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sábado, 5 de dezembro de 2009

O Natal de Josefa


(A partir de uma ideia de Robert A. Heinlein)

Joaquim Bispo

Nesse ano, Josefa meteu-se num autocarro Expresso e foi passar o Natal à terra – uma aldeia do interior beirão. Preferiu não levar o carro e ir tranquilamente sentada a ver a paisagem e a recordar os tempos de faculdade, quando vinha à terra todos os quinze dias. Era o primeiro Natal que ia passar sozinha. O marido morrera havia cinco anos e este ano o filho casara e fora passar a quadra com os sogros. Sentia-se um pouco triste e resolvera aceitar esse estado de espírito, interiorizando-o e cultivando-o com recordações dos tempos felizes. Por isso viera passar o Natal à terra.
A casa que ali mantinha, e aonde ia umas três ou quatro vezes por ano, pareceu-lhe mais silenciosa que habitualmente. Arejou-a, varreu-a e deu-lhe uma arrumadela. Cada móvel, cada divisão lhe traziam à memória um episódio conjugal, uma piada do filho. Fez um chá, comeu umas tostas com compota e deitou-se. A cama parecia molhada, de tão fria. Embrulhou os pés num xaile velho e demorou ainda um bom bocado a adormecer.
O dia seguinte, véspera de Natal, amanheceu escuro e frio. Josefa foi à mercearia comprar leite, pão e umas coisas para o jantar. O almoço foi frugal e saiu a seguir, para tomar um descafeinado. Não encontrou ninguém conhecido, só gente nova. Em tempos, não dava um passo sem encontrar alguém de família.
Voltou para casa, sem saber como ocupar o tempo. Se calhar, não tinha sido boa ideia vir este ano à terra! Deambulou pelas divisões silenciosas, a olhar as fotografias cinzentas: aqui jovem, com o marido, no casamento dum primo; ali sorridente com «os seus homens» numa visita a Cáceres; mais além o pai aprumado numa farda do tempo da tropa.
Lá fora, começara a cair uma chuvinha miúda. Josefa ficou um bocado a olhar a rua vazia e a ver as gotículas de chuva a formarem pequenos veios na vidraça. Assim eram os seus dias a escorrerem, não sabia para onde.
Cozeu umas batatas com grelos e uma posta de corvina. Há dez, quinze anos, teria feito também uma boa sopa de feijão com hortaliça, uma perna de borrego e umas rabanadas. Agora, tudo lhe fazia mal. Comeu o peixe com pouca vontade. Não lhe sabia a nada. Deixou metade da posta.
Acendeu o lume na lareira da cozinha e sentou-se a olhar as línguas das chamas que consumiam mansamente os cavacos com que as ia alimentando. Assim a sua vida se ia consumindo, placidamente, sem dramas, sem objectivo. Aguentou-se por ali a cabecear, a fazer horas para a missa do galo.
Junto ao adro, o cheiro a madeira queimada, tão familiar, fê-la lembrar-se dos antigos natais, quando ir conviver e aquecer-se junto à fogueira de Natal era uma festa. Passou pelo bando de rapazes que, indiferentes à chuva miudinha e gelada, mantinham uma algazarra regada a vinho, junto aos madeiros em chamas, entrou na igreja logo reconhecida, e sentou-se junto à coxia.
Lá estavam, parados no tempo, os santos da sua meninice – Santo António, a Sra. das Dores, S. Sebastião, o Coração de Jesus. Durante toda a missa foi recordando alguns episódios ligados a esta igreja da sua terra – o crisma, o casamento da tia Matilde, o baptizado do primeiro sobrinho, um dos primeiros afogueamentos quando reparou que um rapaz mais velho olhava para ela de uma forma especial.
Quando o celebrante levantou a hóstia, Josefa sentiu-se muito desamparada. Intimamente implorou:
– Sejas tu quem fores, ajuda-me; ajuda-me, por favor!
A missa acabou. Josefa ficou ainda um pouco, ajoelhada, em recolhimento. Aproveitando a porta aberta pelas pessoas que iam saindo, entrou na igreja um gatinho ainda pequeno, molhado e enregelado, a abrigar-se do tempo hostil. Era malhado de preto e branco, parecia confuso e miava debilmente, entre o receio e o queixume. Foi caminhando pela coxia central, enquanto o seu miado se tornava mais suplicante, sobressaindo por cima da vozearia lá de fora. Josefa ouviu-o, mas, muito imersa no seu espírito, demorou a surpreender-se. Quando olhou, o gatinho parara a miar e a olhar para ela. Josefa ficou paralisada a olhar para aqueles olhos azulados e vítreos, como se lhe custasse a perceber o que via. Depois, pegando no gatinho, aconchegou-o contra o peito, por dentro do sobretudo, e desatou a soluçar convulsivamente. As lágrimas rebentaram incontroladamente, como se estivessem há muito represadas.
Pouco depois, o gatinho, confortado pelo calor do corpo de Josefa, começou a ronronar. Josefa olhou em volta. Cristo crucificado estava desfalecido no seu martírio, a Sra. das Dores e S. Sebastião olhavam os céus. Deu com os olhos nos olhos do Menino Jesus, que estava ao colo de S. António e sorria. Pareceu-lhe que afastou o olhar, quando ela o fixou, e que a olhava, se ela desviava o olhar. Entretanto, alguém tocou no braço de Josefa:
– Então vizinha, deixe lá isso, que hoje já é dia de Natal. Venha comigo que eu também vou para os seus lados.
Lá foi Josefa, sem ouvir a conversa da vizinha, com o gatinho junto ao peito, tão apaziguada como nos dias felizes, tão realizada como quando regressara a casa com o seu filho acabado de nascer, ao colo.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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