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quinta-feira, 8 de março de 2012

a flor esquecida




encontrei uma flor agarrada à chave da grade
a chave é igual à minha

onde vivo todos têm uma


     a grade que abre
     divisa os espaços apartados
     do espaço comum

     lá
     acima de onde vivemos
     põe-se limpo e úmido ao sol
     aquilo que nos veste aos olhos alheios

era uma bela flor esquecida
    
     um convite ao passeio

saquei-a à grade
levei-a no bolso

enquanto estendia ainda noite o que me veste
para esperar a manhã desde o início
       
     que hora me resta para desvestir-me
     e lavar das roupas o suor do dia?

fiquei tentado pela vontade de mantê-la

     quem dará falta dela
     se dela se esqueceu?


a chave pouco importa
onde vivemos
compartilhamos um mesmo segredo

     ou dois, mas um dá para a rua
     esse, o da grade, só nós, os que vivemos dentro, vemos


quem descuidou à flor
hora ou outra dará pelo descuido
e voltará para reavê-la

devolvi-a, pois, à grade donde a tirei
essa flor também não era minha
como pude querê-la

     deus, e como não?


quem a perdeu
se alegrará de encontrá-la lá

     quiçá nem perceba que andou passeando comigo
     esteve em minhas roupas
     e no espaço em que me aparto


a mim
valeu-me mais ter comigo a flor esquecida um momento
que ficar para sempre com ela
deu-me
     decididamente
um pouco de poesia











publicado originalmente em: http://poeticaipsisverbis.blogspot.com/2012/01/34-flor-esquecida.html

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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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