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segunda-feira, 5 de julho de 2010

SAMIZDAT 30

SAMIZDAT 30



Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

O Fim da SAMIZDAT, Henry Alfred Bugalho

CONTOS
Como o melro no seu dragoeiro, Joaquim Bispo
La Chason Dernière, Ju Blasina
O sinal, Henry Alfred Bugalho
Na corda bamba, Henry Alfred Bugalho
Noite de festa, Cirilo S. Lemos
Bom dia, Carlinhos, José Guilherme Vereza
Vertigens de um recomeço, Léo Borges

ARTIGO
O que é o prazer?, Joaquim Bispo
A inspiração, Joaquim Bispo

CRÔNICA
Sex Toys, Ju Blasina

POESIA
Ciclo, Fatima Romani
fim?, Marcia Szajnbok
Testamento, Caio Rudá de Oliveira
Orvalhinho, Wellington Souza
Da mulher, Wellington Souza
dois poemas desvairados, Maria de Fátima Santos
Etapas, Maristela Deves


SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT

SAMIZDAT 30 (leitura online)





quinta-feira, 24 de junho de 2010

Etapas

Cada fim
é um recomeço
um novo início
(um pouco do avesso).

Desafios vão,
desafios vêm
o sonho, no entanto,
se mantém.

Samizdat termina,
deixa saudade
Uma literatura
de verdade.

Samiztadeiros, nos encontraremos, com certeza, em outros projetos!





segunda-feira, 21 de junho de 2010

fim?

por Marcia Szajnbok


do silêncio de donde veio
jamais retornará
o pó das palavras
não se assopra
não se limpa
espalha tanto
deixa marcas
deixa rimas
deixa sonhos divididos
emoções compartilhadas
forja rastros
faz amigos...

um ponto que, de final, faz-se vírgula
pois a linha da escrita
é como o tempo
infinita


obrigada, amigos, por toda a partilha que tivemos aqui!





domingo, 20 de junho de 2010

Vertigens de um recomeço

Léo Borges


Dizem que se o sol morresse agora ainda viveríamos em sua presença por mais alguns instantes, suficientes para que nosso padecer se iniciasse sob luz. Nágila não era mais meu sol, talvez nunca houvesse sido como queriam me fazer acreditar, mas a solidão, sim, essa era minha, tal qual um sol escuro e morto, com débeis raios de lembranças, saudades que demoram a sumir.


Alguns diziam que minha ingenuidade me impedia de entender a palavra ‘traição’. Mas porque eu deveria entendê-la? Eu vivia bem sem ela. Eu só não vivia bem sem Nágila. Não me adiantavam as inócuas teses dos poetas, psicanalistas, amigos, doutores, mestres em dores da alma, angústias, vertigens, assuntos que só o verdadeiro coração dilacerado domina.


Ipês tristes me escoltavam por aquele caminho de terra vermelho-sangue até a Cachoeira das Vertigens, local de nome sugestivo, pertinente aos espíritos aflitos. O canto dos pássaros soava cinza com seus réquiens indiferentes à infelicidade humana. Recomeçar. As cigarras e seus silvos tão fortes quanto breves explicavam o verbo usado por Nágila. “Quero conhecer outros mundos”. “Ela está te trocando por um sujeito da cidade”. “Vou fazer um curso”. “Só ficou contigo enquanto isso era útil”. “Será bom passear pela praia”. “Ela tem um caso por lá”. “Meu coração é seu”. “Nunca mais vai voltar”. “É só um recomeço”. “É o fim”. Vozes aleatórias – explicativas ou acusatórias – se entranhavam em minha mente, zunindo como açoites, castigos que eu recebia sem saber o motivo. Esqueciam que eu não acreditava em indícios, em palavras racionais, que sempre aceitei melhor a inocência das emoções. Mas os argumentos, frágeis como alegria resignada, continuavam brotando de todas as partes, em sua ânsia por vitórias sem sentido, sem uma razão que curasse minha ferida. Se meus amigos enxergavam o mal, eu os compreendia, queriam meu bem. Se Nágila mentia, eu estava ali para ouvir, tolerar, mesmo que todos esses truques só servissem para eliminar o obstáculo final para o seu reinício: eu. Fui excluído de sua vida para que suas ambições urbanas aflorassem, crescessem da forma como ela queria, sem cheiro de mato, sem céu de estrelas, sem água da pedra, sem meu sorriso por vê-la. Muito provavelmente amar incondicionalmente fosse isso mesmo: permitir ao invés de questionar, libertar antes de exigir, recomeçar para não entristecer.


O barulho da cachoeira já refrescava meus pensamentos. Perto de um dos cantos do lago observei minha imagem na superfície trêmula e vi um homem compreensivo com sua angústia. Dei um sorriso, coisa que não fazia há algum tempo. Com as mãos banhei meu rosto e procurei admirar a grandiosa queda d’água. Impressionante como ela estava mais densa, mais próxima de um cenário natural e não de um sonho. A Cachoeira das Vertigens possuía a peculiaridade de ser sempre interpretada pelo capricho crítico de seu admirador. Era o colírio de turistas, mas transformava-se em espaço lúgubre para os mal intencionados. Casais apaixonados a tinham como um paraíso terrestre, enquanto que para solitários era o ombro companheiro. Não raro, homens eufóricos subiam até o cume da rocha principal para declamar o amor por suas mulheres, atitude esta potencialmente valorizada pelo perigo daquela área.


Imerso em meus devaneios eu acreditava ter como únicas companheiras as trêmulas folhas das palmeiras e a brisa serena que circulava por entre a mata . Foi quando notei na parte direita de uma das pedras um vulto feminino. Agucei o olhar e percebi que era Nínive, uma moça que, assim como eu, também morava e trabalhava na região. Nunca a reparara bem porque até então meus olhos só se serviam de Nágila, mas sabia que ela era noiva de um fazendeiro. Procurei decifrar o que ela fazia sozinha ali, já que, até para experientes guias, aquela parte da cachoeira era muito traiçoeira. Acenei com as mãos. Ela viu, mas não respondeu. Seu rosto denunciava uma chaga na alma, uma tristeza semelhante a que eu despejara no lago minutos atrás. Um pânico atroz dominou minhas ações quando vislumbrei em seu semblante uma intenção de autodestruição.


Corri por entre a mata lateral, escalando aos pulos e tropeços robustas pedras escorregadias, alheias ao desespero da situação. Gritei para que ficasse parada até minha chegada, ouvindo como resposta apenas o eco de minhas próprias súplicas. Ao chegar perto de onde estava pude me certificar do risco real que sua vida corria. Nínive estava descalça na parte onde a incidência de lodo era maior, sem nenhum apoio para as mãos. Sua expressão carregada de mágoa evidenciava claro desejo de morte. A primeira coisa que fiz foi pedir para que ela não se mexesse. Chorando, ela disse em baixa voz para que eu não me intrometesse em sua vontade. Coloquei-me o mais perto possível de onde estava, num ângulo inferior, amparado pelo galho de uma árvore, com o braço estendido. A água fria fluía forte por entre seus pés.


– Nínive, olha, não conheço sua vida nem sei o que te trouxe até aqui, mas se você fizer isso a vitória será dos seus problemas.


Sua cabeça não levantou e seus olhos permaneceram namorando o precipício.


– Eu não quero vitória, Julian. Eu só queria que respeitassem meus sentimentos. Mas não adianta... quem é você para entender alguém abandonado pelo amor?


– Talvez alguém que também tenha sido.


A moça ergueu a cabeça e finalmente nossos olhares se sintonizaram. Uma fina chuva começou a cair sobre a Cachoeira da Vertigem. O risco de queda aumentava a cada segundo. Nínive comentou sobre o motivo da decisão derradeira.


– Meu noivo me largou para ficar com minha irmã. Tiveram um relacionamento durante meses sem que eu soubesse.


– A mulher que eu amava foi embora para a cidade. Disse que tinha várias ambições, mas eu não estava incluído em nenhuma delas. Meus amigos contam que ela me trocou por outro.


– O apoio de meus amigos não serviu para juntar meus pedaços. Victor e Ariadne foram embora e me deixaram aqui, morta – falou, como se ali só houvesse um corpo oco, sem sangue e sem espírito.


– Oportunidades aparecem a cada momento para que possamos viver o que ainda não vivemos – disse, mantendo o braço esticado.


Nínive relutava em receber a ajuda. As gotas da chuva se confundiam com as lágrimas em seu rosto. Um de seus pés derrapou.


– Segure minha mão. Vamos conversar um pouco. Só estou pedindo um minuto! Nem é tanto tempo assim...


Finalmente Nínive cedeu e segurou meu braço. No momento em que sua perna buscava apoio na parte seca, escorregou. Segurei-a com força enquanto ouvia seus gritos cortando o ar. Com alguma dificuldade, abracei sua cintura e a puxei com firmeza para, então, cairmos entre as árvores. Olhei com muito afeto para seu rosto afogado em medo e desilusão. Seus cabelos molhados deixavam expostos apenas parte de sua face de traços angulosos, o suficiente para perceber o quanto era bela.


– Por que as pessoas fazem isso com quem as ama? – indagou Nínive querendo uma resposta impossível.


– Não acredito que seja por ódio. Pode ser egoísmo, mas quem não é egoísta? Eu queria Nágila, ela queria ouras coisas. Talvez um dia ela também queira algo que não possa ter. Acho sinceramente que na vida podemos ter tudo o que almejamos, só que existem coisas que não deveríamos almejar.


– Não! As pessoas não se preocupam com o sentimento de quem as ama de verdade. Mas e daí, né? O que vale é seguir seu caminho, independente do sofrimento que se vai causar em quem se doou por um relacionamento, em quem foi seu amante. ‘Seja feliz’, esse é o lema. Engraçado como eu queria que todos fossem felizes: meu noivo, minha irmã, meus amigos. Mas e a minha felicidade? Sei lá onde ela está. Deveria estar ali embaixo agora, junto das pedras, mas nem isso você deixou.


O pranto de Nínive era tão sincero quanto minha vontade em estancá-lo. Involuntariamente a moça apoiou sua cabeça em meu ombro, soluçando. Afaguei sua cabeça com carinho verdadeiro, procurando aliviar sua dor. Suas mãos juntas escondiam a face de uma vergonha que não era dela.


– Sabe, Nínive, eu amava tanto minha namorada que agora fico feliz em saber que ela foi embora.


– Como assim?


– Se ela está realizada com outra pessoa na cidade, por que eu deveria ficar triste? Penso que amar de verdade é querer ver o outro sempre feliz, estando ou não do nosso lado.


Os olhos de Nínive fixaram-se nos meus. O sentimento de fim que havia neles evaporava, cedendo espaço a interesses vívidos. Seu equilíbrio voltava ao normal fazendo com que percebesse a insanidade de seu ato no alto das Vertigens.


– Nem sei o que fazer para poder me desculpar pelo que fiz você passar – disse ela olhando o ferimento em minha perna ocasionado por uma pedra.


– Se você sorrir já vai bastar.


Um tímido sorriso emergiu sincero em seu rosto, convidando sua beleza a sair do anonimato. Seus olhos castanhos brilhavam como se dentro orbitassem pérolas. Pude sentir sua respiração quente muito próxima de mim. Como ímãs, nossos rostos foram se aproximando até que nossos lábios se encontraram. Um sabor fresco, de vida intensa, aportou em minha boca. Havia tempo que não sentia o gosto de uma mulher, sendo que nos últimos anos o único que provara havia sido o de Nágila. Aos poucos, sob o agora vivo ruído da queda das águas, tudo foi se tornando mais gostoso e ardente. Impressionava como a vida poderia nos surpreender com situações tão antagônicas, destino que, de uma angústia profunda, se transformava em vibração positiva, desejo pujante, de impensável plenitude.


Uma conexão de sabor indescritível conquistou nossas almas. Viajando visceralmente por minha amante, saboreava cada espasmo sentido, cada limite conquistado, cada gemido ouvido. Ao tempo em que nos fundíamos, a chuva triste abandonava a Cachoeira das Vertigens, dando lugar a um sol discreto, cujos raios luminosos faziam brilhar ainda mais o colo de minha ninfa. Nágila, Victor, a chuva e as lágrimas já eram passado, lembranças remotas, tão esquecíveis quanto dores infantis. Real era Nínive, seu corpo, sua boca e nosso prazer. Eu percebia que o tempo agora era um aliado e que nada mais importava além da oportunidade que nos foi dada: um recomeço – vertiginoso como se apresentava, mas integral também por isso. Entrega e renascimento traduzidos em fluídos e emoções que brotavam por entre ecos vindos das pedras, reencontrando emissores envoltos em orgasmos possíveis, libertos das profundezas do ser.


A reflexão serena que se seguiu nos manteve calados – até porque tudo já havia sido dito. E a refrescante orquestra das águas naquela cachoeira trouxe sensações impregnadas de vida, vertigens que, agora eu entendia, tinham força para sobrepujar cicatrizes através de um simples recomeço.





sábado, 19 de junho de 2010

A Inspiração

Joaquim Bispo

A inspiração é uma fulguração intelectual produtora de estruturas representativas novas. Às vezes chamada intuição, criatividade, imaginação, era, nos tempos de Sócrates, tida como tendo origem em entidades sobrenaturais: musas. A entidade sobrenatural “sopraria” ao autor as ideias e as formas que ele procurava.
Este tema interessou e preocupou os artistas de todos os tempos, mantendo-se contemporâneas as questões da origem e do funcionamento da inspiração. É muito diferente, nas suas implicações, aceitar que ela resulta de uma intervenção externa ao artista – o que o desresponsabiliza e o menoriza – ou que ela resulta de uma elaboração subtil dos níveis mais elevados do intelecto.
As teses modernas apontam para esta última origem. Ao modo de conhecimento próprio da percepção, junta-se o modo da intuição, como «um sair-de-si e um captar, uma busca de conteúdos significativos.» «Ambas, intuição e percepção, são modos de conhecimento, vias de buscar certas ordenações e certos significados». Os dados do conhecimento são conformados e ordenados previamente para poderem constituir imagens referenciais e normativas. As novas estruturas resultam da reelaboração dos materiais de tudo o que o homem sabe e imagina – conhecimentos, conjecturas, propostas, dúvidas – materiais continuamente avaliados e comparados com imagens referenciais. Operações de relacionamento, diferenciação, nivelamento ajudam a fazer escolhas, construir alternativas e formular conclusões, sempre visando algum tipo de ordem. «A fantasia do bom artista ou pensador produz continuamente coisas boas, medíocres e más, mas o seu critério, extremamente aguçado e exercitado, rejeita, selecciona, associa».
As conclusões são muitas vezes inesperadas e surpreendentes, porque, como reelaborações, podem parecer novidades absolutas, mas, tendo sido baseadas em materiais existentes, formulam visões de certo modo pressentidas. É mais correcto falar-se de re-conhecimento, um reconhecimento imediato.
Esta teorização não evita a declaração surpreendente de que «até agora os processos intuitivos mostraram-se inabordáveis por investigações racionais e fogem mesmo à auto-análise. Surgindo de modo espontâneo das profundezas do ser, não é possível explicar o como e o porquê do caminho». No entanto, sabemos que o processo se apoia nos materiais existentes, pelo que pesquisar, meditar, andar à volta do assunto, recolher informação, trabalhar, em suma, são os cântaros que descem aos mananciais da criação. «A improvisação artística fica muito abaixo em relação ao pensamento estético sério e trabalhosamente seleccionado». Um Giacometti, um Saramago labutam longamente na luta com a peça, com o texto, para lhes extrair a forma e o sentido que procuram, sendo ambos apenas revelados e reconhecidos no trajecto calcorreado.


Bibliografia:
NIETZSCHE, Friedrich, “Da Alma dos Artistas e dos Escritores” in «Humano, Demasiado Humano», Lisboa, Relógio d’Água Editores, Lda., 1997.
OSTROWER, Fayga, “Caminhos Intuitivos e Inspiração” in «Criatividade e Processos de Criação», Rio de Janeiro, Imago, 1977.
PLATÃO, Victor Jabouille (trad.), «Íon», Lisboa, Editorial Inquérito, Lda., 1988.





sexta-feira, 18 de junho de 2010

O que é o Prazer? – 7 Perguntas à «Ética a Nicómaco» de Aristóteles

Joaquim Bispo

1. O que é o prazer e qual a sua origem?

«Pensa-se que o prazer é uma das possibilidades extremas mais profundamente domiciliadas na nossa natureza.» Daí educarmos os jovens a saberem lidar com eles. Prazeres e sofrimentos acompanham a nossa vida, fugindo nós destes e procurando aqueles, a fim de alcançarmos uma vida feliz. Sentir atracção e aversão são disposições de enorme importância para a realização da excelência do carácter.
As opiniões acerca do prazer não são consensuais: uns dizem que é o bem; outros, que é desprezível – seja porque pensam isso, seja porque acham ser a atitude mais pedagógica. Só são realmente úteis os enunciados que reflictam verdadeiramente os fenómenos como se apresentam na realidade. Se o forem, têm credibilidade e levam as pessoas a segui-los e a adoptar um modo de vida justo, caso contrário, serão menosprezados em favor da força possante dos efeitos dos prazeres.
Do bem, pode-se falar do bem absoluto e do bem relativo a alguém. Também há prazeres que, parecendo maus em absoluto, o não são para certa pessoa. E há situações que parecem prazeres sem o ser, como a convalescença.
«A actividade existente nos desejos é a actividade do que em nós ainda resta do nosso estado naturalmente constituído, outrora integral.» Os prazeres resultam do exercício que fazemos do que já somos. São actividades do modo de ser naturalmente constituído. O prazer que sentimos é diferente, quer estejamos num processo de preenchimento do estado natural, quer o tenhamos já preenchido. No último caso o prazer pode ser absoluto.
Pelo facto de os prazeres do corpo serem a forma mais conhecida e familiar, pensa-se que é a única existente. Há prazeres sem sofrimento ou desejo, como a actividade contemplativa. Nenhum prazer dado pela sensatez ou por outra disposição pode constituir um impedimento à contemplação.

2. O que se diz acerca dos prazeres do corpo?

Há prazeres que devem ser preferidos, devido à sua excelência, mas outros – aqueles a respeito dos quais se define o devasso – devem ser evitados.
Mas porque é deprimente o sofrimento devido à falta destes? Se são maus, não seria a sua falta boa? Ou serão maus só se excederem o limite do melhor? O sofrimento não se opõe ao excesso de prazer, mas à falta de todo o grau de prazer necessário.
Porque são preferidos os prazeres do corpo? Expulsam o sofrimento; e os excessivos actuam como um remédio para o sofrimento excessivo.
A nossa natureza não é simples. A cura é a acção da parte que ficou saudável sobre a parte doente. Isso é sentido como agradável e confundido com prazer. Quando existe equilíbrio, parece não haver prazer nem dor.
Há formas de prazer (vis) que resultam de acções de uma natureza vil, e formas de prazer que funcionam como remédio para uma quebra do estado saudável natural. Mas é melhor ser saudável do que tornar-se saudável.
Os prazeres sensuais são tão perseguidos pelo facto de serem tão fortes. Para alguns, não ter prazer nem dor já é doloroso. Chega-se a provocar a falta de um prazer necessário para se poder debelá-la. Se tal não for inócuo, tais atitudes são criticáveis.
O ser vivo está sempre numa situação de constante esforço de equilíbrio. Períodos da vida e pessoas há que sofrem de desequilíbrio crónico. O prazer só consegue expulsar o sofrimento se for suficientemente forte. Esta é a razão responsável pelas formas de vida que os vis e os devassos procuram.
As formas de prazer vergonhosas não são verdadeiramente agradáveis, mas tão só para certos homens em particular, tomados, provavelmente, por uma afecção específica. Não se trata de uma verdadeira escolha, como a que é feita sem condicionalismos. Um prazer com origem vergonhosa não confere um prazer justo, mas um prazer de acordo com a disposição vergonhosa do seu possuidor.

3. Que teses existem acerca de bem e prazer?

Dizem:
– o que se passa com o prazer e o sofrimento acontece no mesmo horizonte da excelência e da perversão do carácter humano. No entanto, prazer e bem não são a mesma coisa;
– os prazeres são perseguidos por crianças e animais e são um impedimento à sensatez – alguns são vergonhosos e repreensíveis, outros nocivos, outros doentios. O temperado foge deles e o sensato não persegue o que é agradável;
– embora algumas formas de prazer sejam boas, o prazer não é o bem, porque o prazer acontece num processo que se dirige para a formação de uma natureza. E o bem é um fim.
Há, portanto, quem discorde que o prazer seja um bem. Sendo perseguido por todos, como se fosse um bem, não parece ter nexo esta tese.
Eudoxo pensava que o prazer era o bem, devido a ser procurado, incondicionalmente, por todos os seres. Sendo o bem para todos, seria o bem supremo.
Platão refuta a tese de que o prazer é o bem supremo. Para ele, uma vida de prazer é melhor se combinada com a sensatez, do que sem ela. Se o prazer isolado não é o melhor, então, não pode ser o bem supremo.

4. O prazer é ou não um bem?

Se o prazer não fosse um bem nem um mal, também o sofrimento não seria bom nem mau e não havia razão para evitar o sofrimento.
O sofrimento é um mal e deve ser evitado, logo o prazer deve ser um certo bem. Nada impede que o supremo bem seja uma certa forma de prazer, só porque alguns prazeres são maus. Se não houvesse formas de prazer boas nem actividades que dessem prazer, aquele que é feliz não teria uma vida agradável. Então, para que precisaria dos prazeres, caso não fossem um bem?
Todos pensam que a vida feliz é uma vida doce e envolvem o prazer na felicidade. O facto de todos os animais e Humanos perseguirem prazeres é um indício de que a felicidade é de alguma maneira o supremo bem. Se houver actividades livres de impedimento para cada disposição, e a felicidade for uma delas, tal actividade será a coisa mais querida. Uma actividade livre de impedimento é o prazer. Portanto, o supremo bem será uma certa forma de prazer.

5. O prazer é um processo de regresso a um estado equilibrado?

A situação do prazer parece assemelhar-se à da saúde. Admite maior e menor equilíbrio. E não parece ser um fenómeno de mudança de estado, como dizem os platónicos, pois a sua intensidade não depende da rapidez ou da lentidão da mudança de estado.
Será um preenchimento do que falta ao estado natural? O preenchimento não é prazer; acontece é que se sente prazer no decurso dele. E nem todos os prazeres são precedidos pela dor da falta: não se sente dor antes do prazer da aprendizagem, nem antes dos prazeres do olfacto, da visão e da audição. Como se podia fazer sentir a falta, e consequente prazer de preenchimento, da falta que não existia?
O prazer parece estar completo em qualquer momento temporal do seu decurso. Por isso não se trata de uma mudança. As mudanças transcorrem no tempo, enquanto que o prazer pode transcender o tempo – ser total num “aqui e agora”.
«A actividade que chega à máxima completude é a que dá um prazer extremo.» Quando a capacidade perceptiva se encontra em boas condições, e é activada pela excelência do objecto que cai no seu campo de percepção específico do objecto, acontece a percepção mais completa nesse campo específico e um prazer extremo. Tal prazer, conduz a actividade a uma maior completude, numa interacção de estimulação.
Porque não acontecem, então, estados de prazer permanente? É que a excitação inicial do pensamento, que intensifica a actividade perceptiva, esmorece com o tempo.

6. Que relação existe entre prazer e completude de actividade?

«A intensidade de uma actividade aumenta com o prazer que lhe é pertinente», «porque cada espécie de prazer tem um laço estreito de afinidade com a actividade a que confere um maior grau de completude» , como dito atrás. «Quem exerce a sua actividade com prazer», atinge nela um maior «grau de discernimento e rigor». Torna-se mais competente nessa tarefa.
A ligação entre uma actividade e o prazer que lhe pertence pode tornar-se tão profunda e indissociável que se pode duvidar se não são uma única coisa. O que, muitas vezes, significa subalternizar outras actividades, próprias ou alheias, igualmente merecedoras de atenção, mas que não induzem o mesmo prazer. Os prazeres associados a essas actividades são vistos como estranhos e funcionam à maneira dos sofrimentos – arruínam a actividade mais aprazível.
Cada homem encara cada prazer de modo diferente e o que pode ser delicioso para um pode ser execrável para outro. Mas o que é unanimemente considerado vergonhoso não poderá ser chamado prazer senão pelo depravado.
Actividades diferentes geram prazeres diferentes. «A percepção visual é superior em nível de pureza à táctil», bem como a acústica e a olfactiva são superiores às do gosto ou do paladar. «Também os prazeres se distinguem de modo semelhante: os do pensamento teórico são superiores em grau de pureza aos prazeres das sensações.»
E qual será o que é, por excelência, pertencente à natureza humana? Deve ser o que se manifesta nas actividades especificamente humanas. E deve proporcionar um alto grau de completude.
Todos os homens desejam alcançar completude nas actividades a que estão mais afeiçoados. Como o prazer leva as actividades a um maior grau de completude, os homens procuram alcançá-lo, com a intenção dessa possibilidade preferencial. Vida e prazer andam, assim, ligados.

7. O que é a felicidade?

A felicidade é uma coisa séria, não é uma espécie de divertimento, pois seria absurdo a vida ter como meta a brincadeira. Também o descanso (parecido com a brincadeira) não é o fim último – existe em função da actividade.
A felicidade basta-se a si própria, é um fim e não um meio. Tudo pode ser um meio para outro fim, excepto a felicidade que é o fim último.
A felicidade consiste nas actividades que se produzem de acordo com a excelência. Sendo a felicidade o fim mais excelente, terá que ser de acordo com a mais poderosa das excelências.
O poder de compreensão – aquilo que por natureza parece «comandar-nos, ou dar-nos uma compreensão intrínseca do que é belo e divino» – será a actividade que estará de acordo com a excelência que lhe pertence. «Tal será a felicidade na sua completude máxima. Uma tal actividade é, como dissemos, contemplativa.»
«Nós pensamos também que a felicidade tem de estar misturada com o prazer, porque a mais agradável de todas as actividades que se produzem de acordo com a excelência» é a que é considerada de acordo com a sabedoria. «Parece, então, pois que a filosofia [o filosofar] possui a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há» .

Conclusão

Os prazeres são elementos profundamente arreigados na nossa natureza. Acompanham a nossa vida tornando-a mais agradável, ou fazendo-nos sofrer com a sua falta. A maneira como lidamos com eles determina se nos tornamos pessoas amargas ou de bem com a vida, se a desfrutamos saudavelmente ou se vivemos reféns da procura de prazeres. «É o modo como lhes reagirmos e não a intensidade com que eles se fazem sentir o que determina a relação que estabelecemos com eles.»
Anunciam-se pelos desejos, que são promessas de exultação futura. «O desejo de prazer arremessa-nos para um futuro que ainda não se constituiu, mas que está eivado de promessa.»
Nos prazeres do corpo há que ser comedido e usar só a porção necessária, pois «não é a qualidade do desejo que traz consigo a perturbação da vida, mas a quantidade.»
Ser comedido não é fácil, porque os desejos são veementes e os sofrimentos daí decorrentes podem ser dolorosos. Muitos homens cedem aos seus apelos de uma maneira desregrada, seja o devasso que nem sequer se tenta conter, seja o frouxo que tenciona conter-se mas abdica sem luta. O homem sensato e lúcido arma-se de decisões sustentadas em argumentos fundamentados e, quando os apelos de prazeres excessivos o acometem, resiste apoiado nessa decisão amadurecida. Ademais, antecipa as situações de desejo e enfrenta-as com a segurança que a análise prévia lhe forneceu. Um homem assim possui autodomínio.
Os prazeres do corpo são os mais óbvios mas muitos outros há, os quais podem ser tanto ou mais gratificantes. Toda a actividade exercida com gosto faz o seu praticante atingir níveis de completude que, por sua vez, lhe transmitem um prazer suplementar. Aquela que atingir um grau de excelência fornece o prazer mais excelente, o supremo bem, a felicidade.
Para Aristóteles as actividades do pensamento teórico fornecem prazeres com maior grau de pureza do que as sensações. O exercício de compreensão do mundo – o filosofar – será a actividade que estará de acordo com a mais poderosa das excelências. Possui, portanto, a possibilidade de prazer mais maravilhosa que há.

Bibliografia:
ARISTÓTELES, António de Castro Caeiro (tradução do grego), «Ética a Nicómaco», Lisboa, Quetzal Editores, 2009.
CAEIRO, António, «A Areté como Possibilidade Extrema do Humano», Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2002.





Sex Toys

por Ju Blasina

Quando o assunto é sexo, você se considera uma pessoa liberal? Acha que, entre quatro paredes, vale tudo, ou essa simples pergunta já lhe parece invasiva? De qualquer forma, relaxe, pois essa crônica não pretende adentrar a sua intimidade. Talvez, só espiar um pouquinho... Em busca do seu ponto de vista, seu posicionamento sobre o assunto em questão.

Se você estiver sentindo uma certa malícia por baixo dessas linhas, lembre-se que o sentido das palavras é a nossa mente quem dá! Mas não se recrimine, muito pelo contrário: nos dias de hoje, ser inocente é uma atitude que não pega bem!

E para satisfazer a opinião alheia, tem muita gente por aí vestindo a carapaça de vinil, com medo de, sem ela, parecer careta ou pior: não aparecer! Desde que a série americana, Sex and the City, fez do vibrador o melhor amigo da mulher, que muitas só faltam levar o seu pra passear, de coleira – e botas, pinos, chicotes, algemas e o que mais o espaço permitir! É como se a geração que recebeu a tão almejada liberdade sexual tivesse convertendo o “livre” em “liberal” e fazendo disso um pré-requisito social.

Ser heterossexual, monogâmico e reservado é praticamente uma afronta aos valores da sociedade contemporânea! E por conta disso, existem hoje tantos falsos gays – aqueles que buscam um envolvimento sócio-sexual (sim, porque se não mostrar, não conta!) com pessoas do mesmo sexo por razões pra lá de duvidosas, longe daquelas pelas quais a comunidade verdadeiramente gay luta até hoje!

Foi-se o tempo em que a palavra swing* qualificava os indivíduos que possuíam malemolência e samba no pé. A menos, é claro, que o sexo seja considerado um novo estilo de dança. Nesse caso, já pensou no sucesso que faria a dança dos famosos, para maiores de dezoito anos? Dá até para imaginar a sentença de um jurado: “Eu fico com o casal A, porque ele tem um belíssimo movimento de quadril, e ela, uma abertura de pernas perfeita!” – talvez, nesse contexto, as expressões perna-de-pau e duro de assistir ganhassem novos significados... Só talvez.

As quatro paredes dos amantes modernos são de vidro transparente – tanto para ver, quanto para mostrar! E na ânsia por esquentar, sacudir e apimentar a relação, muitos casais acabam perdendo-se mutuamente – o que é compreensível... Basta contar o número de acessórios que dividem a cama! E, quando a pilha deles acaba, muitos preferem trocar os antigos brinquedos por humanos. E logo o casal vira de três, de quatro e de quantos mais couberem na vontade do playcouple* e no coração do polyamori*.

Se, entre quatro paredes, vale tudo? Vale... Vale tudo! Até mesmo dançar homem com homem e mulher com mulher! Só não vale fazer de nós os sex toys*!

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*Nota da autora: Playcouple – nome dado ao casal adepto do swing, ou de outras práticas sexuais liberais. Polyamori – estilo de vida onde há, além de uma vida sexual, envolvimento afetivo com mais de uma pessoa. Sex toys – brinquedos sexuais; acessórios vendidos por lojas especializadas, chamadas sex shops.





domingo, 13 de junho de 2010

Bom dia, Carlinhos

José Guilherme Vereza

Café da manhã. Carlinhos já de gravata, olhos pregados no jornal.
Chega a mãe de bule na mão. Penhoar amassado, cabelo preso mal ajambrado,
cara de que madrugou para botar a mesa.

- Bom dia, filhinho.
- Bom dia.
- Eu disse bom dia, filhinho.
- Eu respondi: bom dia.
- Você fala pra dentro.
- E a senhora não ouve de fora.
Só ouve o que já está dentro.
- Você está irritado, meu filho?
- Não.
- Eu irritei você?
- Não. Claro, que não, mãe.
- Alguma notícia irritou você?
- Não, mãe. Já estou vacinado com as irritações do mundo…
- Foi essa Gabriela, então.
Ela irritou você. Você chegou tão tarde…
- Não, mãe. A Gabi não me irrita nunca. Muito pelo contrário.
É o meu bálsamo. Meu oásis. A flor que nasceu no brejo
onde minha vida se atolava… Gostou?
- Poesia não enche barriga, Carlinhos.
- Mãe, me deixa ler o jornal em paz.
- Você é tão inocente, meu filho.
Não sabe nada da vida… Carlinhos, está me ouvindo?
- Estou ouvindo uma voz ao longe,
voz de chapinha arranhando no ladrilho,
unha arrastando no quadro negro…só isso.
- Você não era assim.
- Assim como?
- Grosseiro e irritado.
- Mas eu não estou irritado.
- Desde que voltou para casa ficou desse jeito.
Foi recebido com tanto carinho, meu Deus…
- Provisoriamente, mãe. Eu avisei: pro-vi-sio-ra-men-te.
- Não sei por que largou a Belinha, moça tão boa, coitada…
- De novo, mãe: o casamento ficou chato, sem graça, acabou.
- Por que você não arrumou uma amante?
É isso que os homens fazem para manter o casamento.
Seu pai sempre foi assim. Você acha que eu não sabia?
Pois sim. Sabia de tudo e bico calado.
O importante é que ele nunca deixou faltar nada nessa casa.
- Eu não acredito que estou ouvindo isso.
- Você está irritado, meu filho.
- Não, não estou irritado.
- Por que está falando assim com irritação?
- Mas eu não estou irritado. Já disse.
- Está sim. Mãe sabe quando o filho está irritado.

Carlinhos tira os olhos do jornal, suspira,
levanta a cabeça e finge que conta as teias de aranha no teto.
Com toda calma, pega bule, xícara, pires, pratinho, manteigueira,
potinho de geléia, joga tudo contra a parede.

- Agora estou irritado, mãe. Satisfeita?

A mãe, calada, arruma um pano para limpar a sujeira.
E se abaixa, vitoriosa, para catar os cacos.





sábado, 12 de junho de 2010

Noite de Festa


 Por Cirilo S. Lemos

Noite de festa no rancho de César Romero. Morrera com um balaço no peito seu grande inimigo Zé Diabo, que com seu bando de facínoras fizera mal às suas três filhas. O corpo do demônio está pendurado pelo pescoço num galho alto de amendoeira. Moscas patinham por sua barba, vapores apodrecidos sobem de seus poros, a língua roxa agora é preta. Há três dias encara com olhos defuntos a bebedeira e a dança em volta da fogueira onde se faz cinzas de seus treze asseclas. É noite de festa no rancho de César Romero, e a promessa é que vai longe. Faceiras, suas três filhas arrancam suspiros da caboclada, Das Dores, Das Almas e Esperança, balouçando as saias rodadas ao dedilhar das violas. Cospem no cadáver sujo toda vez que a dança as conduz até ali, efusivamente aplaudidas pelos peões de chapéu na mão. Estão felizes, seus males estão vingados. Tem comida, tem bebida, tem cantoria: é noite de festa no rancho de César Romero. Mas eis que o Inferno manda de volta Zé Diabo num sopro de enxofre. O morto salta da corda, salpicado pela prata da lua e pelo vermelho do fogo. Move-se rápido que nem parece defunto. Agarra a peixeira de um desprevenido e começa a lavar com sangue o terreiro da festa. Passa a fio de faca os seresteiros, sangra feito porco seu inimigo jurado, mata de terror o padre de coração fraco. Mata a música, mata a dança, mata a festa e as pessoas, os homens e as crianças, as velhas beatas e as moças de carne nova. Mata, mata e mata. Das três filhas de César Romero, Esperança é a última que morre.





sexta-feira, 11 de junho de 2010

dois poemas desvairados

guerras
Maria de Fátima
estavam quatro homens debaixo da janela do meu quarto
quatro
quatro soldados armados de espingarda
quatro homens fardados

pendurada na parede do meu quarto havia uma aguarela
um desenho pintado de um gato siamês

cada soldado disparou uma bala
quatro
caiu a aguarela da parede
caiu esfacelado o gato com dois olhos verdes

entro no quarto e vejo a última bala
uma bala a dançar em redor do que sobrou do gato





viagens



Eu gostava de ter um barco
Que rumasse a norte
Um barco e um mapa

Eu gostava de ser comandante
De uma frota
Vários barcos e o meu adiante
Andar com bandeirinhas
Acenando
“Olá! Como foi o almoço”
E responder-me uma dama
No barco lá ao fundo
“ Vomitei tudo!”

Um barco para andar
De vento em popa
A passar ao largo
Algarismos, cotas, ramais
As letras e os números


Um barco que fosse
De uma a outra costa
Atravessando o mapa
A desfilar na tinta






quinta-feira, 10 de junho de 2010

Na Corda Bamba

O equilibrista deu mais um passo: o último.

Quantas vezes havia ensaiado a despedida? Quantas vezes havia repetido para si que jamais pisaria novamente numa corda bamba?
Foi assim em Roma, Paris e Nova York. E a despedida era sempre adiada, postergada por causa de provas ainda mais ousadas, como da vez em que cruzou um canyon gigantesco sem qualquer tipo de proteção. Sobrevivera. Como da vez em que atravessou a corda sob ventos inclementes na Turíngia. Também sobrevivera.
Sua trajetória nada mais era do que um embate diário com a morte. Quem sairia vitorioso, ele ou ela? Por vezes, sentia o toque cálido a empurrá-lo para baixo, a forçá-lo ao erro, e fazê-lo titubear. Não tinha medo, pois medo é para os fracos. Esta presença soturna, sempre pairando sobre seu ofício, era o seu verdadeiro estímulo, animava-o, inspirava-o a ir mais longe.
Mas envelhecia e ninguém mais queria ver um velho equilibrista, que não apresentava novidades.
Planejou, então, a despedida, num temível desfiladeiro na Costa Rica. A imprensa foi convocada, o equilibrista se preparou.
Sem dificuldades, atingiu a metade do percurso, para assombro da plateia. Só que, desta vez, algo incomum ocorreu: o equilibrista teve medo. Não da queda, nem da morte, nem do esquecimento. Teve medo de ter desperdiçado toda sua vida perfazendo um ofício vazio, sem sentido, tolo.
Por que fazia o que fazia?
Não encontrava resposta.

Pensou em precipitar-se desfiladeiro abaixo, estatelando-se nos rochedos e no riacho, mas não, caminhou passo depois de passo até o fim da corda bamba.
Sob aplausos da multidão, sob os flashes da câmera, o anticlímax: o equilibrista acenou, e nunca mais se soube dele.





O Sinal

O sol se punha pela milésima vez atrás das montanhas. Todos os dias, ao cair da tarde, Alcebíades saía à varanda à espera do sinal.
Ainda não sabia qual era seria este signo, mas aguardava-o religiosamente. O sinal que o libertaria, que finalmente o permitiria partir e conhecer o mundo.
Ao receber sua missão, o combinado era por apenas seis luas cheias. Mas a outra guarnição não chegara para dar-lhe baixa e os meses e anos se sucederam. Seu companheiro de campanha morreu logo nas primeiras semanas, vitimado por uma serpente peçonhenta. Sozinho, Alcebíades suportou o isolamento e a solidão.
Quando os mantimentos acabaram, ele caçou e plantou. Durante a seca, andava duas léguas para apanhar água no regato. Na grande nevasca do inverno passado, ele pensou que morreria congelado quando uma avalanche soterrou o casebre. Contudo, sobreviveu, aguardando apenas o dia do sinal.
Em criança, sonhava em viajar aos confins do mundo, descobrir terras longínquas e conhecer povos diferentes, assim como nas histórias que ouvira de mercadores e soldados. Foi assim que, desde cedo, ele tomou a resolução de se alistar, parecia a solução mais óbvia para seu anseio por aventuras. Equivocara-se, por isto agora apodrecia longe de tudo e de todos. Se retornasse à sua terra e aos seus, nenhuma história teria para contar, nenhuma novidade, nada que causasse inveja nos outros.
Portanto, uma vez que recebesse baixa, embarcaria num navio e desapareceria no mundo. Talvez finalmente fosse feliz.
Pela milésima vez, o sol se punha atrás das montanhas, vermelho e silencioso, lançando raios dourados e púrpura para as nuvens compridas acima. Mil pores-do-sol, todos diferentes, todos trazendo a mesma expectativa.
Mas a nuvem de poeira que se erguia no horizonte rompeu a monotonia do crepúsculo. O sinal! O dia da baixa!
Alcebíades acendeu a tocha na varanda e todas as luzes do casebre, pois somente assim se certificaria que a nova guarnição chegaria ao destino depois de o sol houver desaparecido e o mundo ter sido recoberto por trevas. Correu para arrumar suas trouxas e, toda a hora, saía para a varanda, mas não avistava os oportunos visitantes. Sentou-se na escada e acendeu um cigarro, fingindo tranquilidade.
Ouviu o trote dos cavalos e seu coração bateu com mais força. O dia havia chegado!
Todavia, assim que a tocha da varanda alumiou os cavaleiros, Alcebíades reconheceu a bandeira, os brasões e as armaduras inimigas. Deitou a mão sobre a empunhadura da espada, mas os cavaleiros retesaram seus arcos e ordenaram-lhe que largasse a arma.
Dois deles desmontaram e, lendo um pergaminho, anunciaram sua sentença de morte. Foi então que Alcebíades recebeu as primeiras notícias de sua terra, da guerra que a havia devastado e como o império rival anexava todos os territórios e bens de seu povo, que incluía aquele posto avançado de guarda.
Puseram-no de joelhos e ele pôde sentir o fio da espada em sua nuca.
Por mil crepúsculos Alcebíades esperou o sinal da libertação e ele enfim chegara, num golpe rápido e fatal do aço inimigo.





terça-feira, 8 de junho de 2010

Ciclo

No verão rubro
As ondas submergindo
O mundo todo


As folhas mortas
Levadas pelas águas
No outono mortal


Gelo profundo
Cobriu toda a Terra
Outra era glacial


No âmago do
Planeta a vida ainda
Deixou sua raiz...
Recomeço...





segunda-feira, 7 de junho de 2010

La Chanson Dernière

por Ju Blasina
Deitada em sua cama, ela brincava de adivinhar. Era um jogo simples, travado em seu lugar secreto, usado nos momentos de dor, de medo e de solidão, tendo como único adversário, o tempo. Esperava com isso dele ganhar um pequeno crédito em instantes ou memórias, por menor que fossem. Naquela altura da sua vida, isso era tudo o que importava!

Ouvindo a primeira música, Paris, foi levada ao momento em que vendeu seu tempo em troca de moedas que agora, já não tinham valor... Ah, se hoje lhe fizessem tal proposta ou essa multiplicada por dez, por mil, a resposta seria outra... Qual a serventia de todas as riquezas acumuladas, se já não havia tempo para desfrutá-las ou saúde para retornar à sua amada Paris? Definitivamente, aquela não fora uma troca justa! E balançando a cabeça negativamente, no ritmo da canção, ela criticava a estupidez de sua juventude.

Não, não seria naquela faixa... E tinha um bom presságio em relação à próxima; “se fosse La Vie En Rose...” mas não, era Rien Du Rien. Não era uma canção romântica, porém, ainda assim floresciam quentes lembranças sob as cobertas que lhe guardavam do frio. Havia amado tanto e por tantas vezes! Havia amado a tantos... E sido amada também, nem sempre com a mesma intensidade ou reciprocidade, mas o amor por si já fazia tudo ter valido a pena! Se havia algo para lamentar, era o silêncio que morava entre o fim de uma faixa e o início de outra.

Quase apostou na próxima, mas o tempo lhe deu outra vantagem – estava generoso ele hoje! O que viria a seguir? Padam... Padam... dizia a vitrola. Seria essa a última canção, a trilha sonora do seu adeus? Um adeus que ninguém poderia ouvir. Não se entristecia por isso; despedir-se-ia da vida e das pequenas marionetes que dançavam em suas memórias falhas e o faria com o maior sorriso que suas forças pudessem permitir!

Não temia a morte. Não mais... Depois de tantos anos de dor, já havia se habituado a sua proximidade gélida. Sentia o calor se dissipar do quarto a cada instante e isso era o prelúdio do fim. É claro que ainda restavam muitas dúvidas, mas nenhuma necessidade de saciá-las. Não seria deselegante ao ponto de reclamar ao vazio. Não temia o partir – partiria à francesa! – nem lamentava a solidão: dizia a si mesma que as pessoas são mais belas nas memórias, os momentos, mais coloridos, sejam eles de tristeza ou de alegria, e quando havia uma pequena falha, ela logo a preenchia com uma bela pincelada de fantasia!

Por isso, não, não temia o fim. Mas temia profundamente partir no entremeio de uma canção tão linda quanto Adieu Mon Coeur... Por isso, nessa rodada, passaria a vez...

_____________________________________________________________________

Nota da Autora: Esse conto foi escrito sob a súbita inspiração provocada pelo filme "Piaf - Um Hino Ao Amor" (originalmente "La Môme", em inglês "La Vie En Rose"), lançado em 2007 sob a direção de Olivier Dahan. Todas as canções citadas no conto (títulos em itálico) foram interpretadas por Edith Piaf.





domingo, 6 de junho de 2010

Da Mulher

Jardineira que se pinta as rosas
de rosa, branco, grená.

Se poda os galhos,
afia os espinhos,
unta as folhas
com essências
e fantasias.

... mas suas raízes
irrigam
um bonsai de carvalho.





Orvalhinho

És a gota
que vence
o incêndio.

e depois queda
esbaforida
na calma

sobre o meu peito.

Orvalho na folha salva.





sábado, 5 de junho de 2010

Como o Melro no seu Dragoeiro

Joaquim Bispo



O nome de baptismo era Armindo, mas «Rolhas» foi o que começaram a chamar-lhe, desde que a namorada o deixou e ele começou a pedir rolhas ao Sr. Mário do Estrela – um restaurante na Calçada da Ajuda – ninguém sabia para quê.
Desde pequeno, era um miúdo metido consigo, e o facto de ser muito magro e alto, também não ajudava a fazer amizades. O pai era «arrasta» na praça da Ribeira e a mãe vendia hortaliça, de manhã, na praça da Travessa da Boa-Hora. Nem para uma coisa nem para a outra arranjaram, os pais, maneira de o entusiasmar. De vez em quando, a mãe conseguia que lhe dessem trabalho – carregador em lojas de móveis, marçano em mercearias – mas rapidamente abandonava o trabalho, quando não era o patrão a dizer à mãe que o rapaz andava sempre nas nuvens e não dava conta do recado. Deambulava pelo bairro da Ajuda e do Caramão ou refugiava-se na mata de Montes Claros. Ou então, isolava-se na biblioteca do Centro Paroquial a ler poesia. Numa dessas vezes, escreveu nas costas do cartão de sócio:

Vagueio por um mundo que me não conhece
A minha alma anseia o além


Aí pelos dezanove anos, começou a namorar com uma vizinha, a Alcina, que achava graça ao seu ar desajeitado. Sentavam-se aos domingos num banco do Jardim Botânico, debaixo dum choupo. Ele recitava-lhe pequenos poemas de Cesário Verde e ela sentia que não havia nenhum homem tão sensível como o Armindo. Numa dessas tardes, à sombra do choupo, ele recitou-lhe um poema de sua autoria, como se fosse de Cesário, para ver se ela notava a diferença. Começava assim:

Olhaste-me graciosa e prazenteira
Como se eu fora de todos o mais nobre…

Ela não notou diferença, o que muito o envaideceu. Foi um namoro agradável e alegre, enquanto durou. Passado um ano, Alcina sentiu que a mesa não se ia guarnecer com poesia e passou-se para o filho do dono da serralharia do Altinho, com o qual casou pouco depois. Foi um rude golpe para Armindo. Alguns diziam que o moço desatinara e apontavam o facto de ter passado a andar sempre com um bolso cheio de rolhas de cortiça. Por essa altura escreveu numa carteira de fósforos:

O poema só brota nos peitos esfacelados

Uns meses depois, um tio, que trabalhava no Jardim Tropical, puxou-o para jardineiro. Tratar das plantas e dos canteiros, manter o jardim limpo, eram tarefas que lhe agradavam. O contacto com as plantas e os animais, a percepção dos seus ciclos, faziam-no sentir-se em comunhão com o mistério da Natureza. Escrevia:

Deixa a palmeira para a algazarra dos pardais
e a araucária para o bulício dos demais!
Na paz do dragoeiro faz, melro, o teu poleiro!


Quando ganhou experiência, encarregaram-no dos alfobres nas estufas, onde pode trabalhar sozinho, como gosta. Prepara as pequenas leiras de terra, semeia e cobre as sementes, identifica as plantações, rega as pequenas plantas quando rebentam, transfere-as para vasos ou canteiros, quando atingem tamanho adequado, e cuida delas até serem mudadas para o ar livre.
Embora atento ao que faz, a sua mente arquitecta frases, avalia rimas e sonoridades, sobretudo ausculta o coração. Depois, à hora de almoço, senta-se num banco e verte, num caderno de papel colorido, o que o íntimo lhe inspira:

Todo o caule por minhas mãos tange.
Esgrimo da mandrágora o alfange,
o aloendro murmura e range.


Quando o dia de trabalho termina, dirige-se para a beira-rio, a jusante da estação dos barcos, com uma bolsa de pano a tiracolo. Senta-se no paredão e fica a olhar o rio. «Para onde irão todas aquelas águas? Alguém lhes marca o destino? Certo é que seguem decididas, na direcção do sol-pôr. Outras pessoas as irão contemplar, lá longe.»
Armindo tira então da bolsa, uma garrafa vazia de vidro transparente, separa a folha de caderno com o seu pequeno poema, enrola-a, ata-a com um junco seco e introdu-la meticulosamente na garrafa. Num ritual sempre igual, tira do bolso uma das rolhas e veda a garrafa cuidadosamente. Então, levanta-se e atira a garrafa ao rio, tão longe quanto a sua força alcança. Solene, fica a observá-la, primeiro com o gargalo a esbracejar, como se apelasse por socorro, depois num suave gesto de adeus e, por fim, a deslizar lentamente, imperceptivelmente, em direcção ao mar.





À noite, antes de adormecer, com o «Só» de António Nobre à cabeceira, sente às vezes algo indefinível, como que uma sintonia com um espírito desconhecido, mas tão íntimo como si próprio. Gosta de imaginar que, lá longe, numa praia remota, do outro lado do Atlântico, alguém, vagueando ao sabor dos seus pensamentos solitários, encontra uma das suas garrafas e lê:

Penso em ti,
minha amiga, alma gémea, minha irmã.
Só e triste. Anseio por te conhecer.
Pensa em mim, assim nos vamos encontrar!

E adormece mansamente.







Júlio (dos Reis Pereira), Aguarela da série “Poeta”, 1939.
Colecção particular.





quinta-feira, 3 de junho de 2010

Testamento

 Caio Rudá de Oliveira

Eu quero morrer louco
são nem um pouco
doido de pedra
demente, decadente
sem mente, sim
completamente doente.

Eu quero morrer assim
para não fechar meus olhos
ciente de que é o fim.





terça-feira, 1 de junho de 2010

SAMIZDAT 29

SAMIZDAT 29


Por que Samizdat?, Henry Alfred Bugalho

MICROCONTOS
Ju Blasina

CONTOS
A porta, Caio Rudá
O ar do tempo, Joaquim Bispo
A morte do Temerário, Ana Cristina Rodrigues
A filha do Crisóstomo, Maria de Fátima Santos
A vingança de Bento Julião, Henry Alfred Bugalho
Homem com violão, Cirilo S. Lemos
Fé, José Guilherme Vereza
Avaliações, Léo Borges
Sempre há uma verdade... (Final), Maristela Scheuer Deves
O assassino. Em nome do Criador, Giselle Sato

ARTIGO
Geraldo Geraldes - o Sem-Pavor, Joaquim Bispo
O retrato como gênero, Joaquim Bispo
O que é certo ou errado quando não podemos ser?, Leandro da Silva

POESIA
+ 2 tantos, Ju Blasina
O despertar de uma mulher, Caio Rudá de Oliveira
Casa de Platão, Wellington Souza

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT


SAMIZDAT 29 (leitura online)





sexta-feira, 28 de maio de 2010

Lançamento: Das Ideias, Caio Rudá de Oliveira



«Das Ideias» é o primeiro livro de Caio Rudá de Oliveira, em cujas páginas está registrado o mundo como vê o autor. Perguntado sobre do que se trata sua obra, não responde «tudo» porque este é um conceito tão impreciso quanto o de perfeição. Opta por dizer que o livro é sobre a vida, não a sua, mas a dos homens, sobre o mundo, enfim. Em verso ou prosa, todo o livro é poesia, a poesia do enigma da (in)existência.  


INFORMAÇÕES
ISBN: 9788579531378
Ano:
2010
Edição:
1
Número de páginas:
80
Acabamento:
Brochura
Formato:
14x20 cm


Contato com o autor: 
http://www.dasideiasdecaioruda.com/
rudax@hotmail.com







segunda-feira, 24 de maio de 2010

Sempre há uma verdade.... (Final)

Maristela Scheuer Deves

Depois que experimentei o gosto do sangue jorrando da garganta de um animal vivo, sucumbi inteiramente à minha sede. Durante o dia, eu conseguia me controlar, mas à noite escapava pela janela e vagava sem rumo, atacando os gatos e cachorros que incorriam no erro de atravessar o meu caminho. Deixava-os vivos, mas atordoados e exangues, e provavelmente não sobreviviam mais do que um dia ou dois.
A única barreira que eu ainda mantinha, por enquanto, era a de não atacar humanos. Eram meus iguais, pelo menos ainda em parte, e o horror me invadia a cada vez que eu pensava em cravar meus dentes no pescoço alvo de alguém. Esse horror, no entanto, era mesclado com um prazer antecipado, um arrepio de excitação, uma vontade crescente...
Minha mãe ainda me mantinha trancada no quarto, mas, é claro, assim como eu escapava pela janela para me alimentar dos animais eu também o podia fazer para chegar perto de outras pessoas. Uma noite, não resisti, e entrei pela porta da frente de casa. Parei na porta do quarto de meus pais, depois de meus irmãos, mas me obriguei a ir adiante. Quando vi uma réstia de luz vindo por baixo da porta do quarto de visitas, porém, não me contive, e empurrei-a devagarinho.
Sentada na cama, minha avó me observava. Notei seu choque ao ver o quanto eu estava pálida e transfigurada, mas ela manteve a calma e o sorriso sereno.
— Eu sei pelo que você está passando, minha filha — declarou ela, sem alterar o tom de sua voz sempre doce. — Aqui na cidade, todos iriam rir de mim, mas já vi isso acontecer antes, no interior, quando eu era menina.
Ela ficou com o olhar distante, perdida em pensamentos, e eu vi a mim mesma se aproximando passo a passo do seu corpo frágil e indefeso. Eu não queria, eu juro, mas era mais forte do que eu. Minha sede crescia, e eu sabia que o gosto de sangue humano seria mil vezes melhor do que o de um animal...
Eu já estava com a boca a centímetros de seu pescoço quando senti meu rosto queimar. Na sua aparente ingenuidade, minha avó recorrera ao mais básico dos truques para se livrar daquilo que eu estava me tornando: atirara água benta em meu rosto, e agora erguia na mão um punhado de cabeças de alho.
Recuei, apavorada, mas ela conseguiu de alguma forma ser mais rápida. Agarrou-me e, com o alho e a água benta, me fez sair novamente de casa e ir até a garagem. Depois, obrigou-me a dirigir horas e horas, até o lugar em que me encontro agora: o porão úmido e fétido de uma antiga casa de campo.
Não posso sair, pois há alho plantado ao redor de toda a casa. A cada dia, ela me traz água e um bife, a cada dia um pouco mais passado. Vem protegida por um colar de alhos, e diz que vai me curar do meu problema, que não pode deixar sua neta virar uma vampira. Por vezes, penso que já me tranformei; noutras, que estou tendo um pesadelo, um longo e maluco pesadelo. Mas, no fundo, sei que é real. Sei que ainda falta um último ato na minha transformação, que é provar o sangue humano.
O que não sei é quem vencerá essa guerra: se minha sede ancestral ou o colar de alhos da minha avó...





domingo, 23 de maio de 2010

O assassino. Em nome do Criador - Giselle Sato

Enquanto caminhava pelas ruas vazias, ouviu a voz ordenando que fosse mais atento, embora não ousasse desafiar o Mental Superior, desta vez sentiu-se ofendido. Não achou justo: Logo ele, um observador nato, sempre analisando todas as possibilidades e desafios... Considerava-se um privilegiado, amparado por um ser que o tornava mais que especial, quase um anjo. Intocável e acima de todos os comuns, Jonas pensava ser ele o enviado do Supremo. Sorriu deliciado, sob as roupas largas e disformes que ocultavam a magreza e palidez de quem jejuava continuamente, submetendo-se a longas privações e castigos.

A esquina parecia perfeita para um grupo de adolescentes, ali podiam ser o que bem quisessem, não havia censura ou regras.
Uma menina seminua dividia a atenção entre os rapazes, alternando abraços e afagos.
A dor chegou forte, no topo da cabeça de Jonas, como deveriam ser as mensagens verdadeiras, era preciso que beirassem o insuportável. Jonas ajoelhou-se imediatamente, encostado na parede, escutou a ordem para salvar a moça. Ele sentiu a lâmina fria em contato com a pele, sob a atadura apertada em torno do dorso, pronta para fazer cumprir seu papel sagrado.

Levantou-se em passos trôpegos, aproximou-se dos jovens simulando embriaguês, eles não deram atenção ao maltrapilho. Em segundos, Jonas iniciou o massacre, cinco corpos agonizando na calçada fria, alguns ainda gemiam e pediam ajuda. Não houve tempo ou estavam tão drogados que não puderam reagir. Ignorou as súplicas e buscou o foco principal: Agora precisava transmutar e salvar a pequena alma que mantinha desacordada em seus braços.

Alice não tinha família certa, vivia ora na casa das tias, avós ou pelas ruas. Morava onde deixavam e comia o que conseguia pegar. Nunca conheceu a mãe, muito menos sabia quem havia sido o pai, sentia-se fruto do acaso, um ser a mais no mundo, sem compromisso com ninguém. Não conseguiu estudar por muito tempo, logo estava andando com gangues de drogados, estranhamente não gostava de nada que alterasse sua percepção. Com o tempo, aprendeu a fingir-se de bêbada e passava a noite sem tomar um só gole, atenta a tudo e todos. Precisava cuidar de si, por isso mesmo, foi a única que desconfiou de Jonas a tempo e tentou fugir, só não contou em ser o alvo... Quando recebeu a pancada na nuca, perdeu as forças e Jonas arrastou o corpo leve ao beco mais próximo.

Ela não ofereceu resistência alguma, para ele, a moça era dócil como deviam ser os cordeiros. Jonas lembrou as palavras do mentor e viu ali o sinal. Fingindo estar desmaiada e analisando suas possibilidades, Alice concluiu que o seu algoz era um louco, que balbuciava continuamente mantras desconexos em uma eterna canção de ninar: Crianças malvadas, céus e anjos, piedosos senhores do destino... Meninos e meninas em segurança...

O mais assustador era a risadinha e os ruídos que emitia, sibilando, rangendo os dentes, passando a língua nos lábios continuamente. As mãos pegajosas descendo e despindo Alice, que continuou parada e muda. Ele forrou o chão com um pano, fez com que ela deitasse e derramou óleo de um vidrinho escuro. Sacou o facão sujo de sangue, limpou e o colocou ao lado do corpo de Alice. Entre os seios pequenos, ele derramou o sal que tirou do bolso do casacão surrado e recomeçou a murmurar os sons guturais.

Quando Jonas começou a espalhar a mistura com a ponta dos dedos, a jovem viu que era hora de agir e tentar sua salvação. Reuniu todas as forças e flexionou as duas pernas, acertando o abdômen do homem com toda a força. Ele caiu para trás e, imediatamente, ela pegou o facão e enterrou no primeiro lugar que alcançou. Depois disso, saiu correndo como se mil demônios a perseguissem... Não olhou para trás, não quis ver se ele estava em seu encalço, apenas queria fugir o mais rápido possível...

Nua, Alice escorregava na calçada molhada, a chuva fina e gelada fustigava a pele, mas nada a faria parar de correr. Era a segunda vez que encarava a morte, se conseguisse chegar a algum lugar seguro, mudaria de vida, prometeu a si e correu, correu... Sem atinar por onde pisava ou ia, sem conseguir gritar por socorro, completamente apavorada e perdida.

Jonas arrancou a faca da coxa e urrou de ódio, ainda avistou a menina dobrando a esquina, mas não podia corrigir seu erro. Não havia perdão, ele sabia o que tinha a fazer, a voz jamais se repetia. Ele sabia que não faria falta a ninguém, há muito a família o havia abandonado em um sanatório. O Mental Superior o encontrou e o tirou de lá, ordenou a execução dos hereges e nem os parentes mais distantes haviam sido poupados.

Jonas apagou seu rastro na terra dos homens, mudou de cidade e só caminhava nas sombras. Transformou as posses dos mortos em dinheiro vivo e sobreviveu com o essencial. Era um servo, limpava as ruas dos maus e libertava os poucos escolhidos. Mas havia falhado e seria castigado, purificado em sacrifício para merecer a paz e misericórdia. Jonas reviu toda a vida e ensinamentos, os rostos de suas vítimas rodopiavam à sua frente. Alguns tinham as bocas abertas, em um grito mudo e absurdo que apenas ele podia escutar.

Cinco e quinze da manhã, dois policiais estavam parados na esquina de um beco sujo. Havia tantos carros, peritos e curiosos que, a muito custo, conseguiram aproximar-se da cena do crime:

- Cara, em quase vinte anos, nunca vi nada parecido.

- Parceiro, como este maluco conseguiu se mutilar deste jeito?

- Não sei. Dizem que tiram forças de Deus sabe-se lá onde, mas este aí se superou. Ele arrancou o próprio pênis, fez um monte de talhos no rosto e depois cortou o abdômen de fora a fora. Devia estar muito doido, se é que estava sozinho...

- O que a gente não tem que passar por este salário de merda? Muito pouco pra aturar estas coisas... Pior que a investigação nem começou e já tem mil especulações. Viu as tatuagens? Dizem que é de uma seita satânica. Que merda! Odeio estas coisas de religião.

O delegado Valdeci passou pelos detetives com seu sorriso sarcástico de sempre à guisa de cumprimento,
fez uma meneio com a cabeça, e caminhou em direção a viatura parada. Uma mocinha pálida e magrela, de olhos arregalados e vermelhos, os observava:

- Aquela é a sobrevivente. Pegaram vagando nua pelo parque há duas quadras daqui. A única coisa que contou, foi que quando fugiu, o assassino ainda estava vivo. A mídia já começou a festa, preciso de respostas, vocês sabem... Ah sim! Bom dia, meninos!

Torres engoliu o café morno que restava, Borges preferiu o antiácido de sempre, o dia mal começava e tinham certeza de que não haveria hora para terminar.
Seis corpos, uma menina com uma historia pra contar e um quebra-cabeça a ser montado. Deixaram o local apinhado de curiosos cheios de suposições, eles próprios ainda não tinham a ponta da meada e, de qualquer forma, sabiam que não iriam descansar até destrinchar todo o enredo. Eram assim, dois obstinados em apurar a verdade, que não mediam esforços, o que os tornava um estorvo para muita gente. Infelizmente, de ambos os lados da lei, haviam feito amigos e inimigos.

A única certeza: O sentimento de revolta que os unia contra o massacre presenciado. Era preciso resolver a questão, entender o que havia acontecido e apresentar os fatos.

Torres dirigia o carro apressado, mentalmente traçava linhas de conduta do caso, as ruas já não estavam tão vazias, era um domingo bonito de verão. Borges pensou que o tempo estava perfeito para passeios e lazer. Algum programa bem família, sentiu saudades dos filhos e discou para casa. Nem percebeu que era cedo demais.





sábado, 22 de maio de 2010

O que é certo ou errado quando não podemos ser?


 Pessoas se comunicam para sobreviver e para vivenciar o que elas mesmas produzem. A língua portuguesa é propriedade universal, seu registro passou por várias bocas e mãos, e ainda passa. Por ser universal e sujeita a interferência humana, de acordo com uma variedade infinita de contextos, a língua portuguesa não é “língua portuguesa”, e sim, uma identidade própria de cada grupo comunicativo que a compõe.
Irresponsabilidade em determinar toda uma rede de lusófonos como “lusófona”, pois assim se justifica - mesmo imperceptivelmente e de forma a acordar com o mito da imparcialidade – toda a construção irracional pela qual se disseminou a língua portuguesa. Irresponsabilidade em propor um meio alternativo que possa contemplar o lado racional, atual, que seja parte de cada grupo comunicativo, em outra estrutura?
  Uma língua que se espalhou, de uma forma não-automática, pela interação que fomentou seu próprio conceito, ou seja, “língua 'portuguesa'”. A língua de quem venceu. A marca de uma série de interações políticas, culturais, sociais, jurídicas, sobretudo: uma interação de guerra e exploração.
  Tal marca deve ser evidenciada, até o esgotamento surreal das necessidades comunicativas, pois se não é no agora que se edifica a própria realidade das pessoas deste tempo, então não existe nem povo, nem cultura, nem língua, nem um ser identificado com algo.
Se há uma brecha para se induzir ao esclarecimento de que a cada dia que passa, a humanidade produz um tipo diferente de comunicação: os agentes da tal “luz”, hoje, pessoas comuns, locais, sublocais e internacionais – que substituem as poucas vozes do passado – são as responsáveis.





quinta-feira, 20 de maio de 2010

Avaliações

Léo Borges


A mulher de casaco perto da janela dormiu com a boca aberta. Às vezes, seu tronco tomba pra cima da velha ao lado que, tremendo como se estivesse tomando um choque contínuo, tenta acender um cigarro. Acho que não existe nada mais feio que isso, incomodar quem está tentando fazer alguma coisa. Mas o pior é o casaco. Não por ser feio, mas por isso aqui estar uma sauna e ela estar vestida com ele. Se bem que ele também é feio (ou sou eu avaliando mal novamente).


Todos aqui, assim como eu, têm problemas. No meu caso são vários e acho que é por isso que minha memória me sabotou. Não me recordo qual profissional eu procurei. Pode parecer estranho, até mesmo triste (ou cômico, vai saber), mas não lembro se estou na sala de espera do meu advogado, do conselheiro matrimonial ou aguardando o psiquiatra.


O que sei é que estou esperando uma solução para algo que me aflige. E o esquecimento já não é algo que me perturba tanto, pois ele vem me dando tempo para que eu produza minhas versões, curta ou rechace aparências, avalie as circunstâncias e as fisionomias, enfim, pratique mentalmente meu preconceito. O objetivo principal de todos aqui, e isso parece lógico, é retirar os obstáculos que estão bloqueando suas felicidades, os entraves que azedam a vida, mas todos, em última análise, são também avaliadores enquanto esperam. É regra que não admite exceção, válida inclusive para a garota de vestido curto que está folheando uma daquelas revistas fúteis, admirando ou invejando atrizes televisivas. Com as coxas à mostra, ela saiu de casa (claro que com a anuência dos pais) para provocar. Como é deliciosa essa daí. Mas eu tenho de reprimir esse desejo, afinal é nova demais, talvez não mais que quinze anos. Coisa feia (o desejo, não ela).


E aquele gordo que não para de me olhar. Está com raiva de mim, achando que sou pedófilo. Ou não. Seu olhar é meigo, um olhar muito parecido com o meu para a menina, desejoso, julgador, cheio de luxúria. Abrindo meu coração eu digo que sinto raiva de gordos, pois quase todos são irônicos e se acham espertos, mas de homossexuais não, já que eles expõem suas carências com personalidade, sem pudores, sem ritos, até em salas claustrofóbicas como essa, e ninguém pode contrariar, nem mesmo através de um esgar que evidencie tímida desaprovação.


A velha, o isqueiro e o cigarro ainda se digladiam. A tremedeira (que pode ser de angústia, mas em hipótese nenhuma de frio) está claramente atrapalhando suas tentativas de saborear o tabaco. Uma pena, pois a fumaça e o fedor, calmamente espalhados pelo moribundo ventilador de teto, revigorariam estas pessoas desanimadas. Um ou outro, é certo, iria espernear, reclamar. A mulher de casaco acordaria sobressaltada (provavelmente tossindo), e eu veria, enfim, alguém mudar de comportamento, transgredir, argumentar, gritar, "Ei, aqui não é lugar de cigarro!", “Onde está o doutor que vai me atender?”, "Preciso saber se meu processo contra o banco já andou!", "Minha mulher me traiu pela quinta vez, já é o momento do divórcio?", "Aqueles bonecos de mármore ainda estão atacando os meus crocodilos!".


Por falar em gritar, chegou um esquálido sujeito de óculos amparado por um homem que solta uns gritos ocasionais. Eu não me arrisco a dizer qual dos dois indivíduos vai se consultar, porque ambos aparentam estar muito doentes. É... pensando bem, talvez eu esteja mesmo num consultório psiquiátrico, apesar de nunca ter visto tamanduás na minha cama e também de já ter visto muito corno gritar de raiva e ciúmes, além de, em algum momento da vida, ter ouvido os berros que um lesado qualquer deu quando se deparou com a imensa fraude que é este mundo.


O pequeno Cristo de metal, com sua coroa de espinhos, continua ali, crucificado e preso pelas costas a uma parede com negrumes de bolor, muito bem combinada com o semblante opaco dos que esperam. O que me incomoda é que ninguém ainda se impacientou com as discrepâncias desta sala mofada, com o calor absurdo ou a com absurda falta de explicações, com os cacoetes desesperados ou com os esperados desrespeitos, com as feiúras naturais ou com as complacências neuróticas. Nenhum dos presentes ainda questionou o tempo perdido porque ninguém, e essa é a dura verdade, sabe muito bem o que quer. Temem o que está por vir, o modo como virá e, principalmente, o que será feito para minimizar os estragos caso o que venha, venha de maneira hostil; o que se conhece é apenas a ânsia de que o Grande Salvador (que nesse caso não é o Pai do Cristo galvanizado) surja trazendo o conforto das respostas certas.


Meus olhos se mexem e meus pensamentos solidificam opiniões. Vim aqui para ser avaliado, não para avaliar. Vai ver esse é o meu grande defeito, o motivo pelo qual estou nesta sala: por julgar sem conhecimento, por avaliar sem critério ou por supor sem necessidade. Quero abandonar esse vício silencioso, que secretamente me corrói. Mas, para ser sincero, não sei se aqui existe alguém capaz de deixar de lado seus sofrimentos mudos (um paradoxo no caso do que grita) para encarar uma batalha contra seus próprios medos. Um bom começo nesse sentido se daria através de um bate-boca com a cúmplice por toda essa atmosfera envenenada: a secretária – a maldita intermediária entre o problema e a solução, entre o calvário e a alegria, entre o Grande Salvador e o inferiorizado. Ela deve saber bem de sua importância para os enfermos, os prejudicados, e talvez isso justifique sua posição no pedestal da indiferença.


Além de indiferente, ela é bastante vulgar, e também feia, mas se mantém séria (juro que não são avaliações, mas simples constatação). Não está nervosa com a aglomeração no recinto, com os seres que chegam e se escondem atrás de obsoletas revistas de fofoca, de celebridades, de moda outono-inverno. E elas, a feiúra e a vulgaridade (que ali interagem harmonicamente), me incomodam, mas não a calma e a indiferença (que também se confundem), porque é bom ver como as pessoas conseguem se ausentar do teatro em que estão, com que facilidade desprezam responsabilidades e protocolos. É gostoso cheirar essa omissão, toda fantasiada de seriedade, e medir até onde nossa alma pusilânime vai.


Com aquele uniforme decotado ela deve realmente estar pensando que é atraente, que pode se desculpar através de uma descompostura cheia de falsa beleza. Contudo, três segundos de observação bastam para ver que nela tudo é estranho e maléfico, tudo é rude e descolorido, e que ela traduz bem o que essa sala é. Mas sua voz, a doce voz das funcionárias dos Grandes Salvadores, esta, pelo menos, deve prestar.


– Senhora, por favor, não é permitido fumar aqui dentro.


Nem isso.





quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Retrato como Género


Joaquim Bispo


Um retrato é entendido como a representação fidedigna, em duas dimensões, do retratado, e vive essencialmente da representação do rosto. É preciso que o desenho do contorno do rosto, e dos seus outros muitos elementos, represente fielmente o rosto vivo, como a luz do sol projecta o perfil de alguém numa parede lisa. Fica, portanto, excluída a caricatura, que faz lembrar o visado, pelo exagero de algumas características mais marcantes, mas não devolve a semelhança com o original. É preciso que pareça tão real como o verdadeiro, que pareça que “só lhe falta falar”. Que pareça vivo. O pintor consegue levar a mudez até à fronteira iminente da fala. «A vida do retrato é, no fundo, a razão última da semelhança com o original». Pretende-se suspender o tempo, manter o retratado no momento escolhido, muitas vezes num tempo que contém os afectos que se querem preservar da morte. Pretende-se construir um tempo que sobreviva à passagem do tempo. A fixidez do retrato constrói esse tempo eterno.



No entanto, essa fixidez inevitável é um obstáculo à representação infinitamente mutável da expressão, sendo esta a comunicação do que realmente é vivente – o espírito.
Então, a semelhança acontece quando a imagem consegue fixar alguma característica representativa do espírito do retratado? Para isso, seria preciso conhecê-lo previamente, quando não, a fidelidade só podia ser legitimada a posteriori.

O retrato pretende conservar a memória da pessoa amada ou admirada, preservar de si algo mais que o nome e a recordação, que não existirá para vindouros que não a conheceram. O nome é o seu sinal puro, o retrato o seu sinal mediado. O que é dado de si ao espectador é o que este traduz, pelas várias tabelas subjectivas que usa, condicionadas pelo fisiológico e pelo social. «Nunca se olha para um rosto com indiferença». O que se apreende é uma tradução tanto mais falsa quanto menos se conhecer do sujeito e do seu mundo, pessoal e de relação.

Ainda que se esteja atento a esta limitação, não se pode esquecer que o retrato é já, ele próprio, uma tradução feita pelo artista. Até que ponto ele conhecia o retratado, e que grau de virtuosismo detém que o apetreche para transmitir esse conhecimento de base, ou intuído aquando do trabalho de pintura? E que faceta apresentou o retratado ao pintor? Qual o verdadeiro retratado: o que se expôs à pose; ou aquele que só a si próprio se revela nos momentos de retiro íntimo?

O retrato, com todas estas limitações de rigor de comunicação, detém, no entanto, muito prestígio no prolongamento da memória e na revelação da personalidade retratada. «A grande dificuldade, qualquer que seja a concepção adoptada, vem da dupla natureza do referente: uma representação de uma representação». O rosto não é uma imagem estática e plena, «apenas um lugar onde tudo se inscreve e de onde tudo foge». Através da imensidão plástica da fisionomia, atravessada permanentemente por uma flutuação de formas, «o rosto esconde, reenviando para uma última instância “interior”». Qual será, então, o modelo autêntico?

A fidelidade à verdade do referente exige copiar o modelo invisível. «O trabalho do artista consistirá em restituir, numa imagem visível, o modelo invisível». Por isso, é preciso uma arte para olhar a superfície de um rosto e captar o invisível ao nível da face. «Retratar não é, afinal, representar uma representação, porque o rosto não é uma imagem, mas um complexo de sinais e de forças em movimento que o puxam ora para fora de si (…) ora para dentro de si, fixando-o numa figura estática, humana, ilusoriamente una». «A representação, (…) como cópia da relação que liga o modelo originário à cópia sensível, não busca a semelhança ou a analogia de formas, mas o lugar topológico da génese da semelhança». O alvo que o pintor aspira atingir não é «o conjunto de sinais expressivos visíveis, nem o fundo informe invisível, mas a curva que desenha o contínuo das pequenas percepções.» «O que dá a ver o retrato é a forma de uma força: a forma invisível, mas extraordinariamente pregnante, da intensidade com que um rosto nos olha e que o nosso olhar acolhe». «Não se trata já, para o pintor, de assemelhar, mas do devir», das forças e intensidades que ele captou e às quais deu forma.

O retrato é uma ferramenta apetecida e utilizada pelas personalidades que gravitam na área do poder ou a isso aspiram. Ajuda a criar uma subjectividade que sirva os intentos do retratado. As alegorias ou os símbolos a que é associado, os objectos que o rodeiam, assim como toda a organização do quadro, induzem a subjectividade pretendida.

O surgimento da forma abstracta, abolindo o referente exterior, não serve as funções de perpetuação de memória da singularidade do homem, nem as funções de engrandecimento e legitimação do homem de poder. A arte abstracta matou o retrato, que foi substituído pela fotografia.

A unicidade de um rosto, com as suas peculiaridades de origem interna e externa, pode verter a sua verdade no retrato, mas «o retrato não é o rosto – é o nome do rosto». O retrato constrói uma singularidade paradoxal: dá ao rosto uma identidade, mas descodifica-o para além do traduzível. Não nos esqueçamos de que se trata da representação de uma representação. O original, não múltiplo, não representação, não existe – a primeira imagem é já uma multidão.


Resenha do ensaio do filósofo José Gil:

«O Retrato» in José Gil, et al, A Arte do Retrato: Quotidiano e Circunstância, Lisboa, FCG – Museu Calouste Gulbenkian, 1999.





terça-feira, 18 de maio de 2010

Geraldo Geraldes – O Sem-Pavor


Joaquim Bispo



Pintura de Carlos Reis (pormenor) – Hotel do Buçaco




Com a morte do emir em Marraquexe em 1106, inicia-se um processo de enfraquecimento almorávida na Península Ibérica. A liderança militar no Garbe não é forte e os reinos cristãos tornam-se cada vez mais agressivos. Em 1147, Afonso Henriques conquista Lisboa, Santarém, Almada, Palmela e Sintra.
Entretanto, os Almóadas derrotam os Almorávidas em Marrocos e entram na Península, tentando unificar as taifas ali criadas e lutar contra os cristãos. São muçulmanos fundamentalistas de origem berbere que lutam por uma pureza maior da religião.
Em 1158, Afonso Henriques, a custo, toma Alcácer e, em 1159, Évora e Beja (esta apenas saqueada e aquela perdida em 1161), aproveitando uma momentânea fraqueza almóada e ignorando o tratado de Sahagún desse ano. Em Sahagún, os reis irmãos de Leão e Castela decidem qual é o espaço de cada um na conquista do território muçulmano: até Sevilha, seria para o rei de Leão; de Sevilha para lá, para o rei de Castela.

Em 1165, Geraldo toma Trujillo, bem para lá da zona de Badajoz.
Quem é Geraldo?: «nobre cavaleiro que serviu D. Afonso Henriques, mas de quem se afastou para se eximir a um castigo severo por actos condenáveis que praticara, indo, por isso, refugiar-se, com o bando de salteadores que formou e capitaneava, em território sob domínio islamita». Os seus homens eram: «moçárabes e moradores de Santarém». Os anos e anos de continuados combates nas zonas de fronteira incerta, produziram naturalmente homens desenfreados, mais habituados a subsistir de rapinas, do que de trabalho. Os bosques dos territórios disputados por cristãos e muçulmanos deviam estar repletos de «bandos de salteadores, provavelmente compostos de indivíduos de uma e outra crença, (...) guerreando indiscriminadamente cristãos e muçulmanos». Assolar campos e aldeias, rapinar e conquistar castelos para el-rei podia ser um modo de vida.

Ainda em 1165, tomou Évora, cidade muito importante e que Afonso Henriques tinha perdido quatro anos antes. «Decidiu empreender uma proeza que o acreditasse no conceito do monarca português para todo o sempre. Para isso planeou conquistar aos Mouros a opulenta cidade de Évora, empresa bem difícil e árdua. Foi um feito extraordinário, especialmente para um bando de homens não ligados a um exército estruturado. O coração de Afonso Henriques abriu-se. Se alguma animosidade tinha para com Geraldo, como conta a lenda, aqui lhe perdoou. Fê-lo alcaide de Évora, que foi povoada por cristãos e nunca mais voltou a mãos muçulmanas.

Em fins de 1165 ou início de 1166, tomou Cáceres e depois, imparavelmente, Montanchez, Serpa, Juromenha, Alconchel e ainda «Mourão, Arronches, Crato, Marvão, Alvito e Barrancos». Em 1167 terá tomado Elvas e Monsaraz e em data incerta: Santa-Cruz e Monfrag, na província de Cáceres.

A estratégia de conquista desenvolvia um plano de surpresa, atacando cidades longe duma linha lógica de progressão: de Trujillo, saltou para Évora, depois para Cáceres e seguiu em ziguezague inesperado, a que se juntava o processo do ataque: «avançava sem ser apercebido na noite chuvosa, escura, tenebrosa e, (insensível) ao vento e à neve, ia contra as cidades (inimigas). Para isso levava escadas de madeira de grande comprimento, de modo que com elas subisse acima das muralhas da cidade que ele procurava surpreender; e, quando a vigia muçulmana dormia, encostava as escadas à muralha e era o primeiro a subir ao castelo e, empolgando a vigia, dizia-lhe: “Grita, corno tens por costume de noite, que não há novidade”. E então os seus homens de armas subiam acima dos muros da cidade, davam na sua língua um grito imenso e execrando, penetravam na cidade, matavam quantos moradores encontravam, despojavam-nos e levavam todos os cativos e presas que estavam nela».

Olhando para um mapa das conquistas de Geraldo, percebemos que um dos objectivos que ele tinha, era isolar Badajoz, a forte capital da taifa com o mesmo nome, cortando-lhe os abastecimentos e os apoios vizinhos. Mas Geraldo não estava apenas a apoquentar os muçulmanos; as suas conquistas penetravam profundamente no espaço de conquista definido no tratado de Sahagún e eram um perigo fortíssimo de isolar o rei de Leão.
Então, em 1168 «Fernando Rodriguez de Castro, cunhado do rei leonês», dirigiu-se a Marrocos onde passou cinco meses junto do Califa. «Por fim conseguiu uma subvenção mensal e firmou um pacto ofensivo-defensivo, o qual logo foi confirmado por Fernando II. Este comprometeu-se, assim, a que quando tomasse conhecimento de uma expedição de cristãos dirigindo-se a terra muçulmana, saísse a repeli-los sem perda de tempo. Talvez pedisse também o rei leonês o auxílio de tropas muçulmanas».

Em Maio de 1169, Geraldo atacou Badajoz e tomou a cerca, mas a guarnição refugiou-se na alcáçova. Então Geraldo pediu ajuda a Afonso Henriques para sitiar a alcáçova. O perigo era grande para Leão e para os muçulmanos. A notícia chegou célere a todos. Fernando II enviou uma expedição, que chegou a tempo de evitar a conquista da cidade pelos Portugueses. Estes ficaram entre dois fogos: os Almóadas na alcáçova e os Leoneses a cercarem a cidade. Os Portugueses tentaram escapar a esta situação melindrosa, fugindo precipitadamente, mas um pormenor deitou tudo a perder: «E aconteceu que o cabo do ferrolho não ficara bem colhido ao abrir das portas, e o cavalo, assim como ia correndo, topou nele com a ilharga de guisa, (e D. Afonso Henriques) se feriu muito: e quebrou a perna a el-rei (...). Nisto, o cavalo que ia ferido, não podendo mais suster-se, caiu com el-rei sobre a mesma perna, e acabou-lha de quebrar de todo, de maneira que os seus não puderam mais alevantá-lo nem pô-lo a cavalo».

Capturado com Geraldo pelos Leoneses, esteve Afonso Henriques dois meses prisioneiro do rei de Leão, seu genro, numa situação de extrema fragilidade política, mas este, cavalheirescamente apenas terá exigido: «Restitui-me o que me tiraste e guarda o teu reino». Assim, Afonso Henriques teve que devolver os condados galegos de Límia e Toronho e todas as terras da Extremadura espanhola, da margem esquerda do Guadiana. Ficava assim desfeita a atracção da Galiza e, respeitando esse pacto, só restava a Afonso Henriques avançar para Sul, através de território muçulmano, se quisesse aumentar o seu reino.
Também Geraldo, capturado, teve que devolver a Fernando II as terras «da conquista de Leão» e a Fernando Rodriguez de Castro, as terras «castelhanas» de Montanchez, Trujillo, Santa-Cruz e Monfrag.


Fontes:

ASALA, Ibn Sahib. História dos Almóadas in LOPES, David. «O Cid português: Geraldo Sempavor», Revista Portuguesa de História, Tomo 1, Coimbra, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, Instituto de Estudos Históricos Dr. António de Vasconcelos, 1940.

GONZÁLEZ GONZÁLEZ, Júlio. História General de España y América, 29 Tomos, Tomo IV, La España de Los Cinco Reinos (1085-1369), 2.ª edición, Madrid, Ediciones RIALP,S. A., 1990.

HERCULANO, Alexandre. História de Portugal, I, in AMARAL, Diogo Freitas do. D. Afonso Henriques – Biografia, Amadora, Bertrand, 9.ª edição, 2000.

SERRÃO, Joel (dir.). Dicionário de História de Portugal, 6 vols., vol. II, Porto, Iniciativas Editoriais, reed., 1979.





quinta-feira, 13 de maio de 2010

José Guilherme Vereza

Zé Batista era um centro-avante guerreiro.
Acreditava piamente que seu destino estava nas mãos
divinas e tinha uma fé inabalável de que seus gols
não vinham de seus pés, mas dos desígnios lá de cima.

Entrava em campo, três vezes sinal da cruz.
Perdia gols, benzia-se, beijava medalhinha.
Fazia gols, apontava para os céus de olhos fechados,
ajoelhava e levantava a camisa escrita:
Não fui eu, foi Ele.

Uma tarde, final do campeonato,
o jogo matava a torcida num zero a zero eletrizante.
Foram nove gols absurdamente perdidos por Zé Batista.
Bolas na trave, chutes a gol aberto, pênalti para fora,
goleiro defendendo com a ponta dos dedos,
bico da chuteira, sustos à queima roupa.

Zé Batista corria de um lado para o outro na área,
estonteando os zagueiros, procurando a melhor colocação.
Enquanto isso, rezava ofegante e baixinho.

Nos seus lábios, Pai Nossos, Aves Marias, Salves Rainhas.
É agora, meu Deus, é agora, meus santos,
tem que ser agora, minhas nossas.

O tempo vai passando, a paciência se esgotando.
Paciência da torcida, do técnico, do próprio Ze Batista,
que jura, por um misero golzinho providencial, voltar a ser
o coroinha papa hóstia,que nunca deveria ter deixado de ser.

E tome de promessas e gols perdidos. Promete celibato, subir
escadarias de joelhos, jejum de uma semana, churrasco nunca mais.
E nada do jogo sair do zero a zero desclassificante.

Um minuto de desconto. Última volta do ponteiro.
Bola levantada na área, Zé Batista sobe mais que o líbero,
a bola bate na sua nuca, goleiro vencido, toca na trave,
o zagueiro tira em cima da linha,
volta na canela do Zé, que chuta por instinto, meio torto,
meio mascado, o goleiro escorrega e sai catando a maldita,
que entra no gol como uma galinha tonta e fugidia.

Zé Batista em transe salta mais que o próprio corpo,
braços e pernas no ar fazendo um xis.
E desce já de joelhos, olhos cerrados,
dedos apontando para os céus pelo milagre alcançado.
E solta a voz:

- PUTA QUE O PARIU, SENHOR!