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domingo, 8 de novembro de 2009

A dança dos imortais

Volmar Camargo Junior





Um crime aconteceu numa cidade provinciana. Os policiais responsáveis pelo caso, Inspetor Magalhães e Inspetor Barbosa, estavam na delegacia, fazendo plantão como sempre. Tentavam deduzir algo a partir dos poucos fatos que tinham. Coçando a garganta, o policial Magalhães preparou-se para reler o primeiro boletim de ocorrência, lavrado por ele próprio na noite do crime.

— Recapitulando: “Orlando Nogueira, o Orlandinho assistia ao seu programa de televisão favorito quando ouviu à campainha soar das vezes – o segundo toque mais longo que o primeiro. Reconheceu o código, embora houvesse muitos dias que o autor, digo, a autora, não comparecia à sua casa. Assim que destrancou a porta, a amiga, Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, adentrou muito aflita no apartamento. Assim que entrou, disse estas exatas palavras: “Eles... querem... me... cal... argh!” Só então Orlando percebeu que Mighellina tinha as mãos, as costas da jaqueta de couro e o lado esquerdo do pescoço manchados de vermelho vivo. Sem aviso prévio, desfaleceu com os olhos vidrados. Estava morta.”
— Mas que bela porcaria, Magal! Precisava desse drama todo? A delegada vai te encher o saco. Bom, continua teu raciocínio.
— Obrigado. A moça não tinha inimigos, não era dada a hábitos escusos, “Um doce!”, disse o tal Orlando. Também não fazia nada de extraordinário. Era uma pobre moça rica, que gostava de romances de terror e que até se arriscava ela mesma a escrever alguns.
— Mas isso tem alguma importância? – perguntou o Barbosa.
— Ora, tem toda – respondeu o Magalhães - Essa moça apareceu moribunda no apartamento do amigo, e disse esta frase “Eles... querem... me... cal... argh!”. Alguém queria calá-la.
— E como concluiu que alguém queria calá-la? Ela só disse “cal...”. Talvez fosse dessas piadinhas em inglês... “They want to me telefonar”. Sabe aquela: What is um pontinho amarelo vendo a esposa transando com o amante? Um Corn-o-manso!
— Puxa, Barbosinha... Às vezes eu tenho vontade de anotar o que você diz.
— Agora está sendo cínico... Então ela era escritora. E daí?
— Sim. Escrevia muito bem, a propósito.
— Conseguiu algum livro dela?
— É lógico. Quer dizer, talvez não seja bem o que você está esperando.
— Por quê?
— Ela era defensora da publicação on-line. Tinha uma ONG e tudo, um lance muito esquisito: “Biblioterrorismo”. Os seus livros estão disponíveis na internet, de graça. O último tá aqui nesse site.
— Bah! Caso solucionado: quem mandou matá-la foi alguém grande do mercado editorial!
— Acho que não é tão simples assim, Barbosa. Dá uma lida nisso aqui. – disse, Magalhães, levantando-se de seu birô, apontando com a mão espalmada para o monitor do PC. – Enquanto isso, vou fazer um café. Tá a fim?
— Chá verde, para mim. Café tem me dado uma azia...
— Ok! Chá verde para o Inspetor Barbie, que está de dieta. Veadinho...
— “Barbie” é a @#$%¨&;* que te pariu!

Enquanto Magalhães foi até a cozinha da delegacia, Barbosa acessou o link. Havia uma lista de quase trinta romances de autoria da tal moça, o que o deixou embasbacado. Escolheu o mais recente, intitulado “A Dança dos Imortais”. Conhecido por suas técnicas de leitura dinâmica, quase sem piscar, Barbosa leu ininterruptamente três capítulos do romance. Tinha um estilo notável, muito claro e, ao mesmo tempo, dotado de uma impecável correção gramatical. O romance de trezentas e treze páginas digitalizadas tinha por enredo a vida de um vampiro carioca, ambientada no que hoje é o centro velho do Rio de Janeiro, em finais do século XIX. Foi então que, como diz o ditado balzaquiano, a ficha caiu para o policial. No teclado, pressionou simultaneamente as teclas CTRL+L, e no campo localizar escreveu

“Eles querem me calar”

— Magal – gritou o Barbosa ao colega quando este trazia as duas xícaras fumegantes – Você leu o último romance da dita cuja?
— Qual? O do índio guarani que seqüestrou, torturou, matou e esquartejou o José de Alencar?
— Não, esse é o penúltimo. Estou falando deste aqui, o do vampiro.
— Esse não estava aí. – disse Inspetor Magalhães, pulando curioso diante do monitor, com os olhos arregalados. — Eu tenho certeza, olhei a página na mesma noite do crime... Eu até dei uma lida, e me admirei: a guria sabia escrever.
— Ah, é? E como ela deixou passar isso aqui?

O policial Barbosa selecionou o seguinte trecho:

(...) então, como uma tempestade, os homens vestido de preto começaram a atirarem contra a criatura, que ficou encurralado. Erguendo o punho serrado em direção ao holofote forte que queimava seu rosto com a luz intensa, o ser monstruoso proferiu a plenos pulmões, com um tom de voz gutural, demoníaco:
— Eles querem me calar! Mas eu sobreviverei! Mesmo que eu seje silenciado como da vez passada, minha obra ainda deixará a marca dela! Minha obra revelará a verdade sobre os Imortais.
E tendo dito estas palavras, uma nova e longa saraivada de tiros de metralhadora abafaram a gargalhada horrenda da monstruosa criatura meia homem, meia morcego. (...)

— E então, o que você acha?
— Eu acho que esse trecho precisa ser reescrito com urgência... onde já se viu? “Vez passada”, “marca dela”! Nem eu escrevo tão mal!
— Você tem razão, mas não estou falando disso. Você não acha muita coincidência que a mulher tenha morrido como uma vítima de...
— De um vampiro? Tá doido? Que tipo de policial você é, Barbosa?
— Do tipo que entende alguma coisa de literatura.
— Pronto. Falou o especialista.
— Acompanha comigo: pelo que eu li desse romance, o personagem principal é um certo Joaquim Maria, mulato, filho ilegítimo de uma escrava negra e um comerciante carioca que conheceu uma cigana espanhola chamada Capitu. Essa cigana, na verdade, era uma vampira, que o seduziu usando seus encantos, transformando-o também num vampiro. No terceiro capítulo, o tal Joaquim Maria tornou-se um escritor famoso. Não pude resistir, e pulei direto para o último capítulo, onde encontrei a frase que a Mighellina falou: o Joaquim Maria criou uma sociedade de vampiros-escritores que, na verdade, governam toda a indústria cultural no Brasil: os Imortais. Ele, o fundador, é considerado o maior escritor de todos os tempos; e não é para menos: seu talento é devido a ele ser um vampiro, e os outros todos, para se tornarem “Imortais” da tal sociedade secreta, precisam ser transformados também. Não que todos tenham talento... No fim das contas, o Joaquim percebeu o quanto seus lacaios se tornaram escrotos, e se arrependeu. Por isso é que ele decide contar toda a verdade para o mundo, dando uma entrevista a uma jovem escritora que abomina as práticas mercadológicas dos Vampiros de Fardão. Mas, antes que ele concedesse tal entrevista, os paus-mandados dos sanguessugas o encontram, o perseguem e, por fim, acontece aquela cena que eu não terminei de ler porque tu chegou com o meu chá. Ufa!

— Barbosa... essa é a história mais ridícula que eu já ouvi. Eu achei que a tal Mighellina fosse uma baita escritora. Rapaz, até a minha filha de doze anos tem idéia melhor pras aventuras de RPG dela.
— Magal! Magal! Presta atenção, meu filho! Essa moça, a tal defunta, é um embuste! Ela é uma “laranja intelectual”. Você não viu o jeito que ela escreve? É um horror! Ela até tem as idéias, mas quem escreve os romances dela de verdade é outra pessoa.
— Mas quem?

Então, ouviu-se um barulho metálico, uma forte pancada vinda detrás da porta que levava à sala do Instituto Médico Legal, contíguo à delegacia. E de novo. E de novo. E na quarta vez, a porta de aço voou contra a parede oposta. Todas as luzes da delegacia apagaram-se. Um guincho medonho foi ouvido em todo o quarteirão onde ficava a delegacia.

No dia seguinte, a faxineira desmaiou diante da porta da sala onde trabalhavam os inspetores Magalhães e Barbosa. Havia apenas restos de corpos humanos, papéis em desordem, o monitor do PC esmigalhado e, por todas as paredes, forro, cortinas, birôs, arquivos, cadeiras, soalho. E sangue, muito sangue.

A gaveta onde, até o início da noite anterior, estava o cadáver etiquetado como sendo de Mighellina Fonseca de Alcântara e Silva, foi encontrada vazia. Ao seu redor, havia marcas de pegadas, como se fossem de um enorme animal bípede, que o rapaz da perícia, formado em biologia, alegou serem muito parecidas com as de um morcego.





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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

todo dia 08


1 comentários:

Achei bacana os diálogos. Não sabia que finais de contos seriam tão breves como esse, você entendeu?Falo isso porque estou tentando escrever contos e um livro e ultimamente ando lendo materiais que tenham técnicas para escrever e muitos contos.Gostei!

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