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terça-feira, 7 de julho de 2009

O Lobo Vermelho (segunda parte)


Guinen Plumbeano

(Volmar Camargo Junior)

Seguindo a estrada na direção sul, depois de uma sequência de sobes-e-desces ainda dentro do subúrbio, atravessamos os portões do primeiro nível de suas muralhas. Diferente do centro da cidade, o bairro que circundava a estrada parecia ainda não ter amanhecido, e foi um custo perceber alguma coisa além dos muros altíssimos. Era como se a avenida percorresse o fundo de um canal, e o bairro ficasse para além de suas margens. Não fosse pelas pequenas portas de metal, ao longo de um passeio estreito, eu diria que por ali só passavam carros. Assim, antes de chegar à zona rural, tudo o que vi da parte mais pobre de Avvena foi uma rua espremida entre dois altos muros de alvenaria. Seria lógico que eu tivesse perguntado algo a Platin, o motorista, mas preferi ficar quieto. Concentrei-me na história de meu personagem principal. E, sim, a ideia que eu fazia dele era a de uma entidade mitológica, e isso certamente não era culpa minha.

Para o bem ou para o mal, o Lobo Vermelho era tido como uma figura folclórica. Para seus detratores e a grande maioria dos ativistas contrários à Confederação das Províncias, ele era um monstro, um demônio, ou na melhor das hipóteses, uma marionete da Imperatriz. Para seus admiradores, era um herói lendário, capaz de proezas bélicas acima da capacidade humana, dono de uma coleção inigualável de façanhas e o mais importante dos humanos depois dos primeiros filhos de Adanno. Para aqueles que permanecem céticos, e que têm algum interesse nos fatos como eles realmente aconteceram – como eu – Petro Velasturvo fora um militar competente, um homem dotado de grande inteligência e poucos escrúpulos. E eu sei que posso escrever isso assim, sem nenhum medo de represálias, porque estas não são as minhas palavras, mas as dele.

Eu precisava de um foco para minha entrevista. A história dele era realmente muito intensa, e havia demasiados fatos para tão pouco tempo. Fiquei grato por ter um motorista guiando – ainda que eu soubesse conduzir um veículo daqueles, jamais me arriscaria a fazê-lo dentro de uma neblina tão densa. Além do mais, não me distraí com a rica paisagem rural de Avvena, pelo fato de parecer que o carro estava todo envolto em lençóis brancos e molhados. Em um momento, tive a nítida impressão de que Platin estava apenas mantendo o carro em movimento, deixando que a máquina sozinha seguisse pelo caminho que conhecia. Saquei o bloco e a caneta do bolso do casaco. Para retomar o fio de raciocínio, que perdera assim que saí do quarto do hotel, tentei lembrar da primeira façanha que tinha ouvido a respeito do General.

Meu pai era aficionado por objetos históricos, um pesquisador entusiasta, profundamente avesso à academia e, hoje posso admitir, à Igreja. Em uma sala construída em nossa casa, especialmente para isso, meu pai guardava sua coleção. Não era como o museu da Universidade do Farol Púrpura, mas sem dúvida, era um dos maiores acervos particulares da Capital. Eu, bem como os poucos amigos que tive na infância, tínhamos uma simpatia enorme pelos artefatos de guerra, os uniformes dos soldados do império, e, principalmente, as armas. Havia, dentre todas aquelas peças às quais não podíamos fazer nada além de olhar, uma espada; um sabre para ser mais exato. No pedestal onde ele ficava, havia a reprodução de um quadro da época, que retratava um oficial do Exército à frente de uma quantidade incontável de soldados em marcha, e esse oficial empunhava, apontando para o alto, aquele mesmíssimo sabre. Meu pai contava que aquela não era uma peça original, mas era uma cópia fiel da Guardiã do Mar, e que seu dono, o homem que a empunhava, era o Lobo Vermelho, o maior herói da guerra contra os invasores delfins. Então, meu pai contava todo tipo de histórias sobre ele, e que eu e meus amigos costumávamos reproduzir em nossas brincadeiras, amarrando toalhas e lençóis às costas como capas, e cada um com uma “Guardiã do Mar” feita das pernas de uma cadeira velha. Fazíamos um sorteio, todas as tardes, para decidir quem seria o Lobo Vermelho, depois, quem seria Unmonu, seu companheiro de aventuras, e, por fim, quem seriam os adversários: príncipes delfins, lordes adormecidos, bruxos linces, guerreiros bárbaros. E eu recordo de sempre gostar mais de interpretar os vilões, enquanto meus amigos se estapeavam para disputar que heróis seriam. Ao final da brincadeira era sempre eu, ou melhor, o inimigo do Mar de Luna, quem tinha a pior sorte, mas não antes de ter deixado muitos soldados caídos, ter derrubado o “Bovineu Invencível” e decepado uma das pernas do Lobo Vermelho – e eu nunca tinha certeza se era a direita ou a esquerda.

Havia dezenas de versões explicando a razão de o General Velasturvo usar uma perna mecânica, e a maior parte delas era, no mínimo, fantasiosa. A minha preferida era esta:

Numa tarde de inverno, Petro e seus colegas praticavam luta no pátio da escola, quando foram surpreendidos por um lobo selvagem. Eles ainda não o haviam percebido porque era um lobo branco, e se esgueirou na neve até chegar perto o suficiente para atacar de surpresa. Os outros meninos fugiram apavorados, mas Petro não teve a mesma sorte: o lobo saltou em sua direção e, para impedir que fugisse, abocanhou sua perna e o derrubou. O menino teve o sangue frio de fingir-se de morto. Quando o predador soltou sua perna para conferir se a presa estava realmente abatida, Petro reagiu. Com presteza, enfiou as duas mãos no focinho do animal, segurando suas mandíbulas fechadas e avançou com os dentes contra o pescoço peludo do lobo. A fúria de Petro era tão grande que o couro do predador rasgou-se como um trapo velho, e músculos e veias iam-se rompendo à medida que o menino mordia. Só depois disso é que o professor de luta veio em seu auxílio, mas aí, o lobo, que era branco, já estava morto, todo tingido de vermelho. A perna do menino Petro teve de ser amputada. Todos, a partir daquele dia, passaram a temê-lo e respeitá-lo. Como um pedido de desculpas, a esposa do professor de luta fez para o menino um casaco da pele do lobo, que nunca mais pôde ser alvo, manchado de sangue para sempre.

Eu ri sozinho no banco de trás do carro. Como aquelas historietas eram marcantes para as crianças! Era bem provável que, se eu perguntasse para qualquer um dos meus amigos de infância, eles teriam lembrado desta, “O menino e o lobo branco”, talvez com as mesmas palavras. Percebendo que eu ria – devo até ter falado sozinho, em voz alta – Platin olhou-me pelo espelho, devolvendo-me o sorriso.

— Já conhece o General, Senhor Plumbeano? Digo, já o viu alguma vez?

— Pode me chamar apenas Guinen, Platin. Só vi o General em fotografias. Por que a pergunta?

— Porque a última vez que ele foi visto em público, ele estava bem diferente — respondeu, enfático.

— Diferente como? — quis saber.

— Não precisa se preocupar. Você já vai ver. Chegamos. Seja bem-vindo à Mansão do General.

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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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