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segunda-feira, 11 de maio de 2009

Autor convidado – Rodolfo Bispo

Decoração

No outro dia, fui a uma loja de decoração e fiquei muito espantado, porque havia lá mobília de Estilo Colonial. Para mim, colonial significa colonialismo, exploração, escravatura, tortura, homicídio, valas comuns.
– Eh, pá, isso é o ideal para a salinha da televisão! Eu quero decorar a minha casa assim!
Se o Estilo Colonial é uma boa ideia para decoração, eu quero que a Inquisição Espanhola seja um «fashion statement»:
– Ofélia, essa mini-saia é tão… não sei… tão… Inquisição Francesa!
– Tá parva?! Esta saia é, claramente, Inquisição Espanhola! Não vê que dá com os sapatos… estes sapatos que se usam agora… Estilo Genocídio no Ruanda? Ai, adoro Genocídio no Ruanda! Quem me dera poder decorar com este estilo a minha sala! Ai, a sério, estou tão farta daquele Estilo Colonial que lá tenho! Não está tão associado a morte, escravatura e destruição quanto eu gostaria.
Eu acho que esta coisa do Estilo Colonial começou num navio negreiro. No escuro do porão, um escravo segredava a outro:
– Espero que o mundo nunca esqueça esta injustiça terrível, que esta página horrenda da História sirva de inspiração para… talvez uma moda qualquer, talvez decoração!
Deve ter sido isso. Mas por quê parar no Estilo Colonial? Por que não um passo de dança Estilo Acidente de Viação na A5?
– Eh, pá, espectacular! Muito «fashion», «man»!
Ou, por exemplo, o Estilo de Penteado Cancro nos Intestinos! Hã? Boa?

(Texto de sketch de áudio)


Yellow Submarine Aluga-se – T4+1 boas áreas

Cheguei ao computador e todos os botões estavam errados, trocados, equivocadamente posicionados. Ao lado do P estava um botão azul de uma camisa que usei uma vez para uma cerimónia de circuncisão a laser. No lugar da barra de espaços estava um espaço para alugar. E em vez do ESC tinha a ESC 2+3 (Escola Secundária de Cashkaische (Cascais dito com aparelho nos dentes)).
Quando vi que no ecrã havia dois limpa-vidros, percebi.
Saí do carro e jurei nunca mais conduzir bêbado.

Migalhas das torradas

O carcaças da minha vizinha! O caraças da minha vizinha manda-me com as migalhas das carcaças para a pontinha da janela; a beirada da minha vidraça fica forrada com a porrada de migalhas e restos das toalhas das carcaças do caraças da loiraça da minha vizinha.

Vai um em anexo

Anexei o senhor meu punho ao ficheiro facial fronteiro na zona nariguda da fronha feia de um cavalheiro que ministra um cargo político.
Fiquei com os nós imundos de Honestidade, Confiança, Rigor e outras mentiras com que a besta do senhor se maquilha antes de vir de se vender na Assembleia.
Ele que vá perguntar as horas a outro eleitor. A lata desta gente!

Ontem fui a uma exposição

Nas exposições de arte contemporânea, gosto muito de ver toda a gente descontextualizada. Pessoas normais a ver coisas muito estranhas. Espantadas:
– Mas o que é isto? Isto é arte? Esta não percebo. Mas é só isto?
Desta vez, aquilo de que gostei mais foi pintar vinte símbolos fálicos e depois convidar os meus pais e os meus sogros para me virem dar os parabéns.

(Quatro posts do blog pessoal)


Comprei uma boneca insuflável; na primeira volta tive um furo!

Se o caso "Jesus na cruz" fosse agora, não era publicitado! Não dava em Bíblia! Era só uma notícia da Faixa de Gaza no jornal da TVi!

"Deus escreve direito por linhas tortas" não faz sentido! É como um elogio ofensivo:
– A sua filha é tão bonita que podia ser prostituta!

Vi na montra duma loja: "Últimas liquidações!" – Serão saldos ou execuções sumárias?

Levei o portátil ao barbeiro...
– Alguém sabe limpar teclados? Isto está cheio de cabelos!
Do mal, o menos, podia ter ido ao Peepshow!

Aquela velhota ainda tem as maminhas firmes, ou aquilo é rigor mortis?

Mais depressa se apanha o mentiroso que o coxo. Sou pescador e para mim tanto me faz, apanhar um ou outro! Tudo o que vem à rede é Google!

Há males que vêm por bem... Sim, mas provavelmente passam por bem, contornam e seguem para mal!

Olhai os lírios do campo...espera, são silvas!

(Posts no Twitter)


Rodolfo Bispo (1981) é pintor por paixão e formação, no entanto, tem encontrado na escrita a forma de expressão adequada a mensagens menos sintéticas. Alimenta um blog pessoal desde 2003: http://www.peludoeazul.blogspot.com/ Desde 2007, tem-se deixado seduzir pelo stand up, e a escrita de humor em geral, tendo sido passados vários sketches seus no programa de rádio Cómicos de Garagem: http://ww1.rtp.pt/icmblogs/rtp/comicos-de-garagem/ Integra, também, o grupo humorístico que produz o blog: http://aultimasopa.blogs.sapo.pt/ Ultimamente, entusiasma-se com a brevidade, de possibilidades acutilantes, do Twitter: http://twitter.com/RodBispo

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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