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quarta-feira, 8 de abril de 2009

Gêmeos

Volmar Camargo Junior

 

 

Eram gêmeos, um macho e uma fêmea.

 

Ainda bebês, dependentes, dominados pelos ímpetos animais da sobrevivência, ficaram órfãos. Viviam em um ambiente que era resultado de muitas das aspirações de toda a humanidade. O mundo nunca tomou conhecimento da maravilhosa casa em que foram abandonados. As crianças, por sua vez, jamais souberam que havia outros seres humanos além deles próprios. A respeito da casa, basta dizer que antes de ser uma habitação, o colossal edifício era um ser vivo, um autômato dotado da fria e desejada inteligência das máquinas. Servia aos seus habitantes sem a necessidade de operação, a casa permanecia atenta aos movimentos e desejos dos irmãos gêmeos. E além dos bebês, nada mais era importante.

 

E, por mais absurdo que nos pareça, essa maravilhosa habitação abrigava em seu interior um bosque cortado por um riacho.

 

Os órfãos cresceram sem o conhecimento de coisas como senso comum ou auto-limitação. Tudo o que sabiam devia-se somente às suas necessidades. Uma vez que não havia uma força exterior que lhes ditasse as leis que regem o existir, as crianças eram capazes de prodígios. Para nós, tais capacidades seriam absurdas e maravilhosas. Para eles, não passavam de respostas naturais ao ambiente. Deslocavam-se sem o empecilho oferecido pela gravidade, percorrendo o espaço em qualquer direção. Sendo plenamente conscientes da existência um do outro, comunicavam-se sem o esforço de emitir sons. Aprenderam a compartilhar as sensações e, quando mais experientes, obstáculos ou distância deixaram de ser entraves para seus sentidos.

 

            Brincavam de descobrir coisas escondidas acessando a memória um do outro. Um dia, durante essa mesma brincadeira, sobreveio-lhes ao acaso uma lembrança antiga, de quando saíram da escuridão para a luz. Não souberam dizer o que era essa lembrança, mas sabiam que eram tão intimamente ligados por causa dela. Não havia um nome, mas era como eles: uma fêmea grande cujo corpo era fonte de alimento, calor e aconchego. Daquele dia em diante passaram a cultivar o hábito de voltar àquele mesmo lugar da memória para sentirem-se acolhidos pela imensa fêmea desconhecida. O tempo correu, e as brincadeiras deles já não os entretinham, e o prazer das carícias mútuas era um refúgio para o vazio que crescia a medida que envelheciam.

 

Um dia, desejaram descobrir por que aquela criatura existente apenas em suas lembranças era-lhes tão atraente e, a despeito disso, sua ausência causava-lhes sofrimento. Juntos, desejaram que ela existisse.

 

E ela existiu.

 

Nasceu adulta, mais velha que eles. Tinha os seios fartos, grande, gorda e bonita, exatamente como a imaginavam. Por um tempo sem conta, passaram aninhados, aquecendo-se e alimentando-se ao seio da mãe que haviam criado.

 

Entre si, os gêmeos partilhavam tudo. A mãe, entretanto, não dividia com eles as mesmas capacidades. Para conversar com ela, os gêmeos batalharam até encontrar uma linguagem que lhe fosse acessível. E assim que pronunciaram a primeira idéia através de um som, perderam a habilidade de comunicar-se por pensamento. Pelas limitações espaciais da mãe, os irmãos inconscientemente escolheram não magoá-la, quando abusavam de suas capacidades de voar e de mudar sua posição no espaço sem percorrer a distância entre dois pontos. Por isso, caminhavam com a mãe por horas, até mesmo dias, dentro do bosque gigantesco. E em algum tempo, que pode parecer-nos muito breve, os gêmeos passaram a ser pessoas comuns, sem nenhum esforço.

 

Surgiu então algo com o qual os gêmeos não sabiam como lidar. Tornaram-se  dependentes daquela nova criatura. Precisavam chamar-lhe a atenção, atrair sua aprovação, perceber as coisas como ela. Surgiu o conflito e o ciúme entre os irmãos, que há muito já não compartilhavam mais os pensamentos. A incapacidade de ter toda a atenção materna fez com que eles entrassem em atrito. Munida apenas pelo afeto, seu único recurso, a mãe tentou em vão apaziguá-los.

 

De um constante mal-estar, a convivência entre os três tornou-se insuportável. Depois de uma discussão violenta, os gêmeos, pela primeira vez desde que recordavam, separaram-se. A mãe, resignada e impotente, ficou só.

 

A casa, que era a máquina mais perfeita até então criada, sabia em sua inteligência maquinal que a condição de sua existência era que prevalecesse a paz entre os gêmeos. Caso contrário, quereriam escapar de suas dependências, e certamente fariam isso. Não intervinha no modo de viver do prodigioso casal, mas era programada para não deixar que nada os perturbasse. Compreendeu que aquela nova fêmea, a mãe gerada pelo pensamento dos gêmeos, tinha sido um erro de cálculo, algo imprevisto e que, por isso mesmo, promovia a desordem. Assumiu a diretriz de eliminá-la.

 

Durante os poucos dias que viveu na ausência dos filhos adotivos, a mãe teve de lutar contra o bosque, e contra a ira da natureza, para sobreviver. Todos os frutos que coletava para comer faziam-lhe doer o estômago. A água que bebia do riacho causava-lhe náuseas e vômitos. Foi picada por insetos, teve de esconder-se de predadores até que, finalmente, caiu de um penhasco que não estivera lá nos dias anteriores.

 

Os gêmeos estavam muito distantes um do outro, sofrendo com a mágoa e outros dos sentimentos que nunca tiveram, como saudade e o remorso, quando foram avisados por algo vindo das profundezas de seus inconscientes: a mãe estava em apuros. Imediatamente foi-lhes restituído o poder de deslocar-se sem tocar no chão, e de saberem precisamente onde o outro estava. E por todos os lugares que alguma vez estiveram naquele bosque, e em muitos que nem eles sabiam existir, em nenhum deles encontraram a mãe. Então, pela primeira vez desde que se lembravam, sentiram uma dor incapaz de ser contada, ou passível de ser reproduzida por quem não a sofre.

 

Para tentar diminuir a dor que sentiam, buscaram-se outra vez. E se acariciaram como nunca haviam feito antes.

 

O tempo passou, e a mãe tornou-se outra vez uma lembrança. Os gêmeos percebiam-se muito diferentes. Por um lado, estavam mais próximos um do outro. Por outro, sentiam-se cada vez mais desejosos de ir até os limites do bosque. Desejavam que além das árvores, talvez depois de onde nascia o rio, existisse o lugar para onde a mãe tivesse ido. Porém, desde que se recordavam, a primeira vez que um desejo seu não se realizava.

 

O macho olhava constantemente para o céu, para as árvores, para os animais, e nenhuma dessas coisas respondia ao que ele mentalmente lhes perguntava:

 

“O que há além desse bosque?”.

 

A fêmea olhava para própria barriga. Sentiu que o sangue que surgia de dentro dela a cada ciclo da lua – pois eles conheciam bem a lua, e não sei explicar como isso era possível – parou de vir. Seus seios doíam um pouco, mesmo às carícias mais delicadas do irmão. E, de dentro da única porção inacessível de sua intimidade, a fêmea soube algo que o macho jamais saberia se ela própria não lhe contasse, mesmo ele que fosse o mais prodigioso ser existente. A fêmea sentia-se como aquela fêmea estranha que habitava um lugar em seu pensamento, e que ela e o irmão fizeram existir. A fêmea seria mãe.

 

O macho não se conteve de alegria, uma alegria indizível, que nunca havia sentido, assim que suas mentes se comunicaram. E cresceu dentro dele a absurda vontade de conhecer os limites de seu habitat. Era uma coisa absolutamente nova, e sabiam que eram capazes de gerar vida. Estava imbuído de algo que sabia ser, mas para o qual não tinha um nome próprio, o que as pessoas comuns chamam “paternidade”.

 

Decidiram partir juntos em busca dos limites, encontrar o lugar desconhecido além das árvores. Em vão. A fêmea sentia-se muito mal planando como faziam antes, e por isso, passaram a locomover-se outra vez com os pés. Os ciclos inteiros da lua passaram oito vezes, e a barriga da fêmea, maior a cada lua cheia, permitia-lhe mover-se cada vez mais devagar. Então, no momento em que o casal de consortes-irmãos soube, pela silenciosa afinidade que tinham, pararam. A fêmea deu à luz dois bebes.

 

A casa-máquina sabia exatamente o que estava acontecendo. Programada há tanto tempo que nem no mais remoto compartimento de sua memória de máquina havia um registro, a casa preparou tudo. Era o seu dever permitir que os irmãos gêmeos, e apenas eles, vivessem plenamente suas existências.

 

Eram gêmeos, um macho e uma fêmea.

 

Ainda bebês, dependentes, dominados pelos ímpetos animais da sobrevivência, ficaram órfãos. Viviam em um ambiente que era resultado de muitas das aspirações de toda a humanidade. O mundo nunca tomou conhecimento da maravilhosa casa em que foram abandonados. As crianças, por sua vez, jamais souberam que havia outros seres humanos além deles próprios.

 





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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

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