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sexta-feira, 18 de junho de 2010

O que é o Prazer? – 7 Perguntas à «Ética a Nicómaco» de Aristóteles

Joaquim Bispo

1. O que é o prazer e qual a sua origem?

«Pensa-se que o prazer é uma das possibilidades extremas mais profundamente domiciliadas na nossa natureza.» Daí educarmos os jovens a saberem lidar com eles. Prazeres e sofrimentos acompanham a nossa vida, fugindo nós destes e procurando aqueles, a fim de alcançarmos uma vida feliz. Sentir atracção e aversão são disposições de enorme importância para a realização da excelência do carácter.
As opiniões acerca do prazer não são consensuais: uns dizem que é o bem; outros, que é desprezível – seja porque pensam isso, seja porque acham ser a atitude mais pedagógica. Só são realmente úteis os enunciados que reflictam verdadeiramente os fenómenos como se apresentam na realidade. Se o forem, têm credibilidade e levam as pessoas a segui-los e a adoptar um modo de vida justo, caso contrário, serão menosprezados em favor da força possante dos efeitos dos prazeres.
Do bem, pode-se falar do bem absoluto e do bem relativo a alguém. Também há prazeres que, parecendo maus em absoluto, o não são para certa pessoa. E há situações que parecem prazeres sem o ser, como a convalescença.
«A actividade existente nos desejos é a actividade do que em nós ainda resta do nosso estado naturalmente constituído, outrora integral.» Os prazeres resultam do exercício que fazemos do que já somos. São actividades do modo de ser naturalmente constituído. O prazer que sentimos é diferente, quer estejamos num processo de preenchimento do estado natural, quer o tenhamos já preenchido. No último caso o prazer pode ser absoluto.
Pelo facto de os prazeres do corpo serem a forma mais conhecida e familiar, pensa-se que é a única existente. Há prazeres sem sofrimento ou desejo, como a actividade contemplativa. Nenhum prazer dado pela sensatez ou por outra disposição pode constituir um impedimento à contemplação.

2. O que se diz acerca dos prazeres do corpo?

Há prazeres que devem ser preferidos, devido à sua excelência, mas outros – aqueles a respeito dos quais se define o devasso – devem ser evitados.
Mas porque é deprimente o sofrimento devido à falta destes? Se são maus, não seria a sua falta boa? Ou serão maus só se excederem o limite do melhor? O sofrimento não se opõe ao excesso de prazer, mas à falta de todo o grau de prazer necessário.
Porque são preferidos os prazeres do corpo? Expulsam o sofrimento; e os excessivos actuam como um remédio para o sofrimento excessivo.
A nossa natureza não é simples. A cura é a acção da parte que ficou saudável sobre a parte doente. Isso é sentido como agradável e confundido com prazer. Quando existe equilíbrio, parece não haver prazer nem dor.
Há formas de prazer (vis) que resultam de acções de uma natureza vil, e formas de prazer que funcionam como remédio para uma quebra do estado saudável natural. Mas é melhor ser saudável do que tornar-se saudável.
Os prazeres sensuais são tão perseguidos pelo facto de serem tão fortes. Para alguns, não ter prazer nem dor já é doloroso. Chega-se a provocar a falta de um prazer necessário para se poder debelá-la. Se tal não for inócuo, tais atitudes são criticáveis.
O ser vivo está sempre numa situação de constante esforço de equilíbrio. Períodos da vida e pessoas há que sofrem de desequilíbrio crónico. O prazer só consegue expulsar o sofrimento se for suficientemente forte. Esta é a razão responsável pelas formas de vida que os vis e os devassos procuram.
As formas de prazer vergonhosas não são verdadeiramente agradáveis, mas tão só para certos homens em particular, tomados, provavelmente, por uma afecção específica. Não se trata de uma verdadeira escolha, como a que é feita sem condicionalismos. Um prazer com origem vergonhosa não confere um prazer justo, mas um prazer de acordo com a disposição vergonhosa do seu possuidor.

3. Que teses existem acerca de bem e prazer?

Dizem:
– o que se passa com o prazer e o sofrimento acontece no mesmo horizonte da excelência e da perversão do carácter humano. No entanto, prazer e bem não são a mesma coisa;
– os prazeres são perseguidos por crianças e animais e são um impedimento à sensatez – alguns são vergonhosos e repreensíveis, outros nocivos, outros doentios. O temperado foge deles e o sensato não persegue o que é agradável;
– embora algumas formas de prazer sejam boas, o prazer não é o bem, porque o prazer acontece num processo que se dirige para a formação de uma natureza. E o bem é um fim.
Há, portanto, quem discorde que o prazer seja um bem. Sendo perseguido por todos, como se fosse um bem, não parece ter nexo esta tese.
Eudoxo pensava que o prazer era o bem, devido a ser procurado, incondicionalmente, por todos os seres. Sendo o bem para todos, seria o bem supremo.
Platão refuta a tese de que o prazer é o bem supremo. Para ele, uma vida de prazer é melhor se combinada com a sensatez, do que sem ela. Se o prazer isolado não é o melhor, então, não pode ser o bem supremo.

4. O prazer é ou não um bem?

Se o prazer não fosse um bem nem um mal, também o sofrimento não seria bom nem mau e não havia razão para evitar o sofrimento.
O sofrimento é um mal e deve ser evitado, logo o prazer deve ser um certo bem. Nada impede que o supremo bem seja uma certa forma de prazer, só porque alguns prazeres são maus. Se não houvesse formas de prazer boas nem actividades que dessem prazer, aquele que é feliz não teria uma vida agradável. Então, para que precisaria dos prazeres, caso não fossem um bem?
Todos pensam que a vida feliz é uma vida doce e envolvem o prazer na felicidade. O facto de todos os animais e Humanos perseguirem prazeres é um indício de que a felicidade é de alguma maneira o supremo bem. Se houver actividades livres de impedimento para cada disposição, e a felicidade for uma delas, tal actividade será a coisa mais querida. Uma actividade livre de impedimento é o prazer. Portanto, o supremo bem será uma certa forma de prazer.

5. O prazer é um processo de regresso a um estado equilibrado?

A situação do prazer parece assemelhar-se à da saúde. Admite maior e menor equilíbrio. E não parece ser um fenómeno de mudança de estado, como dizem os platónicos, pois a sua intensidade não depende da rapidez ou da lentidão da mudança de estado.
Será um preenchimento do que falta ao estado natural? O preenchimento não é prazer; acontece é que se sente prazer no decurso dele. E nem todos os prazeres são precedidos pela dor da falta: não se sente dor antes do prazer da aprendizagem, nem antes dos prazeres do olfacto, da visão e da audição. Como se podia fazer sentir a falta, e consequente prazer de preenchimento, da falta que não existia?
O prazer parece estar completo em qualquer momento temporal do seu decurso. Por isso não se trata de uma mudança. As mudanças transcorrem no tempo, enquanto que o prazer pode transcender o tempo – ser total num “aqui e agora”.
«A actividade que chega à máxima completude é a que dá um prazer extremo.» Quando a capacidade perceptiva se encontra em boas condições, e é activada pela excelência do objecto que cai no seu campo de percepção específico do objecto, acontece a percepção mais completa nesse campo específico e um prazer extremo. Tal prazer, conduz a actividade a uma maior completude, numa interacção de estimulação.
Porque não acontecem, então, estados de prazer permanente? É que a excitação inicial do pensamento, que intensifica a actividade perceptiva, esmorece com o tempo.

6. Que relação existe entre prazer e completude de actividade?

«A intensidade de uma actividade aumenta com o prazer que lhe é pertinente», «porque cada espécie de prazer tem um laço estreito de afinidade com a actividade a que confere um maior grau de completude» , como dito atrás. «Quem exerce a sua actividade com prazer», atinge nela um maior «grau de discernimento e rigor». Torna-se mais competente nessa tarefa.
A ligação entre uma actividade e o prazer que lhe pertence pode tornar-se tão profunda e indissociável que se pode duvidar se não são uma única coisa. O que, muitas vezes, significa subalternizar outras actividades, próprias ou alheias, igualmente merecedoras de atenção, mas que não induzem o mesmo prazer. Os prazeres associados a essas actividades são vistos como estranhos e funcionam à maneira dos sofrimentos – arruínam a actividade mais aprazível.
Cada homem encara cada prazer de modo diferente e o que pode ser delicioso para um pode ser execrável para outro. Mas o que é unanimemente considerado vergonhoso não poderá ser chamado prazer senão pelo depravado.
Actividades diferentes geram prazeres diferentes. «A percepção visual é superior em nível de pureza à táctil», bem como a acústica e a olfactiva são superiores às do gosto ou do paladar. «Também os prazeres se distinguem de modo semelhante: os do pensamento teórico são superiores em grau de pureza aos prazeres das sensações.»
E qual será o que é, por excelência, pertencente à natureza humana? Deve ser o que se manifesta nas actividades especificamente humanas. E deve proporcionar um alto grau de completude.
Todos os homens desejam alcançar completude nas actividades a que estão mais afeiçoados. Como o prazer leva as actividades a um maior grau de completude, os homens procuram alcançá-lo, com a intenção dessa possibilidade preferencial. Vida e prazer andam, assim, ligados.

7. O que é a felicidade?

A felicidade é uma coisa séria, não é uma espécie de divertimento, pois seria absurdo a vida ter como meta a brincadeira. Também o descanso (parecido com a brincadeira) não é o fim último – existe em função da actividade.
A felicidade basta-se a si própria, é um fim e não um meio. Tudo pode ser um meio para outro fim, excepto a felicidade que é o fim último.
A felicidade consiste nas actividades que se produzem de acordo com a excelência. Sendo a felicidade o fim mais excelente, terá que ser de acordo com a mais poderosa das excelências.
O poder de compreensão – aquilo que por natureza parece «comandar-nos, ou dar-nos uma compreensão intrínseca do que é belo e divino» – será a actividade que estará de acordo com a excelência que lhe pertence. «Tal será a felicidade na sua completude máxima. Uma tal actividade é, como dissemos, contemplativa.»
«Nós pensamos também que a felicidade tem de estar misturada com o prazer, porque a mais agradável de todas as actividades que se produzem de acordo com a excelência» é a que é considerada de acordo com a sabedoria. «Parece, então, pois que a filosofia [o filosofar] possui a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há» .

Conclusão

Os prazeres são elementos profundamente arreigados na nossa natureza. Acompanham a nossa vida tornando-a mais agradável, ou fazendo-nos sofrer com a sua falta. A maneira como lidamos com eles determina se nos tornamos pessoas amargas ou de bem com a vida, se a desfrutamos saudavelmente ou se vivemos reféns da procura de prazeres. «É o modo como lhes reagirmos e não a intensidade com que eles se fazem sentir o que determina a relação que estabelecemos com eles.»
Anunciam-se pelos desejos, que são promessas de exultação futura. «O desejo de prazer arremessa-nos para um futuro que ainda não se constituiu, mas que está eivado de promessa.»
Nos prazeres do corpo há que ser comedido e usar só a porção necessária, pois «não é a qualidade do desejo que traz consigo a perturbação da vida, mas a quantidade.»
Ser comedido não é fácil, porque os desejos são veementes e os sofrimentos daí decorrentes podem ser dolorosos. Muitos homens cedem aos seus apelos de uma maneira desregrada, seja o devasso que nem sequer se tenta conter, seja o frouxo que tenciona conter-se mas abdica sem luta. O homem sensato e lúcido arma-se de decisões sustentadas em argumentos fundamentados e, quando os apelos de prazeres excessivos o acometem, resiste apoiado nessa decisão amadurecida. Ademais, antecipa as situações de desejo e enfrenta-as com a segurança que a análise prévia lhe forneceu. Um homem assim possui autodomínio.
Os prazeres do corpo são os mais óbvios mas muitos outros há, os quais podem ser tanto ou mais gratificantes. Toda a actividade exercida com gosto faz o seu praticante atingir níveis de completude que, por sua vez, lhe transmitem um prazer suplementar. Aquela que atingir um grau de excelência fornece o prazer mais excelente, o supremo bem, a felicidade.
Para Aristóteles as actividades do pensamento teórico fornecem prazeres com maior grau de pureza do que as sensações. O exercício de compreensão do mundo – o filosofar – será a actividade que estará de acordo com a mais poderosa das excelências. Possui, portanto, a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há.

Bibliografia:
ARISTÓTELES, António de Castro Caeiro (tradução do grego), «Ética a Nicómaco», Lisboa, Quetzal Editores, 2009.
CAEIRO, António, «A Areté como Possibilidade Extrema do Humano», Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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