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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

As devotas

José Guilherme Vereza

O VP de Operações, Dr. Webs, tem um cacoete.
É um cacoete horroroso, que joga os olhos para o interior do globo ocular,
como se quisesse olhar para si mesmo. Mas como não consegue enxergar nada lá dentro,
volta as pupilas para fora com um olhar arregaladamente assustado
e pedinte de desculpas por proporcionar aos próximos espetáculo tão bizarro.
A secretária do Dr. Webs tem orgulho do cacoete do chefe.
Compete com uma outra, igualmente secretária, igualmente orgulhosa do cacoete do seu chefe,
Dr. Beens, VP Adminstrativo, que por sua vez, não fica nada a dever, em termos de cacoetes,
aos malabarismos faciais do Dr. Webs.
Na verdade, Dr. Beens leva uma ligeira vantagem.
Por ter a língua imensa, toda vez que abre a boca para dizer alguma coisa,
pontua vírgulas com um leve toque da língua no nariz. Um fenômeno. Quando a frase é mais longa
e merece pontos propriamente ditos, a língua permanece mais tempo na ponta do nariz,
entre o final da frase e o início da outra.
A secretária do Dr. Beens diz à secretária do Dr. Webs que língua no nariz
demonstra mais personalidade que olhares interiores,
opinião veementemente rebatida pela secretária do Dr. Webs,
que afirma que olhares interiores são sutis, introspectivos,
denotam sensualidade e causam frisson.
As discussões entre as duas sempre terminam em baixaria,
mas nunca chegam aos agudos da histeria, quando resolve entrar no bate-boca a secretária do Dr. Gilf,
VP de Finanças. Dr. Gilf mexe com as orelhas.
Sua secretária orgulha-se desse discreto hábito, mas perde a cabeça
quando as outras secretárias confirmam já terem visto Dr. Gilf complementar o movimento das orelhas
com uma levantada de perna esquerda, tipo cachorro.
Caretas também são freqüentes, juram as outras secretárias,
alimentando as labaredas raivosas da fiel escudeira do Dr. Gilf,
que não admite que se fale assim de um homem tão charmoso, bem-educado e equilibrado.
Mal sabem elas que está para ser contratado pela empresa o jovem Dr. Bardes,
para assumir a recém implantada Vice-Presidência de Inovação e Relações Institucionais.
Dr. Bardes não tem um cacoete marcante.
Tem vários.
Conta-se que certa vez quando remexia revistas importadas na livraria de um aeroporto,
foi acometido por um descontrole muscular no braço direito,
o que o fez enfiar a mão no queixo de uma velhinha, que estava ao seu lado, coitadinha,
saboreando a orelha de um daqueles romances baratos e lacrimejosos.
A velhinha foi a nocaute e depois de pagar fiança,
Dr. Bardes tomou consciência do perigo que morava no seu inconsciente.
Quanto mais pensava no incidente, mais descontrolava o braço
e mais morria de medo de ter outra velhinha o seu lado.
Por medida de precaução, passou a andar com a mão no bolso.
De fato, nunca mais enfiou a mão no queixo de nenhuma velhinha,
mas não dominou por completo a sua fúria. Preso ao bolso, o ímpeto muscular do braço
descarregava nas mãos sua total insubordinação. Por mais que lutasse contra eles,
seus desobedientes dedos viviam a lhe arrancar pelos.
O impacto da violência depilatória era contido por um movimento pélvico e sensual:
um arrebitamento semicircular dos glúteos – como fazem “as cachorras” –
seguido por uma brusca aceleração da lombar no sentido contrário,
ou seja, para frente, viril e obsceno, como se copulasse o vento.
Foi assim que as três secretárias assistiram, numa segunda-feira chata e remelenta,
a chegada de um jovem bem vestido, sempre com a mão direita no bolso,
que de oito em oito segundos, chacoalhava a pélvis à la Elvis Presley,
num ritmo contínuo pra frente e pra trás, como seu ouvisse imaginárias batidas da dança do créu.
E já chegou subvertendo a cultura cristalizada da empresa.
As três secretárias ficaram perdidamente apaixonadas.
Imaginavam como o revolucionário executivo seria na cama,
com movimentos tão próprios e surpreendentes.
E movidas por uma novo amor ardente, sobrepondo-se à lucidez, à razão e ao decoro profissional,
passaram a disputar a tapa a vaga de secretária do Dr. Bardes.
Dr. Webs, Dr. Beens e Dr. Gilf, sem a devoção passional de suas secretárias,
começaram a ter sérios problemas funcionais.
Em duas semanas estavam demitidos.

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José Guilherme Vereza
Carioca, botafoguense, pai de 4 filhos. Redator, publicitário, professor, roteirista, escritor, diretor de criação. Mais de mil comercias para TV e cinema. Uma peça de teatro: “Uma carta de adeus”. Um conto premiado: “Relações Postais”. Um livro publicado “30 segundos – Contos Expressos”. Mais de 3 anos na Samizdat. Sempre à espreita da vida, consigo modesta e pretensiosamente transformar em ficção tudo que vejo. Ou acho que vejo. Ou que gostaria de ver. Ou que imagino que vejo. Ou que nem vejo. Passou pelos meus radares, conto, distorço, maldigo, faço e aconteço. Palavras são para isso. Para se fingir viver de tudo e de verdade.
todo dia 20