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quarta-feira, 5 de maio de 2010

O Ar do Tempo


Joaquim Bispo



“Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível?”


Arrastando a brevidade da nossa existência na lama do nosso pequeno mundo, esfrangalhamo-nos de impotência, de cada vez que a tragédia nos atinge. Como seria perfeito podermos voltar atrás e alterar o que correu mal, aquela nossa palavra desbocada que teve consequências funestas, aquela decisão que comprometeu a nossa vida, o episódio que desencadeou uma guerra. Infelizmente, o tempo parece caminhar numa só direcção. Todas as tentativas de viajar nele, se é que existiram, falharam. A nossa única consolação é a ficção. Aí, temos exercido a liberdade de viajar no tempo, nos dois sentidos conhecidos, à velocidade que o autor decidiu. E, no entanto, existem modalidades indirectas de viajar nele, ainda pouco exploradas:
Alguns filósofos admitem que, devido à extensão infinita do nosso universo, toda a nossa História está, também, a decorrer num número inimaginável de outros mundos, não só a versão que aqui testemunhamos, como todas as infinitas variedades que resultam de outras tantas pequenas variações de rumo. Assim sendo, a nossa mesma História pode ser encontrada numa das inúmeras fases já passadas ou futuras, como em cada versão do que podia ter sido.

Um dos episódios singulares de consequências, aparentemente, mais devastadoras da nossa História recente, tal como decorreu aqui, é o do atentado bem sucedido contra o herdeiro do Império austro-húngaro, o arquiduque Francisco Fernando, em 1914, na cidade de Sarajevo, às mãos de um estudante de vinte anos, integrante de um grupo nacionalista de inspiração sérvia. Quase todos os historiadores estão de acordo que esse episódio desencadeou a Primeira Guerra Mundial, que levou à Segunda, que levou à Guerra-fria, que levou à hiper-potência única e a outros males correlatos. Candidamente, podemos pensar que, se pudéssemos evitar esse atentado, o rumo do mundo seria muito diferente; não teríamos passado por aquelas guerras terríveis, e hoje teríamos paz. A ideia é aliciante. Desgraçadamente, falta aquele pormenor: conseguir viajar no tempo. Nada que nos preocupe, agora que sabemos detectar aqueles mundos onde o rumo da História está no ponto e na variante que nos interessa, e sabemos viajar no espaço, instantaneamente.

Ao abrigo de um programa secreto, foi, há dois anos, enviado um explorador a um planeta dum aglomerado globular a 160 milhões de anos-luz de distância, onde se detectou que o atentado de Sarajevo não resultou. Pretendia-se perceber qual foi o pormenor que alterou o rumo da História e por quê, a fim de tentar evitar casos semelhantes, no futuro. Como esse explorador faz o favor de ser meu amigo, um dia contou-me o seguinte:

«A minha missão era apenas seguir o estudante radical Gavrilo Princip e, como sombra, observar o que fazia, já que na Terra tinha sido ele a abater o arquiduque e a mulher. Nos dias anteriores ao atentado, reuniu-se várias vezes com os seus correligionários da “Mão Negra”, combinando posições ao longo do trajecto do alvo pelas ruas de Sarajevo e as armas que cada um iria utilizar. O grupo parecia animado por um ódio violento contra a recente anexação austro-húngara da sua Bósnia-Herzegovina, e falava frequentemente da congregação futura de todos os povos eslavos, desde os sérvios aos eslovacos, sob uma bandeira comum – o chamado pan-eslavismo. Até aqui, tudo como na Terra. O que me surpreendeu foi a realização de uma exposição de artistas futuristas na cidade, a ser visitada pelo arquiduque. O grupo infiltrara lá um elemento, como segurança, o qual deveria detonar uma bomba escondida na escultura mais representativa, quando Francisco Fernando estivesse a admirá-la.

Na antevéspera, Gavrilo, com outro elemento, foi visitar a exposição. A ideia era distrair alguém presente, enquanto a bomba era instalada. Por coincidência, estava presente um dos artistas – o depois famoso Umberto Boccioni. Gavrilo e o companheiro mostraram-se interessados nas obras expostas, e o artista gostou do seu ar radical e da sua postura revolucionária. Para ilustrar a atmosfera que se vivia na Europa, mesmo dentro dos movimentos artísticos, relato alguns dos diálogos mantidos pelo pequeno grupo:
– Gosto destes teus “Estados de alma” e do “Tumulto na galeria” – começou Jovanovic, afastando o artista da zona das esculturas. – São violentos.
– Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima – teorizava Boccioni. – Já não há beleza senão na luta.
Rapidamente, a conversa derivou para temas de patriotismo, anarquia e insurreição, afinal, caros a ambos os grupos: artistas futuristas e radicais do «Mão Negra».
– Também penso isso – acompanhava Gavrilo. – O mundo está submetido a impérios que oprimem os povos.
– Nós, os futuristas, cantaremos as grandes multidões agitadas pela sublevação – enlevava-se Boccioni.
– Só a Sérvia nos pode salvar da pata do império – declarava Jovanovic. – Com os nossos irmãos de outras regiões eslavas, formaremos uma grande nação que renovará o decadente ocidente, conforme bem disse o grande Bakunine.
– A guerra é a única higiene do mundo – prosseguia Boccioni, alimentado pelo radicalismo dos visitantes, e citando o manifesto futurista de 1909. – O patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas são belas ideias pelas quais vale a pena morrer.»

Nessa altura – confessou o meu amigo – eu já duvidava que, com tal incitamento, Gavrilo deixasse de executar o gesto assassino pelo qual ficou conhecido na Terra.

«– Que pensas do arquiduque que depois de amanhã visitará a tua exposição? – perguntou ele ao artista.
– Acho-o capaz de iniciar uma bela guerra, aquela que a Europa precisa para varrer todo este bolor acumulado – respondeu o pintor escultor. – Sabes o que ouvi dizer? Que, ao longo da vida, já matou cinco mil veados em jornadas de caça, o feroz. Gosto desse laivo futurista dele, mas não quero conhecê-lo. Quando cá vier, não tenciono estar aqui.

Pouco depois, despediram-se. Pareceu-me que o grupo não gostou destas últimas declarações de Boccioni. Além disso, a bomba já fora instalada na formidável escultura que agora está em S. Paulo – “Formas Únicas de Continuidade no Espaço” – a mais emblemática da exposição, e que está representada nas moedas de vinte cêntimos de Itália.

No dia da visita do arquiduque, 28 de Junho, a comitiva deslocava-se em sete carros. O arquiduque e a esposa iam no terceiro. O primeiro membro do grupo, Mehmedbasic, não disparou por não ter bom ângulo. O segundo lançou uma bomba que falhou o alvo, mas feriu várias pessoas do carro seguinte. Tomou rapidamente uma pílula de cianeto e lançou-se ao rio que atravessa Sarajevo, mas a pílula não fez efeito; foi retirado do rio e quase linchado. A polícia levou-o. Como cá.
Eu não estava a ver o que é que iria ser diferente. Os restantes membros, incluindo o que eu vigiava, fugiram. Como na Terra, o arquiduque irritou-se fortemente pela recepção tão hostil e mais tarde foi visitar os feridos ao hospital. Como sabes, foi nesse percurso que, inesperadamente, o seu carro surgiu na rua onde Gavrilo Princip deambulava furtivamente e este aproveitou para disparar. Um acaso infeliz, que lançou a Terra numa espiral de guerras. Ali, Gavrilo procedeu de forma diferente. Postou-se perto da sala de exposições, esperando, talvez, que o arquiduque mantivesse a visita programada. Não manteve. Acabou por voltar para Viena sem um arranhão.

Fiquei feliz pelo resultado, sem contudo ter uma opinião clara sobre a causa da variação. Para uma melhor percepção da diferença resultante, fiquei lá mais um mês. Por essa altura, como na Terra, o imperador Francisco José acusou a Sérvia de fomentar a sublevação em algumas regiões ocupadas pelo Império, fazendo várias exigências de controlo. Como aqui, a Sérvia aceitou a maioria delas, excepto as inspecções dentro do seu território, por considerá-las uma violação da sua soberania. Então, o império austro-húngaro atacou a Sérvia, a Rússia foi defendê-la, a Alemanha juntou-se ao império, e, como aqui, o resto que tu sabes.

Compreendi que o atentado na Terra foi bem sucedido devido apenas a uma circunstância meramente casual, e não foi tão decisivo assim. A atmosfera de confrontação que se vivia no continente, que até os movimentos artísticos reflectiam, era determinada por uma atitude belicosa das potências envolvidas, cuja arrogância as incapacitava de dialogar com as minorias subjugadas. Aprendi que foram e são essas potências as grandes responsáveis pelas guerras. Qualquer pretexto lhes serve para prosseguir políticas de domínio global.
Para o ano, tenho a incumbência de averiguar que pretextos foram usados para começar a guerra contra o Iraque, em três pontos diferentes do Universo.»

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


2 comentários:

Em qualquer ponto que se observar os fatos passados eles terão contornos feitos pelos que venceram no curso da história, de forma que a versão final é a que prevalece. Trocando em muídos, a história é a versão dos vencedores. E seu conto é espetacular. Abraços. Paz e bem.

Obrigado, Cacá!
«Espetacular» é dos adjectivos mais lisonjeiros que já se fizeram a contos meus...

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