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quinta-feira, 5 de março de 2009

O atraso da Primavera

Joaquim Bispo



Há muito, muito tempo, quando o Homem vivia ao ritmo das estações, houve um ano em que a Primavera se atrasou para além do habitual. Passou Março, Abril ia adiantado e nem sinais dela.
O Verão, lá dos pomares que habitava, olhava, olhava e os campos que vislumbrava mantinham-se desolados, gelados, batidos pelo vento. Temendo pela eclosão das sementes e preocupado com o que pudesse ter acontecido à Primavera, resolveu procurar o Outono para lhe comunicar o que estava a acontecer e decidirem o que fazer. Muniu-se duma coroa de raios solares e pôs-se a caminho. Em breve atingiu as florestas onde o Outono vivia. Este, ficou muito preocupado com o que o Verão lhe contou e sugeriu que fossem falar com o Inverno, que vivia numa gruta rochosa numa montanha a norte. Talvez ele soubesse alguma coisa ou pudesse ajudá-los a procurar a desaparecida. Pôs pelos ombros uma ampla capa de folhagem castanha, vermelha e amarela e puseram-se a caminho. Andaram, andaram por campos vazios e silenciosos e prados de plantas cinzentas e murchas. O vento assobiava gélido e selvagem. A progressão ia-se tornando mais penosa, por serras escalvadas e desfiladeiros atulhados de neve. Ao fim de uns dias, chegaram finalmente à caverna do Inverno.
Entraram. O frio parecia mais intenso, o escuro era medonho. Ao fundo de uma galeria, encontraram o Inverno agitando as suas asas de morcego sobre o seu manto de nuvens negras, atarefado com o funcionamento do enorme fole que soprava os ventos agrestes por sobre os montes e os vales.
– Inverno! – bradou o Outono, que era quem tinha mais contactos com ele. – Já viste a Primavera este ano?
O visado virou-se lentamente e, de cabeça baixa, mirou os visitantes por baixo das sobrancelhas nevadas.
– Ó entes tresloucados, o que fazeis por estas paragens? Abrigai-vos aí nessa côncava, que não estais habituados a estes frios.
– Não te preocupes connosco, que estamos protegidos – a voz possante e clara do Verão encheu a caverna. – O que nos preocupa é que já estamos a chegar a Maio e ainda não vimos a Primavera.
O Inverno imobilizou o fole e aproximou-se dos visitantes.
– Não te abespinhes, Verão! Sei que és jovem e sanguíneo mas a hospitalidade é um dos meus princípios. Sim, já a vi. A pobrezinha está lá dentro, deitada. Mas, descansai um pouco. Sentai-vos.
– Que lhe fizeste, velho perverso? Abusaste dela? – a coroa do Verão faiscava.
O Inverno olhou-o com indulgência. Juntou uns cavacos e acendeu uma fogueira.
– Esqueces-te que é minha filha? – murmurou. – Está um pouco atrasada, só isso. A juventude não tem o sentido das responsabilidades! – a sua voz parecia denotar algum desapontamento, enquanto lhes servia um ponche quente.
O Outono, mais cordato, sorveu um trago e indagou:
– Mas diz-nos, Inverno, que se passa com ela para deixar assim as plantas e os animais em completa desorientação?
– Ela esteve no outro hemisfério, como faz todos os anos, mas desta vez parece que conheceu lá alguém interessante – um tal a quem chamam El Niño – e só voltou há meia dúzia de dias. Vinha exausta e toda alvoroçada, de modo que eu achei melhor ela descansar uns dias antes de reiniciar as suas tarefas. Esperai que eu vou chamá-la!
Enquanto se afastava para a zona mais escura da caverna, o Verão mostrava-se inquieto:
– Acreditas nele?
– Não sei. Vamos esperar. Mas, se for verdade, acho incrível que a menina tenha ficado no bem-bom, para lá da licença, e que, chegada aqui, o papá ainda ache que a filhinha precisa de descansar. Não é espantoso?
– Claro! Eu acho que isto não pode continuar! Ou bem que se assumem compromissos ou não!
Pouco depois, entrava a jovem, deslumbrante num vestido de pétalas de amendoeira e uma tiara de flores amarelas de giesta que acentuavam o azul celeste dos olhos.
– Oh, que queridos! Preocupados por minha causa! – beijou ambos, ao mesmo tempo que lhes fazia uma festinha no rosto. – Estava cansadíssima. Foram umas férias e tanto! Fiz falta?

Posta a conversa em dia, a Primavera despediu-se. Com as suas asas brancas elevou-se nos ares, sob o olhar embevecido do trio. As nuvens negras rasgaram-se e dissiparam-se, o céu azul apareceu e o Sol beijou os prados, os pomares e os bosques. Do alto, começaram a cair pétalas de todas as cores que esvoaçavam e pousavam delicadamente sobre todas as plantas. Os talos esqueléticos onde elas tocavam começaram a lançar rebentos que se abriam em folhas e flores. Cheiros adocicados flutuavam ao sabor da brisa suave. Nuvens de abelhas, besouros e gafanhotos cruzavam os ares em azáfamas surpreendentes. Passarada de todos os tamanhos e cores revoluteava a alimentar-se, a acasalar, a construir ninhos. Os seus inúmeros chilreios misturavam-se com as cegarregas de grilos e cigarras e o coaxar das rãs.
A temperatura era agora fresca mas amena, os campos fervilhavam de cores e vida e os homens estavam felizes. Atrasada mas fulgurante, tinha chegado a Primavera.


[Conto publicado, em Maio de 2007, na
revista CAIS – revista vendida na rua pelos sem-abrigo portugueses, de cuja venda guardam 70% e que constitui o seu modo de subsistência temporário]

Imagem daqui: http://schlange.files.wordpress.com/2007/03/

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
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