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terça-feira, 25 de setembro de 2012

Contos por medida


Joaquim Bispo

Dickens

Aqui nasce a grandeza da nossa nação, alardeou John, apontando o pavilhão sombrio onde giravam volantes e fumegavam caldeiras; mas Charles só viu duzentos meninos enfarruscados a tirar da fome forças.

(Evocação de Charles Dickens, com 200 carateres, no 200º aniversário do seu nascimento – 2012)

***


O Aluno Grisalho

Há uns anos, o docente de Arte da Pré-História organizou uma visita a Foz Côa para ver as gravuras rupestres. Alugou-se um autocarro e chegámos na véspera, à tardinha, que as visitas eram de manhã.
À hora de jantar, escolhi um restaurante e preparei-me para comer sozinho. Pouco depois, começaram a entrar muitos coleguinhas, por terem visto ali o colega grisalho. Acabou por jantar lá uma vintena de estudantes.
Quando pedi a minha conta, ripostou o dono:
– Não, o senhor não paga! Sou eu que ofereço!
– De maneira nenhuma! – protestei. – Por quê?
– O senhor não é o condutor do autocarro?

(Celebração, com 100 palavras, dos 100 anos da Universidade do Porto – 2011)

***

Post scriptum:

O ambiente sob suspeita

– Mr. Bush, é grave: o gelo já desapareceu do Kilimanjaro.
– Apanhem-no! Ele pode fugir, mas não se pode esconder!

(Integrante da II coletânea de 100 microcontos de humor de Piracicaba, limitados a 140 carateres)

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

O de Dickens é mais forte. Para desalienar e pensar.

O segundo, me fez rir. Ah, de quantos preconceitos estamos cercados, hein?
Aqui no Brasil, se estiverem sentados na antessala de uma repartição pública dois homens e uma mulher, o visitante que entrar irá se dirigir a ela como sendo a secretária. Alguns, inclusive, dirão: "Filhinha, seu chefe está?" E tem pior: "Querida (ou "Gatinha", se for mais jovem), diga a seu chefe que o 'Dr." fulano está aqui".
Os meus cabelos grisalhos (embora ainda não muitos) escondo bem escondidos embaixo de tinta. Preconceito meu.

O "desalienar" era para ter saído entre aspas também (invenção minha, na falta de verbo melhor)

Na sequência de um comentário seu, tempos atrás, sobre tamanhos de contos, lembrei-me do que Saramago comentou sobre os 140 carateres do Twitter:" Os tais 140 carateres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até ao grunhido."

Sobre "desalienar", não foi você que inventou, não. Já vem nos dicionários...

Joaquim, na verdade, eu sempre vi o verbo por aí, mas nos nossos dois melhores dicionários — VOLP (Academia Brasileira de Letras) e Houaiss — ele não existe. Fiquei frustrada.

Pois é, eu concordo com Saramago. Li esse pensamento dele faz tempo e me identifiquei. Mas há quem consiga ser genial em 140 toques. Você foi. Mas isso é raro, raro. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra.

Antes que eu esqueça: meu livro ainda não foi porque os correios aqui estão em greve.

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