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sábado, 8 de agosto de 2009

Ursinho Joca e os Pardais

Volmar Camargo Junior

(dedicado a Marcia Szajnbok, pela parceria,
e a Joaquim Bispo, o verdadeiro Ursinho Joca).









Era um tempo difícil para os habitantes da floresta. Os Pardais enfiaram na cabeça que eram os melhores cantores do mundo, e, querendo convencer mais alguém além deles próprios, resolveram começar a cantar nas portas das tocas dos outros bichos. Alguns nem prestavam atenção, outros se chateavam um pouco, outros ainda até achavam bonito aquela cantoria – sobretudo os gatos-do-mato, que tinham uma simpatia, digamos, ancestral pelos passarinhos. Os Pardais, coitados, até que tinham talento. Mas todos cantavam cada um em seu tom, com seu timbre particular, e alguns, tentando atingir notas mais altas que os outros, esqueciam completamente a noção de harmonia. Porém, um dos moradores da floresta ficou extremamente irritado com a nova mania dos Pardais: o Ursinho Joca.


Dentro de sua toca, o Ursinho Joca não fazia outra coisa senão dedicar-se à perfeição, em tudo o que fizesse. Se colhia frutas, todas eram idênticas, ou no mínimo, muito parecidas. Se roubava mel, tinha o cuidado de escolher a colméia que dava o mel mais transparente e sem aqueles pedacinhos de abelha. Se caçava animaizinhos assustados, e esses tinham motivos de sobra para morrerem de medo, Joca os preparava com muito zelo, deixava-os impecavelmente limpos e penteados para, só então, abocanhá-los. E ainda, se chegava o inverno, o Urso Joca tinha de dormir os exatos noventa dias, nem um dia a mais ou a menos.


Foi justamente num inverno desses que os Pardais empoleiraram-se à entrada da caverna do Ursinho Joca, quando ainda lhe restavam vários dias até a primavera. Obviamente, o metódico Urso saiu de lá muito, muito contrariado. Sem perder a compostura, porque era um ursinho muito polido, parou diante dos Pardais, endireitando os óculos na ponta do focinho redondo e preto. Em um instante, arquitetou um plano para voltar a ter paz.


Como não sabia falar pardalês, nem se deu ao trabalho de falar com os cantadores. Foi direto até o oco de árvore onde morava a Professora Coruja, para tomar umas aulas do dito idioma. Depois de aprender o suficiente para se comunicar, era um cursinho instrumental de sessenta horas, o Urso Joca foi tomar umas lições, imaginem só, de canto e teoria musical com o Maestro Cigarra. Como o assunto era demais interessante, deixou o curso trancado para voltar assim que resolvesse um assunto com uns certos passarinhos.


Retornou à sua toca. Para chamar a atenção dos Pardais cantadores, Joca pôs-se a cantarolar e a assoviar, como os passarinhos, que finalmente ficaram quietos. Assim que percebeu que estavam prestando atenção, o Urso parou de cantar e entregou a cada um deles um caderno de partituras. Como aprendeu bem o pardalês, ensinou aos Pardais tintin-por-tintin a notação musical, todas as escalas e os acordes maiores, menores, em sétima dominante e em sétima diminuta. Arriscou-se até a organizar com os pardais um coral de três vozes. Assim, Joca pode voltar para sua caminha, e dormir os tantos dias que ainda faltavam à hibernação daquele ano.


Joca não ficou menos irritadiço com as imperfeições alheias, nem com as suas. Mas, quando a primavera chegou e ele saiu para dar o primeiro passeio depois dum longo sono, se bem que interrompido no meio de um sonho, sentiu-se muito bem quando ouviu os Pardais se arriscando a compor umas músicas eles mesmos a partir das preciosas dicas que ele trouxe do Maestro Cigarra. A vida dos habitantes da floresta não ficou menos difícil, mas certamente ficou bem mais suportável: os Pardais agora, queriam mostrar a todos que, além de serem os melhores do mundo, também tinham muita noção de teoria. E a música deles até que ficou bem melhor.





Crédito da imagem:

Clarinet Bear, by *Spirit-the-Titan, disponível em http://spirit-the-titan.deviantart.com/art/Clarinet-Bear-40277652#

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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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