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sexta-feira, 5 de junho de 2009

O Primeiro Passo

Joaquim Bispo

– Não vês que estás a ir por mau caminho, meu filho? – O anjo adoptava uma postura paternal, a face preocupada, o gesto complacente.
– Eu nem sei se quero ir por bons caminhos! – retorqui, desafiador.
Quando ele se materializara no meu quarto de solteiro, com ares de arcanjo Gabriel, passava das três da manhã. Estranhei, mais do que me assustei. Tinha estado na associação do bairro a tratar de questões relacionadas com as recentes ocupações de casas desabitadas e, proposta puxa discussão, tinha bebido umas três ou quatro cervejas. O Verão de 75 ia quente em todos os sentidos, a Revolução avançava com auto-gestões nas fábricas e nos campos e auto-organização das populações em todos os domínios. Havia um sentimento no ar de que, finalmente, tudo era possível. E tanto que havia para fazer! O mais difícil era a mudança das mentalidades. Todos tínhamos sido condicionados para sermos engrenagens duma sociedade de obedientes, castos e tementes. De repente, tinham-se rompido as comportas que mantiveram a multidão calada e quieta e esta inalava, impertinente, os primeiros aromas da liberdade.
Agora, até de replicar a um anjo eu me sentia capaz:
– E, além do mais, o que é que tens com isso?
– Não penses que podes viver como queres, lascivo, descrente e subversivo. Tudo está determinado e o teu lugar está muito bem definido.
– Eu posso fazer o que quiser. Desde que não restrinja a liberdade de ninguém.
– E não achas que roubar a casa de alguém é atentar contra a sua liberdade?
– Não é roubar, é usar para fins humanitários o que alguém desperdiça. Não é a sua casa, é a sua ostentação.
– Não vês que tudo isto é apenas um remoinho passageiro!? Não vês qual é a ordem natural das coisas? Quando a poeira assentar, volta tudo ao que era. E então, tu estarás perdido.
– Não me vão prender por querer ajudar as pessoas sem casa, está descansado.
– Não é dessa perdição que eu estou a falar. – E continuou a pôr água na fervura revolucionária: – Quem me mandou não gosta de rebeldes. Gosta que a hierarquia esteja muito bem definida e que o de baixo não desobedeça ao de cima. Gosta que a moral e a religião sejam o guia das nações e que os seus dirigentes sejam austeros, mas bondosos, como os pais são para os filhos. Agora, tu és um filho pródigo que não respeita o seu pai.
– Eu vejo é que o teu ar paternal, de há pouco, está a transformar-se na fúria contida de um mestre-escola autoritário. Por que é que quem te mandou não prefere a liberdade das pessoas e a livre adesão aos seus preceitos? Ou a livre rejeição!? Como é que se pode sentir satisfeito de mandar em autómatos, que se lhe sujeitam apenas pelo medo do castigo? Não repara como são alienadas as pessoas que se lhe submetem, que nem pensamentos de revolta podem ter?
– Ele vê é que, com a ordem que instaurou, todos eram felizes. Já viste alguém feliz nesta revolução?
– Sim, muitos, loucos de felicidade. Pela primeira vez são donos das suas vidas.
– Loucos, dizes bem. A revolução pôs pais contra filhos, filhos contra pais, marido contra mulher, mulher contra marido. Os partidos, de que até o nome é revelador, destroem a harmonia da sociedade.
– Os partidos são a expressão crispada, mas necessária, que faz circular na sociedade os vários conceitos da sua própria organização. Vocês não têm partidos? Os anjos dão-se bem com os querubins? E estes com os serafins? Ou também têm interesses de classe?
– Lá, donde eu venho, a harmonia não tem ameaças. Todos conhecem e aceitam o seu nível celeste.
– Não será bem assim! Tanto quanto eu sei, já houve revoltas. Não foi lá que Lúcifer bateu o pé ao teu patrão?
– Sim, há esse episódio…
– E essa tal harmonia de que falas não corre o risco de um dia ser alterada pela tomada do poder por Lúcifer?
O anjo, de que não cheguei a saber o nome, riu-se com gosto. Perdeu por momentos o ar, umas vezes pedagógico e protector, outras tenso e vagamente ameaçador, e riu-se demorada e maliciosamente.
– O Lúcifer foi um caso de sucesso. Foi das revoltas melhor recuperadas de que há memória. Achas que se ele fosse anti-sistema torturava os que lhe mandamos? Pelo contrário, procuraria tratá-los o melhor possível para ganhar aceitação popular. Não; o trabalho dele é um pouco desagradável, porque tem aquela falta cívica para pagar, mas está tão integrado e é tão necessário ao nosso sistema, como é o sistema prisional em qualquer sociedade humana. Aliás, quem me enviou está muito satisfeito com ele. O seu Inferno é a cúpula que completa o edifício teológico arquitectado.
Nesta, eu nunca tinha pensado. Senti uma náusea de repulsa por um desígnio tão totalitário. Em vez de me convencer da perfeição do sistema e de me submeter aos argumentos do anjo, fui invadido por uma onda irreprimível de rejeição, que se transmutou em descrença e não deixava espaço a qualquer mito. Abri a janela e aspirei o ar fresco da noite.
– Tretas! Não acredito em nada disso. Nem em anjos. E, mesmo que acreditasse, seria contra. – A minha voz soou com uma tal limpidez, como se eu não tivesse dito nada antes.
Ou fosse porque os últimos vapores de álcool abandonaram os meus pulmões, ou porque os mitos só se instalam na cabeça de quem lhes dá guarida, o certo é que, quando me voltei, não vi anjo algum. Acho que nessa noite dei o meu passo revolucionário mais consequente.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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