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terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Sevillanas

Carolina Benazzato

Onze e quarenta e cinco, anunciava o relógio. Anoitecera, embora ninguém tenha se preocupado em acender as luzes. Talvez em nome da agradável penumbra avermelhada no quarto, traçada a partir do abajur do contista; talvez pelo destaque que o escuro possibilitava ao som do piano vindo daquele mesmo cômodo. Um dó, um ré, um mi. Um fá. Um sol, ao fim da luz vermelha, e na primeira margem da folha vazia. Sentou-se na cadeira de madeira, recostando-se. Ao seu lado, os dedos prosseguiam a pressionar fortemente as teclas do canto direito do piano -- as agudas, doces, de cor azul-púrpura. Poderia estar enganado, reconhecia, mas tinha a impressão de estar ouvindo, de modo consideravelmente longínquo, o leve som da batida de castanholas. Levantou-se e certificou-se de destoar o trinco enferrujado da janela. Precisava de mais sons além dos provenientes do dó, do ré, do mi, além das vozes caladas, da forte batida de seus dedos nas teclas de sua máquina de escrever Olivetti. Precisava do silêncio que os demais sons traziam. As castanholas pareciam seduzí-lo, e puxavam-no pela gravata -- ato seguido por um olhar proibido. Seduziam-no tanto quanto o roçar da barra do vestido nas pernas. Lábios vermelhos, mãos delicadas.
Pele com pele.
Perdeu-se em sensações, convicto de que são as únicas coisas que carrega consigo...
... e então avistou.
O fez ainda de longe, mas certo de que tratava-se de barras de vestido, de pernas e de lábios -- avistou as castanholas -- e de mãos. Certo de que tratava-se de uma cigana.

Atentou-se aos cabelos longos, bem escuros, enrolados. Aos olhos acizentados, aos lábios, delicados como as maçãs de seu rosto. O vestido vermelho cobria sua cintura fina, roçando nas pernas atraentes. Uma flor escarlate presa em sua cabeça, e brincos de argola. Sua expressão trazia a mesma luz da quinta nota musical, e, então, o barulho -- o som do piano abaixava cada vez mais, até atingir tons inaudíveis. As vozes, antes caladas, passaram a marcar presença em sua mente quando lá acumularam-se. Perdeu-se nelas, certo de que assim somos movidos.
Perdeu-se por um longo tempo.
Apoiando-se na batente da janela, redirecionou sua cabeça em direção à lua e fechou os olhos. Imaginou-se girando a maçaneta dourada da porta de madeira com um breve movimento de suas mãos, e viu-se correndo em direção ao som das castanholas, tão impreciso e sedutor. Desejou suas próprias mãos completando o vazio que havia ao redor daquela cintura -- em seus semotos pensamentos, já há tempos ansiava que não mais estivesse envolta por cetim vermelho algum. Via a mesma penumbra vermelha de seu quarto iluminando-a, refletindo-se naqueles olhos nublados. E o oco som das castanholas prosseguia a soar de suas mãos delicadas. Um passo, seguido por outro. Seus pés tocam o piso de madeira, em uma sequência ritmada às suas mãos. Seus braços se dobram para atrás, e sua cintura move-se para lá e para cá, em movimentos discretos, porém um tanto chamativos aos olhos do rapaz. A atraente cigana move seu braço esquerdo para a direita, e suas pernas realizam movimentos que fixam a atenção. A mão direita é erguida em direção à lua, e lentamente abaixada acompanhada pelo leve soar das velhas castanholas. A barra de seu vestido é erguida por suas mãos, tão finas e belas, e, infelizmente, sentiu o contista, logo abaixada, dando uma volta quase completa ao redor de suas canelas, e então retornando à sua posição inicial.
O homem decidiu aproximar-se, seduzido por seus movimentos. Todo o seu ser desejava intensamente aqueles lábios, aquelas mãos, aqueles olhos nublados, chuvosos. Por toda a sua vida nunca desejara tanto alguma mulher como ansiava por estar o mais próximo possível daquela cigana naquela noite. Ergueu suas mãos, fortes, masculinas, em direção ao rosto da mulher mais bela que já vira em todos os seus anos de vida.
...
Duas e dezessete, anunciava o relógio. Logo após encaixar a folha vazia em sua máquina de escrever, o contista compunha um novo escrito ao som de castanholas. Poderia estar enganado, sempre o reconhecia, mas tinha a impressão de estar ouvindo, de modo consideravelmente longínquo, o açucarado som de uma flauta...

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Carolina Benazzato
Vive em São Paulo, no compasso dos ponteiros do tempo, com a presença do afeto verdadeiro de quem ama sempre presente em sua órbita — inconstante, por ser sempre crescente. Adora a adocicada voz da esperança, aos sussurros. Sempre enxergou no mundo das palavras um universo paralelo, onde pode agir reconhecendo sempre ser alguém que não sabe ao certo quem é. E ainda assim age como se isso fosse possível.
www.sonhosdescritos.blogspot.com

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1 comentários:

é um tremendo orgulho pra mim....
Parabéns, Carolina!!!

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