Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

sábado, 18 de julho de 2009

Pouco racistas

Joaquim Bispo

A capacidade de miscigenação dos Portugueses foi talvez o grande trunfo para terem conseguido manter possessões coloniais no séc. XVII, atacadas por Holandeses, Ingleses e Franceses. Ao contrário dos Holandeses, por exemplo, que eram de “má boca” e por isso tinham de mandar vir da Europa quase todos os mantimentos, nos 24 anos que permaneceram em Pernambuco, os Portugueses adaptaram-se bem, quer climática, quer gastronómica, quer sexualmente.

São famosos os casos de João Ramalho e António Rodrigues que “foram os pioneiros da miscigenação no planalto de Piratininga (S. Paulo). O primeiro casou com Bartira, filha do morubixaba Tibiriçá e o segundo com uma filha do chefe Piquerobi. Estas ligações entre portugueses e índias encontram-se na origem de alguns dos mais importantes troncos paulistas.”

“Outro exemplo paradigmático é fornecido por Diogo Álvares, o Caramuru, que teve uma larga prole da sua relação com a índia Paraguaçu – que, após o baptismo, se passou a chamar Catarina Álvares – tendo todas as suas filhas casado com europeus de posição, enquanto três dos seus filhos foram armados cavaleiros pelo 1º governador-geral do Brasil. As primeiras famílias baianas resultam, tal como as paulistas, da miscigenação entre portugueses e índias.”

“Na capitania de Pernambuco, o exemplo foi dado por Jerónimo de Albuquerque, que se relacionou com a filha do chefe Arcoverde, bem como com outras indígenas de quem teve 24 filhos, facto que lhe valeu o epíteto de Adão Pernambucano.”

A miscigenação tinha a vantagem de assegurar imunidade genética aos descendentes das índias, face a diversas enfermidades e epidemias.

Depois destes cruzamentos de primeira geração, onde entravam Brancos europeus colonizadores, Índios autóctones e, a partir de meados do séc. XVI, Negros africanos, chegados como escravos, muitos outros de segunda e terceira se seguiram, criando uma enorme multiplicidade racial. No séc. XVII, para tentar distinguir as várias variedades que foram brotando de todos aqueles cruzamentos, usavam-se – para os nascidos no Brasil – as seguintes designações:

Branco + Branca = Mazombo
Branco + Índia = Mameluco
Branco + Negra = Mulato
Branco + Mulata = Pardo
Negro + Negra = Crioulo
Negro + Mulata = Cabra
Negro + Índia = Cafuso
Índio + Mameluca = Curiboca

Esta miscigenação em larga escala criou extensas e complexas redes familiares, com o seu cortejo de costumes, crenças e língua, o que formava uma barreira dificilmente quebrável pelo invasor, e terá sido um dos principais factores que travaram as tentativas de instalação de Holandeses e outros.
As forças militares do conglomerado pró português que combateram nas duas batalhas de Guararapes (1648, 1649) integravam muitos autóctones, de todos os estratos e matizes, alguns dos quais em posição de liderança de blocos combatentes. Os quatro comandantes militares exaltados pela História foram:

“João Fernandes Vieira – senhor de engenho de origem portuguesa;

André Vidal de Negreiros – brasileiro de origem portuguesa (mazombo) – mobilizou recursos e gentes do sertão nordestino;

Felipe Camarão – indígena brasileiro da tribo potiguar – liderou as forças da sua tribo;

Henrique Dias – brasileiro filho de escravos africanos libertos – foi o ‘governador da gente preta’ (negros, crioulos e mulatos), oriunda dos engenhos assolados pelo conflito.”

O empenhamento coordenado de todo este heterogéneo conjunto foi decisivo na derrota e subsequente expulsão, como corpo estranho, das forças holandesas e determinou aspectos importantes do viver brasileiro futuro.


Nota: O post onde, pela primeira vez, publiquei o essencial desta informação é um dos mais visitados do meu blog, o que denuncia o grande interesse que a sociedade brasileira tem por este aspecto da sua identidade.

Fontes principais: http://www.republica.pt/jornal2.htm
http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_dos_Guararapes

Share


Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


4 comentários:

Muito interessante mesmo, Joaquim, pois apesar de ter aprendido os nomes de algumas destas miscigenações na escola, havia algumas que nunca tinha ouvido antes, ou que havia mas não sabia a que se referia.

Legal.

O brasileiro é fruto de uma salada genética. Este, que vos fala, é um exemplo:

Bisavó alemã (polonesa, na verdade) e um bisavô mulato = minha avó parda, que nasceu branca, mas tem um filho de cada cor, com meu avô, também pardo.

Bisavó paterna cigana e bisavô filho de brancos e descendentes de índios = minha avó mameluca, casada com meu avô branco, mas de ascendência incerta.

Meus pais são ambos brancos, mas tenho tios e tias, paternos e maternos, com todo o espectro de genótipos brasileiros: de mulatos bem côr-de-cuia até louros.

E não faço idéia, dentro da classificação do século XVII, de que mistura eu sou: ou seja, legitimamente brasileiro.

Na verdade, todos somos multi-étnicos. Na Península Ibérica, além das invasões celtas, visigóticas, e outras “bárbaras” (os Alanos eram do planalto iraniano), enquanto os muçulmanos dominaram parte do território, traziam guarnições militares dos inúmeros espaços do Califado – Síria, Mesopotâmia, Egipto, Magreb, etc. – para administrar e controlar cada cidade e respectivo espaço rural. Muitas das origens dessas guarnições estão documentadas. Aliás foram essas diferentes origens, às vezes conflituantes, que esfrangalharam o Califado de Córdoba em inúmeros pequenos reinos – as taifas – que mais facilmente puderam ser manipulados pelos reinos cristãos.

Muito informativo!
bom mesmo!

Abraços

Postar um comentário