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sábado, 8 de agosto de 2009

A última fada

Volmar Camargo Junior


dedicado ao Henry, à Denise e especialmente

à Bia, a última fada



A fuga das fadas da Cidade Argêntea deixou a população em pânico. Sabia-se que tempos difíceis viriam; era inevitável. Nenhum dos cristais mágicos restou na Torre do Tempo. As tempestades, a fome, as feras, a discórdia e a morte, coisas desconhecidas do Povo de Prata, atingiriam aquele fabuloso país-cidade. Sem as fadas, que eram as únicas capazes de ouvir e interpretar os cristais, mesmo os habilidosos Senhores do Tempo não passavam de fazedores de truques. A última esperança dos poderosos era em uma criança-fada chamada Anaxya. Mas um dia, como seria de imaginar se os Senhores da Torre do Tempo fossem dados à imaginação, sua última esperança fugiu.

Se ela não fosse encontrada, a Cidade Argêntea passaria a ser um lugar como todos os outros.


***


Anaxya acordou-se de um sono estranho, e percebeu que anoitecia. As ruínas onde se refugiara foram uma proteção segura para a tempestade daqueles dias, mas não seria em hipótese alguma empecilho para o faro de seus perseguidores. Sua intuição fora uma guia confiável por muitos anos, mas desde que abandonou sua terra natal, fugindo como uma criminosa pelas formidáveis muralhas mágicas da Cidade Argêntea, suas premonições não eram mais as mesmas.


O sol já se pusera, mas um fiapo de luz baça ainda entrava pela ampla porta de pedra. Os braços nus arrepiaram-se ao toque da brisa. Sabia que permanecera naquele lugar por tempo demais. A relva que cobria como um manto as costas da colina baixa onde ficava o edifício decrépito ainda estava molhada – e caminhar no barro é como traçar uma linha entre o perseguido e o perseguidor. Uma última vez, antes que a claridade acabasse por completo, desenrolou o pequeno embrulho que trazia oculto na faixa em sua cintura. Assim que Anaxya descobriu a minúscula esfera de cristal, ouviu o canto que lhe era tão familiar, audível somente aos de sua raça.


A memória de sua infância, da infância de seu espírito, de todas as suas vidas e das vidas de todas as criaturas estavam naquela canção. Admirou-a, e desejou ficar presa naquele instante para sempre, deleitar-se com a aurora do mundo e a dança dos sons do Universo em sua cabeça. Mas a jovem sabia que esse era um dos muitos prodígios da pedra, que não era boa nem má, mas era perigosa. Teve de impor a sua vontade à da jóia para não ser fascinada. O que precisava naquele momento era a visão do caminho que deveria seguir, e só conseguiria tal visão se dominasse a jóia. E isso ela sabia fazer com alguma proficiência.


O que Anaxya não sabia era a importância do lugar onde estava.


Assim que proferiu as palavras secretas que abririam os olhos de sua mente, e isso dependia mais dela própria que do cristal mágico, Anaxya percebeu uma ligeira modificação no ar, nas paredes, no teto, em um círculo do qual ela era o centro. Era como se estivesse mergulhada em um fluido. Podia se mover, mas não era como antes. Sentiu-se lenta como num sonho, irresistivelmente letárgica, e sustentar-se em pé ficou impossível. Sentiu-se caindo, mas era como se flutuasse, ficando mais e mais na horizontal, e os olhos fecharam muito devagar. A esfera de cristal escapou-lhe pelo vão dos dedos e caiu no chão como uma gota na superfície intacta de uma bacia cheia d’água. Com a queda, tudo dentro das ruínas se consumiu num clarão.


Os perseguidores da criança-fada encontraram com alguma facilidade a trilha deixada por ela até as ruínas. Era um lugar agourento, proibido às pessoas comuns pelos Senhores do Tempo, mas proibido sobretudo às fadas. Era uma sede dos cultos antigos, quando o Tempo não existia e as fadas eram as soberanas. Mesmo amedrontados, os dois caçadores seguiram colina acima e viram o grande domo, chamuscado como que por um incêndio arrasador. Bem no centro, encontraram os poucos pertences de Anaxya, carbonizados. E, junto deles, as duas metades de um pequeno globo de cristal.


***


— Essa é uma história muito bonita, Tom.

— Gostou? E você não vai me perguntar o que aconteceu com a fadinha fujona?

— Hmmmmm... deixa eu adivinhar: o caminho que ela devia seguir não era no Mundo Mágico, mas na Terra. Então, seu espírito de fada caiu na Terra, e ela renasceu em uma linda cachorrinha que mora em South Harlem. Pelo latão do McDonnald’s! Você já contou essa história um zilhão de vezes!

— Você fala como se não gostasse de ouvir...

— Ei! Quieto! Ela tá vindo aí! – cochicha Rocky, disfarçando-se todo. – Oi Bia! Vai passear?

— Oi, pulguentos! O chefe tá de folga hoje, uma coisa que eles chamam aniversário. Eles dizem que até eu tenho um, mas eu nunca entendi isso direito. Eu, ele e a chefa vamos tirar umas fotos. Quer dizer... Eles vão tirar fotos, e eu vou junto. Querem vir?

— Não, não. Gracias. A gente vai ficar por aqui mesmo. Daqui a pouco vai passar o carro do correio, e a gente quer desempatar isso hoje.

— Ok. Até.

— Tchau, Bia. Adorei a coleira nova.

Depois que o trio composto por Bia e o casal de humanos que a acompanhava se afastou, Tom e Rocky voltaram a confabular.

— Será que ela esqueceu tudo mesmo?

— Olha. Não sei. Mas enquanto isso, a gente fica de olho nela.

— Eu, por mim, preferia que ela não lembrasse de nada, nunca mais.

— Eu também. Até tenho saudades de casa. Mas... pô, eu adoro Nova Iorque.

— Olha! É o carteiro!

— Pega! Pega!





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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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