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quarta-feira, 18 de março de 2009

Monumento ao vandalismo

Joaquim Bispo
(no Parque Eduardo VII, em Lisboa)

Alguém vislumbrou, mentalmente, esta forma imersa na pedra amorfa e executou este trabalho grandioso; obra difícil de conceber, dolorosa de parir.


Outro alguém optou por dar início à tarefa fácil, mesquinha, perversa de a desagregar e devolver ao informe.
Que mente doentia, que espírito atormentado, que alma putrefacta é que toma por missão mutilar e desfigurar uma escultura em pedra, tão simples e majestosa como esta?

Concedamos, esta escultura não é das melhores obras que a Humanidade já produziu mas, ainda que fosse a mais aberrante, ninguém tem o direito de alterá-la, e, desde o momento em que ela foi entregue ao público e se tornou bem cultural colectivo, nem mesmo o artista que a concebeu.

(E quanto alguns querem alterar a sua obra! É paradigmática a história dum pintor francês que, tendo uma obra sua num museu importante, mas estando descontente com um determinado matiz que tinha usado, conseguiu a colaboração de um amigo para entreter o vigilante, enquanto pincelava rapidamente a zona em causa com um matiz que achava mais adequado.)

Esta escultura foi adulterada e é curioso que essa alteração lhe acrescentou significados. Já não representa só uma deusa ou uma virtude, representa agora, também, a maneira como esta sociedade lida com as suas obras de arte expostas e o que isso significa de divórcio em relação à arte da tradição cultural e de desrespeito pelo espaço público e pelo outro. Ou, o que era uma entidade majestosa e poderosa se ter transformado em vítima impotente. Ou outros sentimentos que nos acodem ao ver esta figura mutilada. É toda uma outra obra de arte que temos perante nós. Que algum artista plástico podia ter concebido, assim mesmo, mutilada. Como no século XIX se construíam ruínas de raiz.

Neste sentido, pode-se questionar se se deve devolver a estátua à sua forma original. Tenho a certeza que, se houvesse discussão pública sobre este assunto, haveria quem defendesse a manutenção do estado actual da obra. Assim, como está, transmite muito mais da sua história como escultura e da mentalidade desta sociedade.

Significa isto que se pode desculpar quem vandaliza esculturas no espaço público? Nem um bocadinho! E é condenável alguma cultura da novidade, alguma postura de repúdio pelo que vem de trás, pela cultura dos pais e dos avós, só porque tem umas dezenas de anos; pelo património, só porque apresenta alguma pátina que o tempo dá.


É sintomático que estejam a substituir as esculturas em pedra no espaço público por esculturas em bronze e aço. A ver se resistem aos activos interventores de espaço público que por aí obram. Como esta, de Teixeira Lopes, que fazia conjunto com um busto de Eça de Queirós com a legenda «Sob o manto diáfano da fantasia, a nudez forte da verdade», retirada de «A Relíquia» do citado romancista.

Acho bem que as substituam. É que, além do mais, não é necessário mais do que 1 monumento ao vandalismo na mesma cidade!
(Fotos pelo autor do texto)

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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