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sábado, 25 de agosto de 2012

Fado de Coimbra

Joaquim Bispo

Rosália tinha dezoito anos quando foi violada. Andava a apanhar lenha para casa num pinhal perto de Coimbra, quando um resineiro a agarrou. Mesmo que gritasse, de nada serviria, no ermo onde andava. Nunca contou a ninguém; guardou a mágoa para si.

Fernanda, filha de Rosália, tinha vinte anos quando foi violada. Era camareira num hotel de Coimbra; o patrão encurralou-a num dos quartos do terceiro andar, ameaçando-a de morte se gritasse. Não fez queixa dele, com receio da exposição pública. Guardou a revolta para si.

Vanessa, filha de Fernanda, tinha vinte e um anos quando foi violada. Era estudante universitária em Coimbra; foi atacada por um colega do mesmo curso, ao anoitecer, e obrigada a entrar numa casa em obras sob a ameaça de uma faca. Não teve oportunidade de denunciar o atacante porque ele cortou-lhe a garganta no estertor final da violação.

O acontecimento comoveu toda a cidade e milhares de pessoas acompanharam a rapariga à última morada. Há muito que não se via tão deslumbrante mar de lenços brancos a acenar. Na hora da despedida, Coimbra tem sempre mais encanto.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


7 comentários:

Dilacerante e belo, Joaquim: como a vida. Parabens pelo texto, amigo. Abracos do Japao.

uáu o Joaquim no seu melhor!!! :)

Bravo! Belíssimo! Gosto da sua escrita forte, e mais ainda quando é dessas que cortam o ar num sopro só.

Excepcional mesmo, Joaquim.

A frase "Há muito que não se via tão deslumbrante mar de lenços brancos a acenar" é de um poder visual tremendo.

Abraços.

Obrigado, amigos!

Coimbra, com um forte núcleo universitário desde o século XIII, é uma cidade linda e aprazível, mas há uns anos foi assolada por uma vaga de violações de universitárias, perpetradas por diferentes predadores sexuais, e em 2007 uma estudante foi degolada pelo namorado, aluno do mesmo curso. Parecia que um fado funesto tomara e regia o mundo universitário coimbrão.

Antes que me esqueça, vou enviar o meu texto para a Samizdat nº 34, que já só faltam 3 ou 4 dias para o fim do prazo.

Excelente prosa, Joaquim!
Dramática q.b., com um impacto emocional muito forte e duro.
Gostei muito.
Abraço.

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