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segunda-feira, 5 de abril de 2010

Uma história mal contada


Joaquim Bispo


Pedro desceu as escadas sem olhar para trás. Não queria saber se Amélia chorava, se o espreitava pela janela. Este amor chegara ao “final” e não valia a pena pensar mais nisso.


*


– Não foi nada disso! – Joana parecia visivelmente ofendida.
– Então, se não te enrolaste com ele, porque é que ele estava em tua casa às duas da manhã?
– Já te expliquei que o táxi onde eu ia teve um acidente em que fiquei magoada e esfarrapada e ele ofereceu-se para me trazer a casa.
– E trouxeste-o tu para casa. – Pedro afivelava um sorriso sarcástico.
– Ele também estava estoirado com a ida ao hospital e tudo isso. – insistia Joana. – Quis ser simpática.
– Para ser simpática não é preciso metê-lo na cama. – Pedro escolhia as palavras que pudessem ferir mais.
– Para! – berrou Joana. – Estúpido! Desaparece. Como é que podes dizer isso de mim?
– Estou farto desta merda toda! Para mim, chega. Tchau! – Pedro encaminhou-se para a porta. – Fica bem. Volta lá para o teu amiguinho…
– Estúpido! Estúpido, estúpido! Não te quero ver mais.
Pedro bateu com a porta, enquanto Joana se afundava no sofá, num “clímax” de derrota.


*


Pedro entrou e não se aproximou de Joana. Postou-se em frente dela de braços cruzados e disse, glacial:
– Quero essa história muito bem contada, tintim por tintim.
– Mas que história? – Joana parecia surpreendida.
– Queres-me dizer que já te esqueceste do tipo que meteste cá em casa?
– Como te expliquei ao telefone, tive um acidente e ele ajudou-me.
– Pelos vistos, gostaste da ajuda! – Pedro arrastava as palavras.
– Sim, foi simpático ajudar-me no estado em que eu estava. – Joana fazia-se desentendida. Não queria um “desenvolvimento” do ciúme dele. Mas Pedro não desarmava:
– Estavas aflitinha, era?


*


Desde as dez da noite que Pedro tentava contactar Joana e ela não atendia. Vinha do Norte onde tinha feito a “apresentação” semanal da empresa, e queria vê-la ainda nessa noite. O telefone tocava mas ninguém atendia. Só às duas da manhã ela atendeu de casa e Pedro percebeu uma voz masculina lá atrás. Ficou possesso.
Quando chegou a Lisboa, dirigiu-se directamente a casa de Joana. Subiu as escadas duas a duas.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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