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segunda-feira, 15 de junho de 2009

Entrevista: Goulart Gomes, o criador do POETRIX




1) Os tercetos do Poetrix nos remetem, imediatamente, ao Haikai. Em que momento surgiu a decisão de romper com a métrica e com a temática deste gênero poético e inaugurar o Poetrix?

No exato momento em que descobri que os tercetos que eu escrevia – assim como vários outros poetas – não eram haikais. Isso se deu quando eu estava prestes a publicar meu livro TRIX POEMETOS TROPI-KAIS, em 1999, e conversei virtualmente com o poeta Aníbal Beça, de Manaus. Ele me fez ver que o haikai tem uma outra proposta, um outro nível de exigência, que eu não percebia. Existem vários entendimentos sobre a feitura do haikai. Eu alio-me àqueles que são considerados ortodoxos, que entendem que o haikai, em nosso idioma, deve ter 17 sílabas, distribuídas em três estrofes, com 5, 7 e 5 sílabas, respectivamente, sem título, além de possuir o “kigo”, que é a imagem ou emoção correlata às estações do ano. Sem isso, não é um haikai. O poetrix é mais “flexível”, com um máximo de 30 sílabas distribuídas à vontade nas três estrofes, título sem limite de sílabas e temática livre. Em verdade ele está mais próximo do Sijô coreano que do haikai japonês. Os três são as grandes formas de tercetos existentes, cada um em seu lugar, com seus objetivos, leitores e praticantes.



2) O poetrix foi acolhido com entusiasmo pelos internautas. Como você percebe a relação entre internet e escrita em nossos dias?

A Internet é a Meca da Brevidade. Tudo ali é rápido, dinâmico, objetivo, fugaz, conciso. E essas também são características do Poetrix. Alguém já chamou o Poetrix de Poeminha da Internet. Esse slogan, que pareceria algo pejorativo, acabou provando o inverso: que o Poetrix é a linguagem poética adequada para essa nova mídia. A Internet é como o mundo: está cheia de coisas maravilhosas e outras banais. Ela está propiciando um surgimento de uma legião de novos escritores. Os que são verdadeiramente bons ficarão para a posteridade. É preciso distinguirmos a Brevidade da Banalidade.



3) A legião de escritores que têm surgido na Internet não torna a literatura ainda mais efêmera do que ela já havia se tornado na modernidade?

Não há como se falar em efemeridade na literatura com milhares de livros sendo publicados todos os anos. Os grandes escritores continuam nos brindando com obras sensacionais e novos surgindo a cada dia. As vendas de livros pela Internet crescem a cada dia, as editoras de grande porte faturam cada vez mais. A Internet está apenas mostrando tudo que há, de bom e de ruim. Cabe ao leitor separar o joio do trigo.



4) Todo os gêneros breves - como a crônica e o conto, por exemplo - costumam sofrer de desconfiança por parte dos leitores e editoras, por causa da aparente facilidade em escrevê-los. Você percebe algum tipo de rejeição deste tipo em relação ao poetrix?

Evidentemente. É um fato que é mais fácil errar em três linhas que em 3.000, mas também é bem mais difícil acertar. Executar um poetrix perfeito, com um mínimo de palavras e um máximo de concisão e conteúdo é um desafio. Acredito que a rejeição maior seja dos críticos, que admiram mais uma Epopéia ou uma Trilogia que as formas breves. Assim como nas corridas existem os atletas que se especializam em provas curtas ou longas, também na literatura existem os autores da concisão e os autores da verbosidade. E ninguém diz que a Maratona é mais importante que os 100 metros rasos ou que as pequenas telas de Vermeer valem menos que os painéis de Diego Rivera. Em cada uma dessas atividades é preciso ter a competência, o dom, a habilidade própria, nem melhor nem pior que a outra. Estou organizando o Projeto 1001 Poetrix e, uma vez concluído, poderei testar, verdadeiramente, o grau de rejeição das editoras ao Poetrix. Vamos ver...



5) O que é necessário para se escrever um bom poetrix?

Em meu site (www.goulartgomes.com) há um texto chamado “Dez dicas para um bom poetrix”. Em suma são: evite as orações coordenadas, explore o poder do título, minimalize, pesquise, não confunda poetrix com haikai, utilize figuras de linguagem, acabe com as conjunções adversativas, não force rimas, não faça do poetrix um provérbio e o não-dito fala mais que o dito. Também recomendo a leitura da Bula Poetrix, um conjunto de orientações elaborado pela coordenação do Movimento Internacional Poetrix. Além dele, gosto muito do texto “Para Viver Um Bom Poetrix”, mais poético, que escrevi parafraseando Vinicius de Moraes. Ambos estão disponíveis no site www.movimentopoetrix.com



6) Você costuma ler os poetrix de outros poetas? É possível identificar um grande talento em tão poucas palavras?

Bastante. Habitualmente visito sites, como o Recanto das Letras, para apreciar o que os poetrixtas estão publicando por aí e já identifiquei alguns poetrixtas bem talentosos assim. O poetrix requer um talento específico. O bom poetrixta consegue até mesmo definir um estilo próprio apenas em três linhas. Na Antologia Poetrix 3, que estamos publicando agora, tem alguns poetrixtas que foram resultado dessa nossa “garimpagem”. O Concurso Internacional de Poetrix, que realizamos anualmente, é outra fonte de revelação de novos talentos.



7) Você acha que o Poetrix pode acabar sendo usado por "pseudo-poetas" para engrossar suas obras literárias devido à liberdade que ele proporciona a quem escreve, teoricamente assim facilitando a sua escrita?

O Poetrix é tão pequeno que não dá para engrossar a obra de ninguém (risos). Eu não sei bem o que seja um pseudo-poeta. Para mim, quem escreve poesia é poeta, e fim. Se escreve bem ou mal, certo ou errado, é outra história. E se o autor quer escrever poetrix bem, vai perceber que terá mais dificuldades que facilidades. Na prática a teoria é outra!



8) Até que ponto os prêmios que você recebeu influenciaram sua carreira de escritor? Qual sua opinião sobre os concursos literários?

Os concursos literários influenciaram definitivamente a minha história nas Letras. Porque, para mim, eles representaram a validação, por pessoas que entendem de literatura, do trabalho que eu fazia e faço. Esse “aplauso” serviu de estímulo para que eu continuasse me aprimorando. Existem concursos promovidos por entidades sérias e outros promovidos por outras nem tanto, apenas para ganhar dinheiro com taxas de inscrição e organização de antologias. É sempre preciso estar atento a quem está promovendo o concurso e com que objetivos.



9) Quando você concebeu o poetrix, imaginou que alcançaria as proporções em que hoje se encontra?

Para ser sincero, não. O nosso grupo virtual (hoje chamado literatrix@yahoogrupos.com.br) começou com 300 participantes. Depois, equilibrou-se em uma média de 100 integrantes. Mas, a partir dele, da atuação dos Coordenadores Estaduais e da realização dos concursos, o Poetrix foi ganhando amplitude e atingindo autores de todo o Brasil e de outros países, como México, Argentina, Uruguai, Venezuela, Colômbia, Portugal e Espanha. Só na Internet estimo que existam mais de 100.000 poetrix publicados. Isso é algo que me dá muito contentamento.



10) Considerando o que você tem visto, tanto na internet quanto nos meios tradicionais de publicação, o que você considera como principal ou principais características da poesia contemporânea no Brasil? Já é possível reunir teoricamente os poetas em "movimentos"?

Pelo que vejo, ainda estamos todos fora de lugar, fora da ordem. É a síndrome da pós-modernidade. Não consigo perceber nenhuma unicidade temática ou estilística dentre tudo o que é produzido hoje no Brasil. Ouso dizer que a única novidade, o único Movimento é o Poetrix, com seus Manifestos, a sua Bula e uma proposta concreta de criação literária.



11) Além do MIP, você tem contato com outros grupos de poetas, mais ou menos nos mesmos moldes?

Aqui na Bahia nós criamos, em 1995, o Grupo Cultural Pórtico, com a proposta de propiciar a publicação de novos autores. Entre altos e baixos, produzimos 52 livros, realizamos eventos, lançamentos e mostras. Em abril estaremos lançando a Antologia Pórtico 3, na Bienal do Livro da Bahia, reunindo antigos e novos autores. Atualmente estamos procurando estabelecer contatos com autores minimalistas dos EUA, Alemanha e Coréia do Sul.



12) O poetrix, que tem feito um grande sucesso - basta ver a quantidade de textos no site Recanto das Letras. Você conhece alguma outra linguagem ou forma poética moderna, praticada tão largamente como o poetrix? Por exemplo: no próprio RL tem tido bastante repercussão, e arrebanhando adeptos, o indriso, que é um "derivado contemporâneo" do soneto.

Não conheço. Creio que, ao lado de Décio Pignatari e Augusto de Campos, que criaram a Poesia Concreta, somos os únicos escritores criadores de uma linguagem poética de grande abrangência, ainda em atividade – quer dizer, vivos. [Sobre o indriso] É verdade. Já houve até uma proposta de criação do Indrisotrix, uma mistura do Indriso e do Poetrix. O Indriso é uma variação do Soneto tradicional, assim como o Poetrix é uma variação do Haikai e do Sijô. Ambos ainda tem um longo caminho pela frente, até o total reconhecimento. Já mantive contato com o criador do Indriso e temos um respeito mútuo pelas nossas criações.



13) Li, recentemente, o texto "Bula Poetrix", com as orientações oficiais sobre o que é e como escrever um Poetrix. Este texto surgiu na intenção de apenas normatizar a forma, ou é algum tipo de resposta a uma apropriação generalizada e por vezes equivocada do Poetrix pelos poetas virtuais?

Ambas as coisas. Nós, que coordenamos o Movimento Internacional Poetrix, sempre sentimos a falta de uma instrução oficial do MIP aos poetrixtas. Não queríamos estabelecer um documento nem um conjunto de regras, pois isso iria de encontro à própria proposta libertária do poetrix, nem poderíamos ficar passivos diante da série de enganos e exageros que são cometidos quanto à sua elaboração. Assim, resolvemos criar a BULA POETRIX, que é um consenso do que esse grupo de Coordenadores considera fundamental para a criação do Poetrix. Cada autor tem o direito de classificar a sua obra da forma que desejar, mas é importante que seja do conhecimento geral o que nós consideramos verdadeiramente como Poetrix. Muito grato pelo espaço que nos foi concedido.



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Goulart Gomes nasceu em Salvador da Bahia, em 1 de maio de 1965. Administrador de Empresas, concluiu pós-graduação em Literatura Brasileira (UCSAL) e em Gestão de Comunicação Integrada (ESPM-RJ). Atua na área de Comunicação Empresarial. Espiritualista e pesquisador de ficção científica. Fundador do Grupo Cultural Pórtico (1995) e criador da linguagem poética Poetrix (1999). Obteve 65 prêmios em concursos de poesia, prosa e festivais de música e participou de 48 coletâneas publicadas no Brasil, Cuba, Espanha, USA, Itália, França e Coréia do Sul e tem trabalhos divulgados em vários outros países. Atualmente é o Coordenador Geral do Movimento Internacional Poetrix. Como editor alternativo propiciou a publicação de 53 livros e coletâneas de novos autores.

Publicou: Anda Luz (1987), Todo Desejo (1990), Sob a Pele (1994), LinguaJá, o Território Inimigo (2000), Esfinge Lunar e Outros Enigmas (2001), poesias; Trix, Poemetos Tropi-kais (1999) e Minimal, dos males o menor (2007), poetrix; a peça teatral A Greve Geral (1997), o cordel A Divina Comédia (1989); Todo Tipo de Gente, contos (2003), Matrix Revelations – Tudo o que Você Queria Saber sobre o Filme, ensaio (2005) e Deixando de Existir, ficção científica (2009).
Homepages: www.goulartgomes.com e www.movimentopoetrix.com



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Perguntas feitas por: Carlos Alberto Barros, Henry Alfred Bugalho, Pedro Faria e Volmar Camargo Junior.

Coordenação da Entrevista: Volmar Camargo Junior

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3 comentários:

Uma bela entrevista. O projeto da revista parece bem interessante.

Goulart, mais uma vez nosso Poetrix em novas paragens. Assim seja, sempre.

beijos a todos aí e a ti, em particular.

El

O Goulart é muuuito amadinho!! Sucesso demais pra ti rapaz. Adorei a entrevista e que surjam mais poetrix para nós por ai.. Um beijoooo.

A entrevista ficou ótima!

Parabéns à equipe SAMIZDAT e ao Goulart pelo trabalho dedicado às Letras!

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