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segunda-feira, 8 de março de 2010

Saudade

Acordou em uma cama de hospital, sem entender direito ainda o que havia acontecido. Só se lembrava da derrapagem, da chuva, da dor quando fora jogada para fora do carro, quebrando as costelas, e mais nada. Onde estavam os outros? Ela estava a sós naquele quarto. Desespero, solidão...
Estava muito longe de casa, era uma viagem de férias, estavam a caminho de uma praia distante, um acampamento, gostavam tanto disso, principalmente Carlinhos, que levava tudo na brincadeira. Seu filho, um menino lindo de dez anos que amava a natureza e aventuras.
E Paulo? Sempre fora um bom motorista e a velocidade nem estava tão alta, mas a estrada mal cuidada e a chuva forte e inesperada não lhe haviam dado chance de escapar da derrapagem.
Olhou para si mesma, as costelas enfaixadas, por causa da fratura, com certeza. Ainda sentia dores, mas parecia que estava tudo no lugar. Apertou a campainha ao lado da cama, precisava urgentemente de informações, alguém que lhe dissesse onde estavam seu marido e seu filho. Depois de alguns minutos transformados em horas pela ansiedade e pela incerteza, uma enfermeira entrou, finalmente.
"Por favor, onde estão meu marido e meu filho?"
"Calma, senhora, preciso do nome e do telefone de alguém que possa vir buscá-la."
"Depois... Porque não me diz logo? Estão em estado grave?"
"Infelizmente, só vai poder saber depois que chegar o médico que a atendeu."
Quando o médico, um ortopedista, chegou, não veio só, estavam com ele uma assistente social e um psiquiatra. A notícia era mais séria do que ela pensava. Em primeiro lugar lhe deram um tranquilizante forte, depois, foram lhe contando todos os detalhes.
O carro tinha capotado, rolado pelo barranco, ficado completamente destruído, Paulo e Carlinhos presos nas ferragens, ela só escapara por ter sido jogada para fora. Estar dopada salvou-a de novo, o choque não a matou ali mesmo, naquele momento, ao saber da notícia.
Teria que voltar à sua casa, rever tudo, não poderia abandonar tudo o que seu marido e ela haviam construído juntos, desde namorados. Agora, não estava mais inteira, haviam-lhe arrancado, de repente, as partes mais importantes de sua vida. Como na canção de Chico Buarque:
Oh pedaço de mim
Oh metade arrancada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar...
Ela e Paulo sempre tinham sido como duas metades, é muito difícil encontrar alguém como ele, alguém com quem se encontra paz, só de olhar, olho no olho, coração pra coração. E Carlinhos, também seu filho tinha ido embora. Uma mãe não foi feita para perder um filho. O contrário sempre acontece, é a lei natural, os mais velhos vão primeiro. Enterrar um filho é enterrar um pedaço da gente, que foi tirada de dentro da gente, cresceu ali, nove meses, e depois ainda continua ligada a nós... Outro trecho da mesma canção:
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu...
Eles foram embora e ela ficou... Não poderia segui-los agora, tinha muito ainda que viver, pessoas que poderiam precisar dela. Precisaria retrabalhar esse luto, transformá-lo em algo que lhe permitisse viver. Lembrou-se de uma frase que lera um dia:
"Saudade é o amor que fica." Ela ficara, o imenso amor pelos dois ficara, junto com a saudade.

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2 comentários:

Belo texto, Fátima.

citações bem escolhidas (sou fã das letras do Chico também).

Abraços

Entrar no clima de saudades é penoso, e esta letra é perfeita. O texto está ótimo. Parabéns!

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