Receba Samizdat em seu e-mail

Delivered by FeedBurner

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Firewall para Mercedes

Joaquim Bispo

Há quem se queixe de que os Mercedes nunca fazem piscas. Dizem que os condutores de carros desta marca são de arrogância e sobranceria extremas, e por isso compraram um carro que pensam que os coloca acima das regras da estrada e das normas de cidadania, mesmo quando não passa de uma lata velha de marca, como se ela lhes conferisse um qualquer «estatuto Mercedes». Dizem que têm desprezo pelos peões que, para atravessar a rua, esperam em vão que o carrão passe, e pelos automobilistas que, no cruzamento à frente, aguardam que o Mercedes passe, quando o condutor, afinal, vira antes sem fazer piscas. Que obrigam várias pessoas a esperar, em vão, consciente e intencionalmente. Que fazer piscas é que não, que está acima dos seus princípios. Dizem que ignoram acintosamente os automobilistas que atrás deles têm que fazer travagens, guinadas apressadas ou perdem tempo sem razão. Que antes uma falência que fazer piscas.

Nada de mais errado – informaram-me. Os condutores de Mercedes são, duma maneira geral, pessoas com um alto sentido de cidadania. Fazem sempre piscas, cada vez que mudam de direcção, mesmo que não vejam peões ou automóveis atrás ou à frente de si. Tomam por princípio que, mesmo que não o estejam a ver, pode haver um peão ou um automobilista dependentes da sua trajectória e, em conformidade, accionam os piscas, exaustivamente, a cada curva mais acentuada. Essa é a sua postura cidadã. Simplesmente, o sistema do carro não permite que os piscas sejam vistos no exterior. É um problema de estatuto assumido pela marca, há muitos anos. Cada Mercedes está equipado com um detector que foi programado com os dados biomédicos médios de um condutor de Mercedes. A antena do detector está alojada na estrela de três pontas inscrita num círculo, que constitui o símbolo da marca. Cada vez que o condutor dum Mercedes faz piscas, o detector analisa o sinal e, se a origem for um verdadeiro condutor de Mercedes, bloqueia a transmissão do sinal. É uma espécie de «firewall» para prevenir que um qualquer condutor desses carros pífios que por aí se arrastam se faça passar por um verdadeiro piloto de Mercedes. Sim, piloto é uma designação muito mais adequada a quem conduz uma dessas máquinas transcendentes.

Dizem que tudo começou com uma alteração que um mecânico habilidoso introduziu num Mercedes, a pedido do dono. Era um cliente que sentia o apelo do «estatuto Mercedes» e temia que uma distracção ao volante o levasse a mostrar consideração pelo próximo. Rapidamente, o exemplo foi seguido por centenas de outros condutores de Mercedes, até que a marca integrou essa novidade nos modelos seguintes, para os interessados, ou seja, todos. Outras marcas seguiram o exemplo da Mercedes e hoje é frequente ver carros de diversas marcas a não fazer piscas, tanto que se chegou a falar em «estatuto BMW» e «estatuto Audi». A propagação do fenómeno vulgarizou demasiado o conceito de «estatuto», pelo que se desenvolveu um processador mais abrangente que foi designado por «espírito Mercedes». Este sistema computorizado pode ser instalado por qualquer condutor, mesmo que não possua melhor máquina que um «carocha». Ou que, como no caso dum condutor de táxi que, embora pilotando um Mercedes, não tem, em geral, «estatuto Mercedes». Socorre-se, então, do «espírito Mercedes», às vezes, melhorado com vários «up grade», não sinalizando a marcha, ultrapassando pela direita, queimando sinais vermelhos, parando a um metro do passeio, estacionando a ocupar três lugares.

Sabendo destas informações, não há razão para continuar a considerar incivilizados os pilotos dos Mercedes. E se alguma vez virem um carro desta marca a fazer piscas, tomem uma coisa como certa: o carro foi roubado. Não duvidem disso só pelo facto de verem um bronco ao volante. Também há ladrões de automóveis que têm esse ar. Mas aconselho a que não vão logo chamar a Polícia. É que o carro pode ter a «firewall» avariada.

Share


Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


0 comentários:

Postar um comentário