e espreito a claridade
que me franze os olhos
e invejo o pássaro que mora tão lá 
[em cima, acima]
e me arrepio com a chuva que lambe
meu pó
Hoje não quis 
ser o que tenho sido
e mergulhei para conhecer
-me inversa
submersa
mas minhas pétalas quebrantaram-se
ante o barro do fundo
e meu caule não foi capaz 
de tanta luz

Foto: Tela "Nenúfares" de Claude Monet





sábado, 15 de dezembro de 2012

cores do ano




se houvesse pedido que ela fizesse em início de ano,
se ela se deleitasse a invocar os deuses para pedir benesses,
pediria decerto que o ano fosse da cor do mar
e da cor da chuva,
e, se fosse possível,
(e o que não é possível às divindades, perguntaria antes de atrever-se)
ela pediria que o ano fosse da cor dos campos de espiga,
e entremeando, ali e aonde,
dispersa,
uma cor de papoilas

a cor do mar para que fosse azul e fosse também cinza,
e percorresse os vários matizes do verde,
e fosse amarelo, e alaranjado,
anil e roxo, no de repente de um ocaso

a cor da chuva para que fosse límpido deixando ver para lá dele,
atrás e adiante,
e ainda sobrasse

a cor das espigas para que fosse de oiro
e nem por isso fosse de riquezas mais do que as suficientes,
e fosse na alma que mais se fizesse

o rubro das papoilas,
essa cor dos deuses e das mulheres,
para que fosse vida,
intenso,
para que acontecesse



foto papoilas de Maria de Fátima





sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Num Domingo


"Tentei me acostumar à ideia de recomeçar, entretanto no momento, impossível."
 
(Vicent Van Gogh, em carta para o irmão Théo)
 

De barriga cheia
 
Ouço Sunday Bloody Sunday tocada pelo Pearl Jam, gravada de um show ao vivo. Minha filha corre pela casa mexendo nas roupas que estavam dobradas e rasgando gibis. Ela me pede que arrume a roupinha da boneca dela.
Faço.
Mas continuo sentada na janela, esperando a música acabar, segurando a boneca pelo pescoço.
Esperar é o que minha filha nunca teve paciência de fazer, não a recrimino, não temos mais tempo.
Correu para sala e começou a brincar de escalada no sofá, com o cenho enrugado, mostrando a seriedade de suas ações.
Precisava lavar os agasalhos dela, pois dizem que está chegando uma frente fria da Argentina.
Mas não farei mais nada. Cansei desse frio que vem da rua, que sobe o prédio embalado e me acorda de madrugada toda encolhida, sozinha, abraçando o edredom. Minha filha tem todos aqueles bichos de pelúcia, adquiridos durante os seus 4 anos, mas continua dormindo somente com aquele travesseiro azedo de regurgito, saliva e pó.
A música acaba, mas decido ficar mais um pouco. Me deixar quieta, ouvindo o silêncio das ruas sem fluxo. Aqui e ali, às vezes um grito. Raramente uma risada.
Minha mão cede ao peso da boneca, deixando-a cair. Ela vai caindo, tecendo uma espiral. Vai lentamente. O som que ouço da queda causa uma sensação que nunca havia sentido antes. Êxtase.
O porteiro sai desesperado, depois joga a boneca no gramado ao lado. Olha pra cima. Ouço ele me xingar de vaca. Ou maluca. Acho que foi dos dois.
  
De tardinha

Sinto que a janela não suporta o meu peso. Vai cedendo devagar, abrindo caminho levemente, sem força nem precisão. Como a maleabilidade das pétalas.
Minha filha não pediu a boneca de volta. Mas já não a possui.
Continuou derramando suco no sofá, numa felicidade intensa e tão sem complicações que me senti sumir bem devagar, lembrando do que foi minha vida.
O vento frio bagunça meus cabelos negros enquanto a janela do meu apartamento se distancia.
Foi o único momento em que me senti verdadeiramente feminina.
Tive a impressão de ouvir um som meio oco, mas não sabia mais o que ouvia, sentia. Isso há alguns anos.
Não conversava mais com ninguém. Minha filha provavelmente achava que eu ainda não sabia falar. Mas ela falava direitinho, não sei como. Já que as crianças aprendem por imitação. Acho que imitava as propagandas de margarina sem gordura, pois era feliz.

De profundis

Foi um domingo como outro qualquer. Esse em particular terminou mais colorido. Deixei minha marca no mundo; pelo menos uma. Se encontra na rua do Passeio nº 4040. Estava lá na semana passada, foi o que ouvi dizer.
Minha filha não chegou a me ver, talvez só a marca que deixei na calçada. Nunca chegou a me ver como eu me via. Melhor.
Gostaria de me encontrar com ela novamente. Pelo menos pra avisar que eu limpei sua casa de bonecas, ficou tinindo. Digo isso sem falsa modéstia. Fiz a limpeza em um domingo um pouco mais triste que esse; precisei de muito sabão pra me convencer do que deveria fazer comigo.
A casa de bonecas ficou limpinha. Mas minha filha vai ter que crescer mais pra pegá-la de cima do armário. Coberta de pó.





terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Bagunça




Não acho nada,
não encontro coisa alguma

Me esbarro no lixo do lixo

Divago com a janela aberta

Olho a textura do tempo seco
Olho o copo sujo de vinho
com o azedume do ontem

Só consigo atinar em marchas fúnebres

Mas alinhavo a minha trajetória
Tentando poupar-me
para esculpir novos dias que amanhecem

Sem vigor,
Sem rubores

vou costurando o dia a dia até o anoitecer...
 

The end





segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

O prazer de recomeçar do zero uma vez mais


Henry Alfred Bugalho

Este é o terceiro país no qual moramos num único ano.

Viver na Argentina foi uma experiência catastrófica, o oposto do que havíamos imaginado, e mesmo assim suportamos um ano e meio em Buenos Aires.
Já na Itália, foram oito meses numa belíssima, porém tediosa, cidade medieval. A escolha havia sido um erro estratégico, logo reconhecemos, mas nunca comemos tão bem na vida, nem descansamos tanto, imersos no dolce far niente.

O argentinos possuem uma expressão interessante para designar quem não consegue ficar parado: tener hormigas en el culo. Em bom português, "ter formigas no cu", e talvez nada nos definisse melhor. 
Adoramos História, monumentos e ruínas, mas nada melhor do que um bom shopping center, com vinte salas de cinema e uma diversificada praça de alimentação.
Somos urbanos, daquela espécie de pessoas que precisam caminhar sempre por ruas desconhecidas, vendo lojas e restaurantes desconhecidos, cercados por pessoas desconhecidas. Não combinamos com a vida rural, onde todos se conhecem, onde os atrativos se esgotam depois de uma semana, onde os dias são todos os iguais, numa ilusão que nada acontece nem jamais acontecerá.

Por isto, enfiamos todas as nossas tralhas num carro e percorremos dois mil quilômetros para nos livrarmos do marasmo.
Até dois ou três dias antes da viagem, ainda não tínhamos certeza para onde iríamos. Berlim sempre foi uma grande tentação, mas o inverno branco nos desestimulava; quatro invernos em Nova York foram suficientes para nunca mais queremos ver neve na vida.
O problema seria o idioma. Apesar de ter estudado alemão por um bom tempo, hoje mal consigo balbuciar meia dúzia de frases. Impossível manter um diálogo inteligente com outra pessoa. Temíamos isolar-nos ainda mais.
As outras duas opções eram Londres e Madri. A capital britânica possui todos os atributos que buscávamos, mas o custos nos assustaram. Talvez fosse dar um passo muito maior do que a perna.
Já Madri era uma cidade que havia nos encantado numa viagem anterior: limpa, organizada, moderna e, por causa da crise, barata, ou pelo menos muito mais barata do que qualquer cidade italiana. E falar espanhol, mesmo que com um estranhíssimo sotaque portenho, não seria problema algum para nós.
O maior medo era o de nos arrependermos, de nos decepcionarmos com a cidade, um risco que sempre corremos. No entanto, neste caso, sabíamos bem como resolver este dilema. Formigas no cu, bastaria pormos todas as malas no carro e fugirmos uma vez mais.

Quem nos vê de fora provavelmente pensa que somos corajosos, assim como nós um dia havíamos pensado de outros com vidas parecidas à nossa. Hoje, acredito que possa até ser um pouco de covardia de enfrentar ou suportar os problemas de cada cidade, país ou povo.
Deixamos o Brasil porque não podíamos mais aguentar o medo constante e diário da violência, esta falta de respeito absurda pela vida alheia, que pode valer menos do que um tênis ou uma carteira.
Partimos dos EUA por causa do racismo, de um país tão cindido e preconceituoso, onde todos querem devorar uns aos outros. Não é possível passar todos os dias de sua vida atemorizado por causa da cor de sua pele, mesmo que você seja branco, estatisticamente as principais vítimas de crimes de ódio na América.
Fugimos da Argentina pois não tolerávamos a grosseria e a falta de educação dos portenhos, um povo tão amargo e ranzinza que faz questão de atanazar todos os demais até deprimi-los.
E fomos embora da Itália porque desejámos mais do que comida e cama, que parece ser tudo que encanta um italiano.
O difícil foi cortar a primeira raiz, foi começar do zero pela primeira vez, depois, tudo ficou mais fácil.
Inclusive, penso que nunca recomeçamos, ou sequer começamos, do zero. Mesmo quando nascemos, bebezinhos desprotegidos, temos todo um contexto a nos envolver: nossos pais, nossa classe social, nossa nacionalidade, nosso idioma... Não somos uma tabula rasa, uma folha em branco pronta para ser preenchida, e quem acredita em vidas pregressas defende até que trazemos conosco experiências de outras encarnações.

Talvez recomeçar seja recriar-se, numa perpétua tentativa de encontrar seu lugar neste mundão. Fugimos para sermos felizes. Recomeçamos para tentarmos descobrir quem nós mesmo somos.
Afinal, não foi este mesmo ímpeto que levou a raça humana a cruzar, há vários milhares de ano, o estreito de Bering e migrar da Ásia para a América, ou todas a levas migratórias de todos os tempos, gente que vem e vai, transpondo continentes e oceanos, em busca da felicidade?

Recomeçamos porque somos humanos. Recomeçamos para nos recriarmos. E, se por acaso, não for como planejamos, as estradas ainda estarão aí convidando-nos para trilhá-las.

Para acompanhar a nossa viagem da Itália até a Espanha, clique aqui.

Henry Alfred Bugalho
Curitibano, formado em Filosofia pela UFPR, com ênfase em Estética. Especialista em Literatura e História. Autor dos romances “O Canto do Peregrino”, "O Covil dos Inocentes", "O Rei dos Judeus", da novela "O Homem Pós-Histórico", e de duas coletâneas de contos. Editor da Revista SAMIZDAT e fundador da Oficina Editora. Autor do livro best-selling “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, cidade na qual morou por 4 anos, e do "Curso de Introdução à Fotografia do Cala a Boca e Clica!". Após uma temporada de um ano e meio em Buenos Aires e outra de oito meses na Itália, está baseado, atualmente, em Madri, com sua esposa Denise e Bia, sua cachorrinha.

http://www.henrybugalho.com/





sábado, 8 de dezembro de 2012

a auto comimimiseração das pragas urbanas




o que me torna uma praga urbana infecta e em conflito permanente com o que minhas intenções aparentam
é que me assalta com violência a vontade de estar à vontade para dizer de um jeito compreensível
um simples olá sinto muito a sua falta adoraria poder estar aí agora obrigado por tudo não se preocupe muito durma bem meu bem seu V

mas é tão difícil

a minha garganta expulsa asas nojentas batendo de dentro para fora a coisa mais estúpida para se dizer
e não me esforço quando as pulgas saltam quando as asas batem
minha autocomimimimiserável índole
entra no cíclico e fatal processo de autoflagelação autoculposa
um draaaaaaaaaaama sem tamanho e pouco convincente de ser o último a receber uma boa dose de

vem cá tchê já chega

eu até posso pedir desculpas e dizer que não era nada disso
não era
mas aí a merda já estava feita
e poucas criaturas da natureza entendem melhor de merda que as imprestáveis pragas urbanas
mas eu peço
se ainda posso e se ainda há tempo de dizer
digo

olá
sinto muito a sua falta
adoraria poder estar aí agora
obrigado por tudo
não se preocupe muito
durma bem
meu bem

seu

V
















sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

sobre poemas e filhos

Li
do livro a parte única
que me era desconhecida
a parte aquela
que um autor escreve
por querer
aos seus leitores
futuros
imaginários
[des]esperados

Li
do livro a parte
primeira
aquela que fala
do que está
por vir
em símbolos gravados
dentro das páginas
dos dizeres de papel

E só
então, eu li
aquilo que ninguém
mais poderia ter lido
ou supor em suas mais férteis
divagações sobre o que veio
logo depois.
e lendo eu
[re] vivi
o lírico do antes
e o durante, que matou
muitos de nós
e fez nascer mais um.

Li o que não estava escrito
o que jamais será escrito
li as mentiras também
muitas que me contaram
muitas que eu contei

Li o nome do meu filho
e não gostei
como nunca gosto
de perceber
que assim como as demais
palavras que fazem versos
nenhum nome, nenhum verso
nenhum poema
é de fato
apenas
meu.





quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

Síndrome de Estou Como

Resolvi publicar uma tese extraordinária (Sheldon Cooper off) e compartilhar com algumas mentes iluminadas. Caderno e lápis na mão.

Mulheres vão juntas ao banheiro, emprestam roupas, bolsas, às vezes até namorados. Uma é o confessionário da outra e o porto seguro ou porto de galinhas também. Se você é homem e pensa em se infiltrar entre duas melhores amigas, cuidado! Você vai se queimar. Não existe solvente capaz de separar uma dupla, grupo ou alcateia de amigas mulheres. A não ser elas mesmas, claro, mas aí é melhor sair da frente porque a coisa é feia. Briga de foice, unha, dente, pisão no dedinho do pé. Um horror! No meio de toda essa cumplicidade, juras de amor eterno e apadrinhamento automático de filhos há a confiança parcelada. Calma que eu explico, mente masculina: confiança parcelada, na verdade, já diz tudo. É o tipo de confiança que vai chegando aos poucos, e mesmo em uma amizade solidificada pelo pacto de sangue, no caso das mulheres, nunca se completa. A Síndrome de Estou Como provém desse parcelamento sem juros.
"Síndrome de Estou Como é um desvio comportamental registrado nos mais antigos livros científicos da humanidade. Ligado à insegurança psicológica, tal síndrome se desencadeia através da pressão sociológica das tribos. Seu principal e mais notável sintoma são as viradas e checadas no espelho, podendo causar dependência. O estágio mais elevado faz com que o paciente pergunte insistentemente: Estou como?"
Essa, talvez, seja a maior armadilha feminina. A mulher não quer saber como ela está, mas como você acha que ela está. Sua reputação fica em jogo. Uma resposta errada e pronto, sua semana vai para o saco (junto com sua cabeça). Antes de responder, seu cérebro deve analisar todas as situações e opções disponíveis. Muito rápido, é claro. Até mesmo a demora em responder é considerada inflamável. Um fósforo e BUM! Perdeu playboy.

Mesmo se ela estiver horrível, com batom no dente, um nó bem visível no meio do cabelo ou com metade da saia presa na calcinha, você deve dizer que ela está ótima. Porque para nós, mulheres, tudo tem que estar ótimo a todo momento. Se não está ótimo é porque algum irresponsável inútil permitiu aquilo. E o irresponsável inútil, em 99% das vezes, são vocês - homens. Caso ela esteja na TPM diga, sem analisar qualquer item, o mais rápido possível, que ela está maravilhosa. E dê beijinho na bochecha. Porque sim.

A SEC (síndrome de est... blá blá blá) atinge todas as mulheres dos 18 aos 100 anos. Eu disse todas. Nenhuma cura foi encontrada, pois ninguém conseguiu reunir um número notável de cobaias para o teste. Todas as mulheres, ao que parece, estão crentes de que precisam mesmo da opinião alheia para se vestirem. Os exames neurológicos indicam que a síndrome é destrutiva, e se não tratada, leva a sintomas mais sérios como a baixa autoestima e o popular "você não me ama mais!"





quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

[Re]voltas

Foto: Camila Hein

Ao deixar o cume
Em queda livre
Com o corpo sangrando
De olhos e braços bem abertos
O mundo continuou girando
Sem se importar
Com o provável desfecho
Talvez tudo tenha mesmo o seu preço
Começo, meio e fim
Sim, ele é inevitável
Tudo o que é bom
Um dia acaba
Tudo o que é ruim
Uma hora passa
Do alto desaba
E [re]começa outra vez.





segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

IMPRECISÃO


IMPRECISÃO          



O que mais espanta

é o homem sempre

querer-se exato.


Pois sua medida

perde-se nas frinchas

de seu próprio ato.


E, se o ato trinca,

permite o assalto

da imprecisão.


E esta, insolente,

espalha-se por tudo

(grama pelo chão).


Feito epidemia,

todos contamina,

alhures e aqui.


E o homem, pego,

perde a medida,

perde-se de si.


E, uma vez perdido,

o homem se lança

ao léu das palavras.


Mas estas, latentes,

menos se revelam

quanto mais se cava.


Mas revelam o homem,

que, à sombra delas,

tenta se esconder.


Ele, então, desnudo,

mostra-se inteiro

em um outro ser.


Só assim, desfeito,

o homem se refaz

da potência ao ato.


E, ao refazer-se,

torna-se completo,

ainda que inexato.



Edelson Nagues

Do livro Águas de Clausura (Scortecci Editora).





domingo, 2 de dezembro de 2012

QUEM TEM BOCA VAI A ROMA


Diz o célebre ditado que Quem tem boca vai a Roma, muito embora alguns filólogos jurem de pés juntos ser o conhecido provérbio nada mais do que uma corruptela de Quem tem boca vaia Roma, interpretação bem mais plausível, dados os escândalos que desde sempre envolveram política e religião na Roma Antiga.
Mas não pretendo enveredar por questões de ordem linguístico-filosófica. É lógico que o turista de primeira viagem deve começar pelas capitais, e Roma, considerada durante certo tempo o centro da civilização ocidental, não deixa nada a desejar em relação às demais capitais do Velho Mundo.
Minha intuição, contudo, sempre me levaria a sugerir roteiros menos óbvios. Logicamente, Turim, Milão, Florença, Bolonha, Nápoles estariam entre as cidades de visita obrigatória, mas o que sempre julguei atraente era a possibilidade de descobrir vielas escondidas e palmilhá-las, percebendo rotas invisíveis ao turista novato.
Percebo, então, que a viagem pela Itália começara muito antes do embarque. Já viajava, de olhos fechados, ao ouvir a rapsódia de Paganini ou as obras passionais de Verdi. Pássaros gorjeavam na floresta do meu imaginário ao me embrenhar pelo bosque primaveril de Vivaldi e de passear minha audição pelas suas Quatro Estações.
Meus dedos tateiam em sonhos as pinturas e afrescos, e sou levada, pela arte de Rafael, Da Vinci e Michelangelo, a imagens que transcendem os limites de suas telas. O enigmático sorriso da Gioconda, o suave nascimento da Vênus de Botticelli, o profano banquete de Bellini em O festim dos deuses, todos vislumbram pontos nodais da genialidade humana. Fechando os olhos, sou quase tocada pela mão divina, como o homem primordial d’A Criação de Adão, e nesse momento minha mente se amplia, ganhando as proporções do teto abobadado da Capela Sistina. Como o Homem Vitruviano, sinto-me no centro de um universo-pentagrama esboçado pelo Humanismo.
Minha memória passeia ainda pela história da humanidade, e mergulho em luto ao relembrar as páginas sangrentas escritas no Coliseu, tintas do sangue cristão dos que eram atirados aos leões. Ou das inúmeras decisões tomadas no Vaticano, concentrando a cúpula católica. E talvez de lá venham também algumas das minhas referências religiosas, pois transitei por todas as esferas espirituais pela mão de Dante, cuja obra me condenou ao Inferno, purificou-me no Purgatório, para permitir minha entrada, redimida, no Paraíso.
Em um mundo de desconcerto, como a arte tão bem decantou, o que não dizer do sábio desequilíbrio da Torre de Pisa, cujo encanto reside precisamente no desafio estético por ela concretizado?
Mas é Veneza o lugar que encarna minha indiscutível preferência. É ao sabor de suas gôndolas que navego, e o inconfundível som dos remos ao cruzar as águas me desperta uma lembrança há muito guardada. Cidade cujo nível das águas se eleva um pouco a cada ano, atua quase como a minha Atlântida particular, lugar mítico em que a existência se torna mais suave, embalada pelo ritmo das águas que nos conduzem. Sou misteriosamente fascinada pelo seu tradicional Carnaval de Máscaras, numa magia que somente lá se mantém. Arlequins gracejam em minha memória ancestral, e cruzo a Praça de San Marco lentamente, enquanto um aroma de café expresso me invade as narinas, numa sinestésica saudade. Ao fundo, o som de O Mio Babbino Caro completa o nostálgico quadro que se desenha em minha fantasia.
Fecho os olhos novamente, e o sabor da massa regada a vinho que saboreio preliba toda a gama de sensações que o viajante tem ao adentrar a Itália.
Quem tem boca vai a Roma. Quem tem os cinco sentidos e conhece o sabor da Itália só deseja retornar.