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quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O admirador de Poirot em S. Paulo


Joaquim Bispo


Gentis senhoras, meus senhores, meu muito obrigado por terem vindo!

Talvez vocês não saibam, mas tenho estado a investigar a morte misteriosa do Sr. Roberto, que apareceu caído, justamente nesta sala da mansão. Toda a família considerou natural a morte, devido aos seus oitenta anos, e ao fato de estar em coma desde a Copa do Mundo, mas sua filha pediu-me que investigasse a morte, por suspeitas de crime.

Eu não sou policial, nem detetive; sou gamado em romance policial, pelo que conheço bem todo tipo de crimes e manhas dos criminosos.

“Você não vê filme policial? Certamente foi o mordomo!” – esclareci – mas ela disse que não havia mordomo. O caso complicava-se.

Ao visitar o local do crime, apercebi-me duma pequena mancha de umidade no chão, ali, naquele canto. Suspeitei logo que o criminoso tivesse ali vertido algumas gotas de um poderoso veneno com que matara o Sr. Roberto. Recolhi uma amostra e enviei-a para o laboratório. O resultado não foi animador: era urina de gato. O que o gato estaria a fazer aqui, justo nesta sala?

Perguntei então à menina Rosimeri por que ela suspeitava de crime. Ela me informou que havia um montão de familiares a querer pôr as mãos na fortuna do pai.

“O que diz o testamento?” – perguntei.

“Que eu herdo tudo!” – respondeu.

Então, eu a olhei nos olhos e a confrontei:

“Foi você, Rosimeri, não minta!”

Ela mostrou-se muito triste e chorosa por nem eu acreditar nela e foi então que trocamos o primeiro beijo. Não que me agradasse, mas era a maneira mais rápida de detetar se ela tinha manuseado alguma substância tóxica. Na verdade, tinha gosto de coca-cola, mas não liguei.

Concentrei-me, então, na vizinhança. Interroguei a vendedora da loja de flores, o senhor da farmácia, o carteiro. Todos disseram que não tinham visto nada, mas eu notei um ambiente de conspiração coletiva no ar. Claramente escondiam algo. Pedi, para a capital, informações sobre o Sr. Roberval da farmácia, que me vendeu absorventes, quando eu pedi bandeides. O informe dizia que, há vinte anos, ele tinha sido absolvido num caso duvidoso da morte dum corretor de seguros de vida, ao tomar aspirina. O caso começava a compor-se.

Informei, das minhas suspeitas, o delegado Robson, aqui presente, e, a partir daí, temos desenvolvido a investigação em conjunto; ou antes, eu sou muito mais perspicaz do que ele, pelo que estou sempre um passo à frente. Enquanto ele analisa uma faca encontrada atrás da mansão, já eu estou investigando a coleção de borboletas do falecido e encontrando lá uma Sphinx Morio, que só existe na China; quando ele chega à casa de chá, para interrogar a Sra. La Fei La, já eu acabei de examinar um álbum de fotografias de trinta anos atrás, que ela me mostrou, onde aparece o Sr. Roberto num piquenique abraçando a mãe do carteiro.

Neste momento, ainda ele pensa que este é um simples caso de assassínio a sangue frio, mas, pela minha intuição, já percebi que estamos perante um complexo caso de contornos misteriosos, que envolve o sobrinho Renan, que tem dívidas de jogo, o antigo empregado Ronaldo, que nunca perdoou ter sido rejeitado pela menina Rosimeri, o vizinho Reginaldo, que tinha uma inveja mortal das orquídeas que o Sr. Roberto cultivava, e a Sra. Renata com quem o defunto teve um caso amoroso trinta anos atrás. Mais o Sr. Roberval da farmácia e a Sra. La Fei La, claro. Por isso pedi a vocês para nos reunirmos nesta sala.

A primeira pista foi a descoberta de que todos seus nomes começam por R. Aparentemente, cada um apresenta um álibi credível, mas o mais insuspeito acabará caindo na armadilha das minhas perguntas e será desmascarado. E poderá sair incriminando vários outros. No final todos perceberão que a solução de um caso tão complicado só foi possível devido à perspicácia do meu olhar, à genialidade sistemática e racional do meu método de investigação e à sagacidade do meu interrogatório. Posso começar ou confessam já?

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


5 comentários:

Bem, eu como fã de Poirot, nem preciso dizer que vi neste conto uma atmosfera pra lá de fiel.
Engraçado é que comecei a ler sem olhar para o título. Já no fim do primeiro parágrafo, pensei: "Nossa, isto está tããão Aghata Christie!". Aí, fui ler o título...
Só fiquei com vontade de saber quem matou...

Imagino que terá uma continuação, ou não, Joaquim?

Henry! Pensei a mesma coisa! Joaquim: está devendo.

Joaquim, sim senhora tem estilo e jeito, mas assim, apenas assim, curto e sem aqueles meneios que exigem que a gente saiba o tempo todo de que lado estava a cauda do gato quando a criada entrou na sala onde afinal se há-de, mesmo no final, confirmar que nem estava um gato,mas...
policial nunca foi meu género e soube, tarde, que era o género dos muito inteligentes! paciência, há excepções que confirmam a regra...

Têm razão, como conto o texto está incompleto. Já apaguei a etiqueta “conto”.

Este texto foi concebido como rábula de stand up comedy parodiando os clichês das histórias policiais. Antes e depois dos vossos comentários pus a hipótese de lhe acrescentar um final credível, mas vou mantê-lo fiel à conceção inicial. Mas fiz alterações no último capítulo.

As minhas desculpas aos que, mesmo assim, se sintam defraudados.

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