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terça-feira, 14 de abril de 2009

Pensamento racionalmente mágico

Joaquim Bispo

Aposta dobrada
Aurélio era muito racional. Após muitas cogitações, descobriu como podia ganhar na roleta: bastava apostar sempre numa cor – vermelho ou preto – e a cada perda duplicar a aposta. Como o casino paga o dobro à aposta ganhadora, quando ganhasse, embolsava; quando perdesse, apostava o dobro. Se então ganhasse, recuperava a perda anterior, se perdesse, voltava a dobrar a aposta.
Empenhou o carro por dez mil euros e avançou, confiante. Começou com dez euros. Ao fim de uma hora já ganhava duzentos. Ao fim de três horas, quinhentos. Então saiu uma série de dez pretos e ele a jogar no vermelho. Ele não imaginava que já saíram séries de mais de vinte da mesma cor.
No dia seguinte foi para o emprego de transportes públicos.

Memória estatística
Vítor era um estudioso de estatísticas. Por elas, soube que atirando uma moeda ao ar mil vezes, saem cerca de quinhentas «caras» e quinhentas «coroas». Por isso ele acreditava que quanto maior for uma série de resultados – seis «caras» seguidas, por exemplo – maior a probabilidade de sair o oposto, para repor a média de 50%. Resolveu transportar esse conhecimento para algo rendoso.
Naquele dia, estava no casino à espera de grandes séries. Então, quando outro jogador perdeu tudo, numa série de dez pretos, fez a sua aposta milionária no vermelho. Saiu preto. Menosprezara aquele capítulo aparentemente contraditório onde se dizia que a moeda (ou a roleta) não guarda memória dos lançamentos anteriores e cada resultado tem, exactamente, a mesma probabilidade de sair.

Aposta forte
Fernanda estava agitada. Mal podia esperar pelo sorteio dos números do Totoloto. Nessa semana preenchera dez boletins cheiinhos – cem apostas. «Esta semana é que é; não pode falhar» – pensava, sem deixar transparecer o júbilo prestes a invadi-la.
Quando os números começaram a sair, sem contemplar os seus, sentiu-se a mulher mais esquecida por Deus, sem suspeitar que se Cristo jogasse mil apostas por semana, desde que nasceu até hoje, só teria ganho o primeiro prémio, probabilisticamente, umas sete ou oito vezes. Sem milagres.

Infalível
Gabriel apareceu com um esquema bola-de-neve. Queria vender três listas, cujos compradores, por sua vez, venderiam três, cada um, etc. Quando o nome dele chegasse ao cimo das listas, receberia um monte de dinheiro. Alguns colegas de trabalho compraram, outros torceram o nariz, argumentando que só os primeiros a entrar no esquema teriam alguma possibilidade de ganhar, porque, em breve, se esgotaria o universo de compradores. Mesmo contando com toda a população do planeta, um dia chegaria em que milhões de jogadores não conseguiriam compradores para as suas listas.
Não foi possível esclarecê-lo, antes pelo contrário. Chegou a comprar listas a si próprio, enviando dinheiro para o primeiro da lista. Não perdeu uma fortuna, mas ainda hoje há quem goze com ele.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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