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quarta-feira, 25 de julho de 2012

O fundo da gaveta


Joaquim Bispo

James Burn era um detetive peculiar: só tratava de casos já julgados, cujo veredito tinha ditado a pena de morte. Era a sua forma de combater o que considerava “modo primitivo de aplicação da justiça” do país.

Mantinha um vasto ficheiro de pastas que consultava regularmente. Quando, por acaso de circunstância – geralmente por intervenção de familiares dos condenados – lhe chegava alguma pista extra, passava o respetivo caso para os pendentes, e, a partir daí, seguia o novo indício com minúcia e perseverança até o esgotar. A maior parte das vezes, a pista dava em nada; noutras, chegava a conseguir a reapreciação do caso, e, num caso ou noutro, a libertação dum inocente.

Eram estes casos que o enchiam de orgulho e lhe davam alento para o combate. Como outros admiram o diploma emoldurado na parede, ele, todas as manhãs, folheava as pastas dos condenados absolvidos: o caso do quase adolescente que fora condenado por violação e morte da namorada, crime que afinal tinha sido obra do padrasto; o caso do negro que morreria por injeção letal daí a dois dias, quando a sua investigação provou que estava longe do local no momento do assalto; e mais três ou quatro outros casos.

No fundo da gaveta jaziam os dois que ditariam a libertação de inocentes, mas que, infelizmente, tinham sido resolvidos tarde de mais para os condenados. A pena de morte antecipara-se. Quando tinha coragem para os folhear, invariavelmente, abria também a última gaveta da direita da escrivaninha donde retirava uma garrafa de Jack Daniel's. Como gostaria de viver num país civilizado!

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

Por aqui, não temos a pena de morte. Ainda bem. Com tanta corrupção interesses escusos, forjariam provas ora para condenar inocentes, ora para absolver ulpados. Só com (muito) Jackson Daniels mesmo! Texto enxuto, preciso, excelente!

Os segredos de um fundo de gaveta. Belo texto, Joaquim.

Só agora estou relendo o que escrevi a partir do Ipad e morrendo de rir! Faltou um "e" antes de "interesses" ...."Culpados" (o "c" sumiu) ... "Jack" virou Jackson! O recurso de autocompletar tem vida própria!

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