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sábado, 18 de abril de 2009

O Milagre do Sol

Joaquim Bispo

Nas nossas sociedades muito afastadas dos tempos bíblicos, sentimos, por vezes, a nostalgia de viver situações como a de Abraão ver entrar três anjos tenda adentro, ver Cristo dar de comer a cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes ou assistir à revelação do anjo Gabriel a Maomé. Nos nossos tempos, não acontecem milagres – todos aconteceram há muito tempo e só tomamos conhecimento deles por fontes secundárias. A manifestação do sobrenatural mais recente que conheço é a aparição da Virgem aos pastorinhos em Fátima, Portugal. E só Lúcia garantiu que viu. Aconteceu, no entanto, um fenómeno extraordinário relatado pelos jornais e assistido por muitas das cinquenta mil pessoas presentes: o milagre do sol, na sequência da aparição de 13 de Outubro de 1917.

Segundo uma testemunha que na altura tinha nove anos, «eu olhava fixamente o astro; pareceu-me pálido e privado da sua deslumbrante claridade; dir-se-ia um globo de neve girando sobre si mesmo. Depois, subitamente, pareceu descer em ziguezague, ameaçando cair sobre a Terra. (…) Durante os longos minutos do fenómeno solar, os objectos colocados perto de nós reflectiam todas as cores do arco-íris… os nossos rostos ficavam ora vermelhos, ora azuis, ora amarelos. (…) Ao fim de dez minutos, o Sol retomou o seu lugar, da mesma maneira que dali tinha descido, sempre pálido e sem luminosidade.»

Outra testemunha disse: «O Sol começou a bailar e a dada altura pareceu deslocar-se do firmamento e em rodas de fogo, precipitar-se sobre nós.»

Outra, ainda: «coisa mais espantosa era poder olhar para o disco solar por muito tempo, brilhando com luz e calor, sem ferir os olhos ou prejudicar a retina. [Durante este tempo], o disco do sol não se manteve imóvel, teve um movimento vertiginoso, não como a cintilação de uma estrela em todo o seu brilho, pois girou sobre si mesmo num rodopio louco.
Durante este fenómeno solar, que acabo de descrever, houve também mudanças de cor na atmosfera. Olhando para o sol, notei que tudo se escurecia. Olhei primeiro para os objectos mais perto e depois estendi a minha vista ao longo do campo até ao horizonte. Vi que tudo tinha assumido cor de ametista. Os objectos à minha volta, o céu e a atmosfera, eram da mesma cor. Tudo perto e longe tinha mudado, tomando a cor de velho damasco amarelo. As pessoas pareciam que sofriam de icterícia e lembro-me de uma sensação de divertimento ao vê-los tão feios e repulsivos. A minha mão estava da mesma cor.
Então, de repente, ouviu-se um clamor, um grito de agonia vindo de toda a gente. O sol, girando loucamente, parecia de repente soltar-se do firmamento e, vermelho como o sangue, avançar ameaçadoramente sobre a terra como se fosse para nos esmagar com o seu peso enorme e abrasador. A sensação durante esses momentos foi verdadeiramente terrível.»


Como eu gostaria de lá ter estado, mas isso aconteceu há quase cem anos. Conversando sobre este assunto com uma tia devota, ela disse-me que há pessoas que afirmam presenciar um milagre do sol semelhante, durante a procissão de Santo António, a 13 de Junho, em Lisboa. Fiquei alvoroçado com a possibilidade de assistir a um fenómeno tão prodigioso e, na data indicada (há uns dez anos), lá estava eu integrado na procissão, atento, quer à ambiência celestial, quer à humana. Junho em Lisboa, às cinco da tarde é quente. A procissão movia-se devagar em frente da Sé. Então, comecei a ouvir algumas pessoas – uma aqui, outra ali – a chamar a atenção para o sol, a apontar, a dizer que viam o sol a girar. Uns e outros olhavam, tentando ver o fenómeno. O entusiasmo não era grande. Olhei também, de relance. O sol era uma bola de fogo, como habitualmente, perigoso para os olhos como sempre.

Então, julguei compreender tudo. Eu estava farto de assistir a milagres do sol, cada vez que jogava ténis quando, tendo que acompanhar alguma bola alta, dava com os olhos no sol: a minha retina ficava maculada com uma mancha, onde o sol a queimara e, durante um bocado, uma mancha com a mesma forma e de uma cor arbitrária, sobrepunha-se a tudo o que eu olhava. Para mim, aquela gente estava a queimar a retina irresponsavelmente, e foi isso que disse a algumas pessoas, levemente receoso de que me considerassem herege. Ninguém ficou escandalizado ou irritado, talvez só um pouco pesaroso de que o seu desejo não se concretizasse. Eu próprio fiquei um pouco desapontado, embora não esperasse outra coisa.

O «milagre do sol» de 1917 tem aspectos difíceis de enquadrar numa única explicação. Há até quem fale em Ovnis. Eu, por mim, fico dividido. Por um lado, gosto de cultivar uma atitude de abertura, conforme aprendi do astrónomo francês do século XVIII, Laplace:

«Estamos tão longe de conhecer todas as forças da Natureza e suas múltiplas modalidades de acção, que seria pouco filosófico negar a existência de certos fenómenos apenas porque não podem ser explicados no estado actual dos nossos conhecimentos.»

Por outro, irritam-me as explicações de base sobrenatural, que, até agora, só nos fizeram perder tempo precioso na compreensão do Universo. Gostei do que ouvi há dias a um cientista evolucionista:

«Não há conflito entre ciência e sobrenatural. Se houvesse fantasmas, fadas, duendes, a ciência teria de os investigar. O problema não é da ciência, mas do Universo que nos calhou, que não veio equipado de sobrenatural.»


Fontes:
Seomara da Veiga Ferreira, As Aparições em Portugal dos Séculos XIV a XX, Relógio d'Água, 1985.
http://pt.wikipedia.org/wiki/O_Milagre_do_Sol
http://www.fatima.org/port/essentials/facts/pmiracle.asp

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


5 comentários:

Não conhecia esse tal Milagre do Sol. Interessante... Pelos depoimentos, até me convenci de que, de fato, tenha acontecido algo próximo ao fenômeno descrito.

Agora, a idéia das retinas queimadas também é uma boa. Será que os apóstolos queimaram suas retinas no pentecostes?!...

É curioso que, apesar da extraordinária escala e do dramatismo do que foi observado por algumas testemunhas, outras houve que, nos mesmos local e hora, nada viram.

O mais curioso é não haver nenhum registro destas pessoas que estando no mesmo local e na mesma hora nada viram, mesmo o mais empedernido dos incrédulos não há de dar aos comentários de joaquim mais crédito do que ao Gilgamesh. Só agora, cema nos depois nos chega esta patacoada.

Estive ontem, dia 13 de Junho de 2011, na procissão de Santo António em Lisboa, onde pude ser testemunha do milagre do sol que tantos dizem acontecer todos os anos.
Foi uma experiencia que não esquecerei nunca, rica de sensações, mas também de factos estranhos. O que mais me intrigou é que, enquanto eu estive certa de 15 minutos a olhar intensamente para o que via, sem qualquer esforço, outras pessoas não conseguiam, sequer, olhar 1 segundo para o sol e declararam que nada viram...

2011, na procissão de Santo António em Lisboa, onde pude ser testemunha do milagre do sol que tantos dizem acontecer todos os anos.
Foi uma experiencia que não esquecerei nunca, rica de sensações, mas também de factos estranhos. O que mais me intrigou é que, enquanto eu estive certa de 15 minutos a olhar intensamente para o que via, sem qualquer esforço, outras pessoas não conseguiam, sequer, olhar 1 segundo para o sol e declararam que nada viram...

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