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sábado, 25 de fevereiro de 2012

Quotidiano Fantástico – A Carta Anónima


Joaquim Bispo






Uma destas manhãs, ao levantar-se, Henry deparou com a seguinte mensagem, junto à porta, escrita com palavras recortadas de jornais e coladas num pedaço de papel:

/ anjinhos / milhões / visitaram / chefe / bicicleta / fatias /

Incompreensível como parecia, não lhe atribuiu grande importância. De qualquer modo, ligou para Denise, mas ela não tinha visto nada suspeito, quando saíra. Teria sido, com certeza, composta por algum grupo de miúdos desocupados tentando divertir-se à custa dum vizinho. Espreitou pela janela do quarto a ver se descortinava os malandrinhos alapados por detrás de algum arbusto. Ninguém. Atravessou o corredor e olhou pela janela da sala. A rua estava deserta, ou antes, com os esporádicos transeuntes habituais. Nem sombra dos catraios.

Enquanto preparava o pequeno-almoço, atentou melhor naquele conjunto de palavras alinhadas no papel. Seria algo para levar a sério? Hum! Parecia tão desconexo, sobretudo a parte final!
De repente, um sobressalto. Pareceu-lhe detetar uma ameaça, velada, mas grave. “Anjinhos” remetia abertamente para a outra vida, ou antes, a morte. E uma bicicleta retalhada às fatias pareceu-lhe uma ameaça típica da Máfia.
Sentiu-se empalidecer. O tempo do verbo na frase – “visitaram” – fez-lhe temer por uma intrusão já realizada.

Levantou-se de um salto e vistoriou a casa.
Tudo em ordem. Aparentemente. Espreitou para o pátio. A sua bicicleta estava intacta e Bia, a cachorra, também parecia bem – viva e de boa saúde. Estava atarefada a remexer a terra. Nada parecia indicar que alguém tivesse entrado enquanto dormia. Aliás, Bia teria latido.

Parou a admirar o seu dinamismo. Após um momento, notou alguma coisa de estranho na maneira como se movimentava. Talvez uma certa atitude furtiva. Observou-a melhor.
Foi então que percebeu que a azáfama em que a safada estava empenhada tinha por objetivo enterrar vários pedaços de jornal, uma tesoura e um tubo de cola!


Crédito da imagem: http://pasidupes.blogspot.com/

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


5 comentários:

Muito bom, Joaquim, a Bia sempre aprontando as delas... :D

Aposto que ela adoraria um quintal, e não ser um cão de apartamento. Quem sabe em breve, onde a máfia realmente é um problema.

Abraços e novamente obrigado pela homenagem.

Muito boa!

Luciana Rocha <><

Gosto de histórias intrigantes e finais inesperados...

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