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quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O troféu

Volmar Camargo Junior


Era manhã nevoenta do mês de Pawqar Huaraq, anunciando o início do outono e a proximidade do Festival do Ramo de Flores. Os despojos da batalha cobriam a planície. Diante do campo de soldados abatidos estavam os muros da última cidade do povo que chamava a si mesmo unancha. Os guerreiros vitoriosos do exército do Tahuantinsuyo levantaram-se para glorificar Inti, o Deus-Sol, pelo sucesso no embate. Na Terra, o homem que os comandara com presteza na investida rápida e brutal – o jovem sinchi Huamán Acachi – preparava-se para concluir o que havia começado na noite anterior.

A população resumiu-se a um pequeno grupo, mulheres e homens ou muito velhos, ou jovens demais. Assim que os raios do Sol transpuseram os muros, os vencidos, armados com aquilo de que dispunham, estacaram entre o general e seu objetivo. Atrás deles estava a entrada da huaca – o majestoso mausoléu de seus antepassados. Todos sabiam que, mesmo derrotado o inimigo, conquistado seu território e dominado o povo, faltava ao Imperador Inca ainda um troféu.

Não haveria mais mortes. A vila estava tomada, e sangue desnecessário não era do agrado de Inti. Em pouco tempo, aquele seria o lar para uma boa família cusquenha. O líder guerreiro caminhou decidido de encontro ao povo, secundado por numeroso batalhão. Era um bom militar, mas não teria chegado à posição de comando apenas pela excelência em manusear armas. Sua notoriedade devia-se à perspicácia e ao talento para a diplomacia. Enquanto caminhava, procurou recordar tudo o que sabia a respeito daquelas gentes.

Eram herdeiros distantes do sangue e da cultura Nazca, extinta antes mesmo de Manco Capác emergir das águas do Lago Titicaca. Não eram grandes combatentes, mas sempre souberam defender-se. Isso, para Huamán Acachi era o ponto mais importante: o comando da cidade não era do guerreiro, mas do sacerdote. Entre aquelas pessoas amedrontadas, não foi difícil identificar uma tão singular. A surpresa, para ele, foi concluir que o lugar do curaca, o líder político e religioso da aldeia, era de uma mulher.

A sacerdotisa tinha a cabeça e as mãos adornadas com objetos de prata. Trazia ao peito um colar feito de minúsculas conchas marinhas, donde pendia a insígnia representando o que, para ele, era o primitivo Deus-Jaguar. Era uma matrona forte, habituada igualmente ao serviço campesino como aos ofícios de curandeira, parteira, adivinha e conselheira. Sozinha, ofereceria resistência ao imponente sinchi se este resolvesse entrar sem ajuda. Contudo, não aparentava ser hostil ao invasor.

Andando até distância favorável, Huamán ordenou que seus homens parassem. Ampla praça separava os dois grupos. Sem precisar qualquer aviso, ambos os líderes caminharam um na direção do outro. O militar inca começa a falar.

— Há mais a ganhar que a perder recebendo aqui o Tahuantinsuyo. É uma boa cidade. Não há com o que se preocupar, desde que as coisas sejam mantidas em ordem como sempre foi feito, sacerdotisa.

— E, em troca, o que deseja o Filho do Deus-Sol?

— O Imperador exige aquele que jaz no interior da huaca. Será a prova de que os unancha são submissos a Ele.

— Que será de nós se nos opusermos?

— Serão todos levados a Cusco, como escravos. Os homens serão submetidos ao trabalho, e as mulheres à prostituição. As crianças serão educadas em ayllu honrados para servir ao Imperador.

— Não temos escolha, então?

— Não, sacerdotisa. É a vontade do Tupac Inca Yupanki.


A mulher silenciou por um instante. Seu olhar percorreu os rostos apreensivos, sobretudo dos anciãos. A eles, devolve a cumplicidade do sentimento. Calados, lentamente os vencidos abrem caminho até a abertura negra da pirâmide de pedra e adobe. Sem olhar para o combatente, diz:

— Pode vir agora, general. Mas terá de vir sozinho.

Com a cabeça, Huamán sinaliza, certificando-se de que seu imediato estaria de prontidão a qualquer sinal de perigo. Sob a observação pesada dos moradores, o jovem comandante toma um archote da mão de um menino e adentra no negrume da tumba.

A passagem era estreita e tão escura que, mesmo com o archote aceso, era impossível ver mais que o globo de luz e a mão que o segurava. O ar tornava-se rarefeito à medida que desciam. A luz começou a diminuir até, sem razão aparente, extinguir-se por completo. Huamán abriu a boca para falar quando tudo ficou iluminado. Não estavam mais no corredor apertado, mas em uma cripta em formato circular, muito ampla, tanto nas laterais quanto para o alto. Espantou-se ao perceber a estranheza do lugar.

No alto do teto havia um orifício por onde entrava a claridade. As paredes eram ocupadas por formas humanas postas em pé: eram múmias, inúmeras, antigas, dispostas como se os estivessem observando. O chão da cripta foi construído como o bojo de uma tigela, e era coberto inteiramente por placas prateadas, em uma suntuosidade digna de um soberano. Observando melhor, achou o chão mais semelhante a um escudo convexo. Ao centro, no ponto mais elevado, havia um trono. Para lá se dirigiu o comandante.

Esperando para tomar o troféu do Imperador e prontamente voltar para o centro da civilização, Huamán teve um choque ao chegar ao pé do trono. Aquele que, no seu entender, deveria ser uma múmia, estava vivo. O pavor e a descrença dominaram-no assim que pôs os olhos na criatura. Não conseguia, contudo, desviar o rosto, tentando em vão associar aquilo a qualquer coisa que conhecesse. O ser moveu em sua direção um braço cuja extremidade não tinha dedos. O general recuou, andando de costas. O ocupante do trono levantou-se. O corpo, delgado como o de uma serpente, não tinha pernas, mas em seu lugar, um único tentáculo como a cauda de um lagarto. Os braços, longos e finíssimos, alcançavam o chão. A cabeça era grande, muito maior que a de um homem. Os olhos negros, oblongos como os de um felino, eram absurdamente grandes. O sinchi, transtornado, gritou.

Huamán sentiu-se invadido por sensações nunca experimentadas. O chão espelhado da cripta envolvia-os em uma luz fantasmagórica. Quando não conseguia ver mais que a silhueta da criatura, sentiu a presença da sacerdotisa, de quem havia esquecido completamente. O golpe rápido e preciso de uma lâmina em suas costas não lhe deu tempo para reagir. Paralisado, caiu de joelhos diante do ser extravagante, forçado pela dor e por uma fraqueza repentina. Abriu os olhos, estava rente ao chão vermelho vivo. No reflexo sangrento, o guerreiro viu seu próprio rosto. Ia desmaiar. De gatas, imóvel, trêmulo, sentiu tentáculos gelados caminhando por seu dorso em direção ao corte aberto. Num ímpeto, ele urrou com ferocidade e arremessou o corpo para cima, ficando novamente em pé. Com o movimento brusco, conseguiu desequilibrar a mulher, que acabou derrubando a lâmina que segurava. O guerreiro saltou em direção à adaga. No chão, tomou-a, e com uma estocada precisa atinge o coração da sacerdotisa. Levantando-se, procurando forças para ignorar a dor, lançou-se contra o monstro, atravessando o espaço entre eles com tanta rapidez e fúria que o golpe trespassou o corpo delicado da criatura. Um jorro de sangue escuro banhou-lhe as mãos e o rosto. O ser grotesco caiu pesadamente no soalho metálico. Ainda tomado por selvageria desconhecida, o sinchi começou a desferir golpes com ambos os punhos contra o crânio do oponente, e não parou antes de fazer do rosto da criatura uma massa deformada de sangue, pele e ossos.

Sem olhar para trás, o conquistador inca apressou-se na direção do corredor escuro. A distância tornou-se quase infinita pela angústia em afastar-se daquela tumba. Outra vez vê a luz, não a luminosidade morta de espelhos prateados, mas a quente e acolhedora do Sol.

Porém, o cenário externo não era menos aterrador. A luta eclodiu entre os inca e os unancha. Fora este ou não o plano da sacerdotisa, a demora dos dois no interior da pirâmide pode ter alterado os ânimos de inimigos que estavam tão próximos e sem uma liderança que impedisse o confronto. O resultado foi o que se pode imaginar: os soldados do Tahuantinsuyo defenderam-se até o limite de seu bom senso, mas rapidamente, passaram a agressores e terminaram com a revolta do modo mais eficaz. Não restou nenhum rebelde vivo.

Chegou a noite do primeiro dia do outono. O sinchi Huamán Acachi ordenou que os muros, as casas, a pirâmide, os cadáveres, tudo naquela cidade fosse destruído. Sua intenção era não deixar em pé uma só pedra que tivesse sido movida por aquele povo. Depois daquela noite, ninguém jamais soube que eles existiram.




Vocabulário


Pawqar Waraq – quarto mês do ano (o primeiro equivale ao mês de dezembro). É a entrada do outono.

Unancha – termo no idioma aymara para “escudo”. Os unancha (se tivessem existido) falariam um dialeto de tal idioma.

Tahuantinsuyo – O Império Inca. Em quíchua: “Os quatro cantos do mundo”.

Inti – O Deus-Sol, principal divindade do panteão Inca.

Sinchi – Líder guerreiro.

Huamán Acachi – Personagem histórico que existiu realmente, parente (irmão) de Tupac Yupanqui. A palavra huamán em quíchua significa falcão.

Huaca – local de devoção dos povos andinos.

Inca – Dispensa apresentações.

Cusco (Cusquenha) – Capital do Tahuantinsuyo.

Nazca – Cultura pré-incaica, localizada ao sul do território peruano atual, cujo apogeu foi por volta de 500 d.C.

Manco Cápac – O primeiro rei da cidade de Cusco, segundo o mito, de origem divina (Filho de Inti, o Deus-Sol).

Curaca - chefes dos clãs ligados ao Império. Um equivalente é cacique.

Jaguar (deus-) – uma divindade zoomórfica, tendo equivalentes em muitas culturas andinas.

Ayllu – equivalente a clã.

Tupac Inca Yupanki – o 11º Imperador Inca (1461 a 1493).





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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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