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quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quotidiano fantástico – Atacama na minha cozinha


Joaquim Bispo



Há tempos, ao regressar de umas pequenas férias, deparei-me com um carreiro de formigas na cozinha e brigadas de exploração em vários outros pontos da casa. A minha mulher tratou de as atacar com vinagre e spray anti-insetos – método brutal que desaprovo, talvez inspirado nas soluções nazi-ianques – mas, apesar das inúmeras vítimas, a comunidade esfomeada não desapareceu completamente.

Uns quinze dias depois, encontrei o meu pacote de flocos de cereais com chocolate cheiinho de formigas, aonde chegavam por um carreiro de espesso caudal. Silenciosamente, sem pressa, deambulavam sobre os flocos e banqueteavam-se, suponho; não apurei se transportavam minúsculos pedaços da iguaria para a sua base, que imaginei na parede, por detrás dos azulejos.
Não tenho nojo das formigas nem das abelhas, como tenho das baratas ou das moscas. Não me passou pela cabeça deitar fora os flocos. Mas, como limpá-los? Passá-los por água estava fora de questão. Peneirá-los? As danadas não largariam tão facilmente o seu pedaço. Pô-los no micro-ondas também não era opção, porque além do desagrado de matar as bichas, ainda ficaria com uns flocos com um sabor um pouco picante, acredito. O ideal seria fazer com que abandonassem o pacote e não retornassem. Mas como?

Lembrei-me, então – baseado nos métodos de baixa intensidade dos camponeses para preservar os seus produtos dos roedores, e mais como brincadeira de miúdo a descobrir as maravilhas do mundo animal, que como experiência promissora – de pendurar o pacote por uma longa e fina linha de costura ao teto, sobre a mesa da cozinha. A ideia, sem grande esperança de êxito, era que a necessidade de manter contacto com a base as obrigasse a procurar a saída e que, abandonando o local, tivessem dificuldade em reencontrá-lo. Como efeito inesperado, em resultado do peso estirando uma linha torcida, o pacote começou a rodopiar.
Não creio que esta rotação as incomodasse, e, pouco depois, já algumas tinham encontrado a linha, que iam explorando, avançando um bocado, voltando atrás para transmitir informações, regressando à descoberta. Quando me fui deitar – umas três horas depois – a linha estava carregadinha delas e várias já exploravam a vastidão desértica do teto liso. Na manhã seguinte, o pacote estava livre de formigas. O pacote e a casa. Nem uma. Desapareceram todas. E passaram-se meses sem voltar a vê-las.

Ao imaginar a pequena odisseia das formigas, obrigadas a trepar uma a uma, às escuras, por uma linha rodopiante interminável, para escapar ao isolamento forçado, surgiu-me naturalmente a comparação com a saída dos mineiros chilenos das profundezas da mina de cobre no deserto de Atacama. As situações tinham muitos pontos de contacto. Pus-me mesmo a calcular até onde chegava a similaridade. Na verdade, tendo a linha pouco mais de metro e vinte, e as formigas três milímetros, a relação corpo – distância ao teto era semelhante à do resgate dos mineiros chilenos: 1/400. Bem, se calhar, arredondei um pouco as contas…

Certamente que foi muito mais fácil para as formigas treparem, às escuras, por uma linha rodopiante até escapar do pacote de flocos, do que os mineiros chegarem à superfície. Mas, quando a linha acabou, aquelas não tinham a comunicação social, nem o presidente das formigas à espera, e ainda tiveram de atravessar o “deserto de Atacama” do meu teto e descer pelas paredes até à saída deste mundo inóspito onde os deliciosos flocos de chocolate, de repente e imprevisivelmente, ficaram tão remotamente isolados como o fundo de uma mina de cobre no Chile.

Bem, eu não estava lá para ver…

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

Só de imaginar o seu carreiro de formigas eu me cocei toda, aqui! Em Brasília, as formigas têm um reinado instalado e se espalham cada vez mais.
Acho que depois dessa sua descrição da performance delas dentro da caixa, nunca mais vou comer cereal!
Brincadeiras à parte, que texto bom de ler! A comparação com os mineiros do Atacama... Nunca me viria tal ideia. E mesmo que nas danadinhas o vaivém seja mais por cobiça dos cheiros e pelo instinto da exploração, diferentemente daqueles homens no deserto, creio que a incerteza da caminhada pelo fio (ou escalada?) é a mesma em insetos e homens. Reflexões "inseto-humanísticas".

que bom a leitura deste texto!
e o que me fez recordar o meu pai que salvava da enxurrada da torneira as formigas que lhe apareciam no lavatório do local onde trabalhava: tarefa laboriosa que ele nos descrevia numa verdadeira fábula com moral de não faças aos animais o que não queres que te façam
bem hajas Joaquim pelo naco de prosa!

Bem, Joaquim, em Nova York, o problema são as baratas. Impossível se ver livre delas, parece até filme de terror. Sem mencionar os ratos...

Uma invasão de formigas soa até agradável em comparação.

Obrigado, companheiros!
Nem sei se esta crónica doméstica cabe aqui, só achei que era uma experiência engraçada para partilhar.
Tenho uma grande admiração e ternura pelas formigas do campo; estas caseiras são mais chatinhas.

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