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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

hoje matei um menino











passavam das seis da tarde
o dia seguia sem dar por nós
o telefone não tocou
o menino veio
eu sabia o que queria
ele sabia o que queria

alimentei-o com um caldo ralo

pão e sonhos
olhamo-nos cúmplices
nos queríamos livres

eu dele
ele das tardes sujas de barro vermelho
sorriu
pôs debaixo do braço o caderninho com espiões e vilões desenhados
limpou o nariz nas mangas da blusa
não correu
não correria nem se eu mandasse
tomou nas suas mãos gordinhas as minhas
quis afagar-lhe os cabelos
ele não quis
pôs meus dedos em volta de seu pescoço
pediu-me para matá-lo
do mesmo jeito que pedia ao avô pão com margarina e açúcar

apertei lhe a garganta

regurgitou
vomitou o que engolira
sangrou pelas narinas
transpirava um ar fedido de mofo
parecia rir
não de mim
ria das coisas

as coisas foram-se rompendo
as tardes vermelhas viraram concreto
o sonho de ser espião ficou branco e saiu voando
e seu corpinho evaporava evaporava
evaporou
sumiu
com sua risada

enfim

conseguimos
as coisas conseguiram

tudo partiu
para sua própria existência
eu para ficar desperto o tempo que quisesse sem mais nenhum sonho
e o menino

foi















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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

todo dia 08


6 comentários:

ah! que eu nem acredio que seja o seu menino, Volm, mas que a gente os mata assim desse jeito e pior um pouco, disso não tenha dúvida!

Matei o menino que me habitava, Fátima. Para crescer, é preciso, não é?

Ah, essa coisa de crescer, que sobevive de matar a criança que nos habita, hein? Mas seu texto me fez pensar ainda mais: quantas vezes será preciso matar esse(a)menino a) para que não reste senão realidade? Tristemente belo!

não tenho certez que seja, Volm, digamos que me inclino mais a que aprendamos a lidar com ele, a conversá-lo: faz-nos tanta companhia!!! dá-nos tantos puxões pela manga em certas ocasiões ou incita-nos a que a vala tão larga para o nosso pulo curto não passa de valeta de rua...

bem, é um fato: esses habitantes íntimos não podem ser mortos. eles voltam quando menos se espera. há que se conviver com eles. é uma multidão que seria um genocídio íntimo tentar livrar-me de todos. e eles sempre voltam. mudados. alguns, terrivelmente mudados.

Estou a achar que esta troca de comentários está a ficar mais elucidativa e profunda que o texto comentado.

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