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sábado, 17 de outubro de 2009

Carta de Cristóvão Colombo anunciando o descobrimento da América

Cristóvão Colombo
Trad.: Henry Alfred Bugalho

Senhor, porque sei que terá prazer na grande vitória que Nosso Senhor me concedeu em minha viagem, escrevo-lhe esta, pela qual saberá como em 33 dias passei das ilhas de Canária para as Índias, com a armada que os ilustríssimos rei e rainha nossos senhores me concederam, onde encontrei muitas ilhas povoadas com gente sem número; e de todas elas tomei posse por Sua Alteza com pregão e bandeira real estendida, e não me contradisseram.

À primeira que encontrei, nomeei San Salvador (ilha Watling) em comemoração a Vossa Alta Majestade, ao qual maravilhosamente tudo isto se deve; os índios a chamam de Guanahaní; à segunda pus o nome de ilha de Santa Maria de Conceição (Cayo Rum); à terceira de Fernandina (Isla Long); à quarta de Isabela (Isla Crooked); à quinta de ilha Juana (Cuba), e assim a cada uma um novo nome.

Quando cheguei à Juana, segui pela costa dela em direção ao poente, e a achei tão grande que pensei ser terra firme: a província de Catayo. E como não encontrei vilas e povoados na costa do mar, excetuando pequenas povoações, com gente com a qual não se podia falar, porque logo fugiam todos, andava eu adiante pelo dito caminho, pensando em não errar grandes cidades ou vilas; e, a cabo de muitas léguas, visto não haver novidades, e que a costa me levava a setentrião, contrário à minha vontade, porque o inverno já estava encarnado, e eu tinha o propósito de ir ao austro, e também o vento me deu adiante, decidi não aguardar mais, e retornei até um porto assinalado, de onde enviei dois homens por terra, para saber se havia rei ou grandes cidades. Caminharam por três jornadas, e encontraram infindas povoações pequenas e gente sem número, mas não coisa de regimento; por isto voltaram.

Eu havia aprendido muito com outros índios, que já havia dominado, que esta terra era uma ilha, e assim segui a costa ao oriente cento e sete léguas até onde acabava. De onde vi outra ilha ao oriente, distante desta dezoito léguas, à qual logo pus o nome de a Espanhola e fui para lá, e segui a parte setentrional, assim como de Juana ao oriente, 188 grandes léguas por linha reta. Juana e todas as outras são fertilíssimas em grande grau, e esta ao extremo. Nela, há muitos portos na costa para o mar, sem comparação, que eu saiba, a outros entre os cristãos, e rios fartos, bons e grandes, que são maravilhosos. Suas terras são altas, e nela há muitas serras e montanhas altíssimas, incomparáveis às da ilha de Tenerife; todas belíssimas, de feições, e todas acessíveis, e cheias de altas árvores de mil espécies que parecem chegar ao céu; e ouvi dizer que jamais lhes caem as folhas, segundo pude entender, pois as vi tão verdes e belas como são em maio na Espanha, e estavam floridas, com frutos maduros, ou em outros estágios; e, no mês de novembro, cantava o rouxinol e outros passarinhos de mil espécies por ali onde eu andava. Há palmeiras de seis ou oito tipos, que são admiráveis de ver, pela bela deformidade delas, assim como há outras árvores, frutos e ervas. Nela, há maravilhosos pinhais e vastíssimas campinas, e há mel, muitos tipos de aves e frutas as mais diversas. Nas terras, há muitas minas de metais, e há gente em número estimável. A Espanhola é maravilhosa; há serras, montanhas, várzeas, campinas, e terras belas e férteis para plantar e semear, para criar gados de todas as sortes, para edificação de vilas e povoados. Só se crê nos portos de mar daqui ao vê-los, e nos rios vários e grandes, e nas águas salubres, a maioria dos quais traz ouro. Há grandes diferenças nas árvores, frutos e ervas desta e as de Juana. Nesta, há muitas especiarias, e grandes minas de ouro e de outros metais.

As gentes desta ilha e de todas as outras que encontrei e das quais tive notícia, andam todas desnudas, homens e mulheres, assim como as mães os parem, ainda que algumas mulheres se cubram num único lugar com uma folha de erva, ou uma coberta de algodão feita para isto. Eles não têm ferro, nem aço, nem armas, nem palavra para isto, não porque não sejam gente de boa constituição e de bela estatura, mas porque são medrosos ao extremo. Não têm outras armas, excetuando armas de canas, quando estão com a semente, nas quais põem no fim um palito agudo; e não ousam usar delas; pois muitas vezes ocorreu de eu enviar à terra dois ou três homens a alguma vila, para travar diálogo, e dar com um sem número deles; e ao vê-los chegarem, estes fugiam de tal maneira que o pai não esperava o filho; e isto não porque alguém lhes tenha feito mal antes, pois por onde estive e pude travar contato, havia dado a eles tudo que tinha, assim como tecidos e outras muitas coisas, sem receber deles coisa alguma; mas são medrosos assim sem remédio. Verdade é que, depois que se certificavam e perdiam o medo, eles eram tão sem malícia e eram tão liberais com o que têm, que não creríeis sem o ver. Das coisas que eles têm, pedindo-se-lhas, jamais dizem não; pelo contrário, convidam a pessoa consigo e demonstram tanto amor que dariam os próprios corações, e quer seja algo de valor, ou seja coisa de pouco preço, trocam logo por qualquer outra coisinha, de qualquer maneira, que eles se vão contentes. Eu defendi que não lhes dessem coisas tão reles, como pedaços de caldeirões furados, ou pedaços de vidro quebrado, ou alfinetes, pois quando eles recebiam isto, para eles parecia ser a melhor joia do mundo. Ocorreu haver um marinheiro que recebeu, por uma ponta de cadarço, o equivalente ao peso de ouro de dois castelhanos e meio; e outros, de outras coisas que valiam muito menos, muito mais; já por moedas de prata davam tudo que tinham, mesmo que fossem dois ou três castelhanos de ouro, ou uma arroba ou duas de algodão. Até os pedaços de arcos quebrados dos barris eles aceitavam, e davam o que tinham como animais; assim isto me pareceu mal, e eu o defendi, e eu dava com alegria mil coisas boas, que eu levava, para que se afeiçoem, e que, além disto, se tornem cristãos, e se inclinem ao amor e serviço de Suas Altezas e de toda a nação castelhana, e procurem juntar e nos dar as coisas que têm em abundância e que nos são necessárias. E eles não conheciam nenhuma seita nem idolatria, excetuando que todos acreditam que o poder e o bem estão no céu, e tinham a firme crença que eu, com estes navios e pessoas, vinha do céu, e nesta suposição me recebiam em todos os cantos, depois de terem perdido o medo. E isto não ocorre porque sejam ignorantes, pelo contrário, são homens de muito sutil engenho e navegam todos aqueles mares, e é de se maravilhar a boa conta que eles têm de tudo; excetuando que nunca viram gente vestida, nem navios semelhantes.

E logo que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, tomei por força alguns deles, para que aprendessem e me dessem notícia do que havia naquelas partes, assim foi que logo nos entenderam, e nós a eles, fosse por língua ou sinais; e isto foi de muito proveito. Hoje em dia, trago-os comigo, mesmo que eles ainda acreditem que venho do céu, apesar de muita conversa que travaram comigo; e estes eram os primeiros a anunciar, onde quer que eu chegava, e os outros andavam correndo de casa em casa, e até as vilas próximas, com vozes altas: Venham, venham ver a gente do céu; assim, todos, tanto homens quanto mulheres, depois de perderem o medo da gente, vinham, adultos e crianças, e todos traziam algo de comer e beber, que davam com um amor maravilhoso. Eles têm em todas as ilhas muitas canoas, como as fustas de remos, algumas maiores, outras menores; e algumas são maiores do que uma fusta de dezoito bancos. Não tão largas, porque são de uma tora única; mas uma fusta não compete com elas ao remo, porque são velozes que não dá para acreditar. E com estas navegam todas aquelas ilhas, que são inumeráveis, e comerciam suas mercadorias. Vi em algumas destas canoas 70 e 80 homens, e cada um com seu remo.

Em todas estas ilhas não vi muita diversidade na feição das gentes, nem nos costumes ou na língua; salvo que todos se entendem, que é coisa muito propícia para a determinação de Suas Altezas para a conversão deles à nossa santa fé, para a qual são muito dispostos.
Já disse como eu havia andado 107 léguas pela costa do mar pela linha direita do ocidente para o oriente pela ilha de Juana, segundo tal caminho posso dizer que esta ilha (Juana) é maior que a Inglaterra e a Escócia juntas; porque, além destas 107 léguas, há na parte poente, duas províncias que eu não percorri, uma das quais chamam Avan, onde nasce gente com rabo; tais províncias não podem ter menos de 50 ou 60 léguas de comprimento, segundo pude entender dos índios que me acompanham, os quais conhecem todas as ilhas.
Esta outra Espanhola tem de circunferência mais que a Espanha toda, desde Colibre (Catalunha), pela costa do mar, até Fuenterrabía em Biscaya, pois em um quadrante, percorri 188 grandes léguas por linha reta de ocidente a oriente. Ela é de se desejar, e ao ser vista, para nunca se deixar; na qual, posto que de todas tenha tomado posse por Suas Altezas, e todas sejam mais abastadas do que sei ou posso dizer, e todas tenho por Suas Altezas, que delas podem dispor como e tão absolutamente como dos reinos de Castela, nesta Espanhola, o lugar mais conveniente e melhor região para as minas de ouro e de todo comércio, assim em terra firme daqui como aquela de lá do Grande Khan, onde haverá comércio e lucro, tomei posse de uma vila grande, à qual pus o nome de vila da Natividade; e nela pus força e fortaleza, e que já nestas horas deve estar de todo concluída, e deixei nela gente suficiente para protegê-la, com armas, artilharias e vitualhas para mais de um ano, e fusta e mestre de mar em todas as artes para construir outras, e grande amizade com o rei daquela terra, em tamanho grau, que lhe apetecia chamar-me e ter-me como um irmão, e ainda que lhe mudasse a vontade em ofender esta gente, nem ele nem os seus sabem o que sejam armas, e andam desnudos, como já disse, e são os mais medrosos que existem no mundo; assim que apenas aquelas pessoas que lá deixei são suficientes para destruir toda aquela terra; e é ilha sem perigo para eles, se se souber regê-la.
Em todas estas ilhas me parece que todos os homens se contentam com uma mulher, e a seu governante ou rei dão até vinte. Parece-me que as mulheres trabalham mais que os homens. Não consegui entender se eles têm bens próprios; pareceu-me que aquilo que um tinha, todos tinham parte, em especial os víveres.
Até aqui, nestas ilhas, não encontrei homens monstruosos, como muitos pensavam, mas antes toda a gente é de mui linda compleição, não são negros como na Guiné, excetuando seus cabelos escorridos, e não se criam onde há ímpeto demasiado dos raios solares; é verdade que o sol tem ali grande força, posto que é distante da linha equinocial vinte e seis graus. Nestas ilhas, onde há montanhas grandes, ali o frio tinha força neste inverno; mas eles o sofrem por costume, e com a ajuda das comidas que comem com muitas especiarias e muito quentes. Assim não encontrei monstros, nem notícia, tirando em uma ilha Quaris, a segunda à entrada das Índias, que é povoada por uma gente considerada em todas as ilhas como muito feroz, que come carne humana. Eles têm muitas canoas, com as quais percorrem todas as ilhas da Índia, e roubam e tomam o quanto podem; eles não são mais disformes que os outros, salvo que têm o costume de trazer os cabelos longos como mulheres, e usam arcos e flechas das mesmas armas de canas, com um palito no fim, por causa do ferro que não têm. Entre os outros povos, covardes em grau demasiado, estes são ferozes, mas eu não acho que sejam piores que os outros. Estes tratam com as mulheres de Matinino, que é a primeira ilha, partindo da Espanha para as Índias, na qual não se encontra homem algum. Elas não praticam o exercício feminino, mas arcos e flechas, como os supracitados, de canas, e se armam e se protegem com folhas de cobre, que têm em abundância.

Há outra ilha, asseguram-me que maior do que a Espanhola, em que as pessoas não têm cabelo algum. Nesta há ouro sem conta, e desta e das outras trago comigo índios para testemunho.
Concluindo, ao falar disto que apenas ocorreu nesta viagem, que foi assim rapidamente, podem ver Suas Altezas que eu lhes darei quanto ouro necessitarem, com muito pouca ajuda que Suas Altezas me derem; agora, especiaria e algodão quanto Suas Altezas mandarem, e almástiga quanto mandarem carregar, e de qual até hoje não se encontra a não ser na Grécia, na ilha de Chios, e o Senhorio vende como quer, e aloé quanto mandarem carregar, e escravos quanto mandarem carregar, e serão dos idólatras; e creio haver encontrado ruibarbo e canela, e outras mil coisas de substância encontrarei, as quais encontraram a gente que eu lá deixei; porque eu não me detive em lugar algum, enquanto o vento me tenha ajudado a navegar; apenas na vila de Natividade, que deixei assegurada e bem assentada. E, na verdade, muito mais faria, se me servissem os navios como demandava a razão.
Isto se deve ao grande e eterno Deus Nosso Senhor, que dá a todos aqueles que andam no seu caminho vitória em coisas que parecem impossíveis; e esta obviamente foi uma destas; porque, ainda que tenham falado ou escrito sobre estas terras, tudo é conjetura sem vê-las, mas compreendendo, os ouvintes escutavam e julgavam mais pela fala e faziam pouco caso. Assim, pois, Nosso Redentor deu esta Vitória a nossos ilustríssimos rei e rainha e a vossos reinos famosos, da qual toda a cristandade deve se alegrar e celebrar grandes festas, e dar graças solenes à Santíssima Trindade com muitas orações solenes, ao converter tantos povos à nossa santa fé, e depois pelos bens temporais; que não apenas a Espanha, mas todos os cristãos terão aqui refrigério e lucro.
Isto, segundo o feito, assim em breve.
Data na caravela, nas ilhas de Canária, em 15 de fevereiro, ano 1493.
Farei o que mandarem
O almirante.
***

Depois de esta escrita, e estando no mar de Castela, saiu tanto vento sul e sueste comigo, que tive de descarregar os navios. Mas percorri aqui este porto de Lisboa hoje, que foi a maior maravilha do mundo, onde resolvi escrever a Suas Altezas. Em todas as Índias, sempre encontrei temporais como em maio; para onde fui em 33 dias, e voltei em 28, excetuando estas tormentas que me detiveram 13 dias vagando por este mar. Dizem aqui todos os homens do mar que jamais houve inverno tão ruim, nem tantas perdas de naus.
Data a 4 dias de março.

(O original desta carta de Colombo desapareceu. Conservam-se várias versões em espanhol, italiano e latim. Nossa edição eletrônica segue a cuidadosa edição de Lionel Cecil Jane, em sua obra Selected Documents Illustrating the four Voyages of Columbus. 2 vols. London: The Hakluyt Society, 1930. Vol. I, 2-19]

Fonte: http://www.ensayistas.org/antologia/XV/colon/

***
Sobre o autor

Envolvido desde cedo com a arte da navegação, Cristóvão Colombo realizou suas primeiras viagens em Gênova, no norte da Itália, onde nasceu. Em 1476, a serviço de um comerciante, acabou naufragando nas costas de Portugal, onde passou a viver.

Ali morou dez anos, sobretudo no arquipélago da Madeira. Nesse período, dedicou-se a estudar as rotas de navegação, convencido da existência de uma passagem marítima pelo Ocidente até as Índias. Casou-se 1480 com Felipa Muniz, filha do navegador Bartolomeu Perestelo, em cuja biblioteca estudou as obras que viriam a certificá-lo da existência de novas terras. Com Felipa, que morreria quatro anos depois, teve um filho, chamado Diego.

Por esta época, Colombo tentou, em vão, convencer o rei de Portugal D. João II a conceder permissão para uma viagem ao Oriente. Em 1485, Colombo fixou-se na Espanha, movido pelo interesse manifestado pelo reis de Castela, Fernando e Isabel, em patrocinar a viagem, com o intuito de expandir a fé católica para as terras orientais.

Composta por três caravelas - Pinta, Nina e Santa Maria - a frota de Colombo deixou as costas da Espanha dia 3 de agosto de 1492. A viagem foi atribulada e a tripulação quase pereceu em terríveis tempestades e tentativas de motins. No dia 12 de outubro, Colombo chegou na ilha que chamaria de San Salvador, no arquipélago das Bahamas. Navegou pela ilha de Cuba e pelo Haiti, retornando à Espanha em março de 1493. Tinha certeza de ter chegado ao Oriente.

Neste mesmo, ano fez sua segunda viagem, com uma frota de 17 naus. Chegou ao Caribe e descobriu várias ilhas, como Dominica, Guadalupe, Porto Rico e Jamaica. Em 1499, numa terceira viagem, alcançou terra firme, nas costas da atual Venezuela. Reconheceu também as ilhas de Trinidad e Tobago e Granada.

Desta viagem, no entanto, já regressou com ordem de prisão. Mesmo perseguido por intrigas palacianas e não mais desfrutando dos privilégios reais, Colombo conseguiu se libertar. Assim, empreendeu ainda uma quarta viagem, entre 1502 e 1504, completando o reconhecimento da costa da América Central.

Tendo regressado à Espanha em 1504, caiu no ostracismo, abandonado e esquecido. Morreria dois anos depois - e sem saber que havia descoberto um novo continente. Acreditava ter chegado a um anexo remoto da Ásia.

Fonte: http://educacao.uol.com.br/biografias/ult1789u207.jhtm

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7 comentários:

Achei muito legal esse texto.

Que louco né, ele deixou bem claro, se os que ficaram na ilha precisarem eles destroem tudo sem problemas.. pra eles os nativos eram coisas. A igreja é criminosa desde sua fundação.

"Que louco né, ele deixou bem claro, se os que ficaram na ilha precisarem eles destroem tudo sem problemas..."

E foi mais ou menos o que fizeram.

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