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domingo, 8 de março de 2009

Laboratório Poético: a narração na poesia

Volmar Camargo Junior


O que brota da terra

 

dois besouros desses que brotam da terra

um casal ou

pai e filho ou

rivais por uma oportunidade rara

     de permanência no mundo

     entre tantos insetos

 

giram no ar

uma dança ou

enlace ou

alguma forma de comunicação

 

sem ruído

unidos no ar

contornam as linhas

de um desenho irreproduzível

 

uma vez separados

tornam a se enfiar na terra

escondem-se daquelas linhas invisíveis

e de uns olhos curiosos

 

se sob a silenciosa inércia da terra

lutaram até a morte ou

permaneceram separados ou

tornaram a se encontrar

     - e unidos permitiram

     a permanência no mundo

     entre tantos insetos –

eu nunca soube, nunca

     voltei a ver besouros sobre a superfície

 

o desenho e as linhas traçadas

ficaram plantados nalgum canteiro da memória

e por mais atenção que lhes dedique

deles jamais brotou sequer um rascunho






ironia

 


i.

 

que esperar de um mundo

de casca lisa, dura e seca

e miolo quente e macio

 

senão a ironia besta

de vê-lo como um ovo cozido

oval forma de planeta

 

 

ii.

 

na secura lisa da casca

encontrei um oco escondido

em velha pedra esquecida

 

a tal que o operário erudito

ignorou por ser um esteta

e o mais que aqui não repito

 

 

iii.

 

o oco da pedra era o ninho

duma ave cuja exótica dieta

era de pátrias, homens e livros

 

o que achei até hoje me espanta

e hoje ainda me assombro sozinho

um arrepio de medo ainda agora

 

 

iv.

 

eram ovos, uns tantos ovinhos

de casca lisa, dura e seca

e miolo quente e macio

 

que ironia, se essa ave choca

e assim do ovo nasce um bicho

e o bicho abre o bico e grita

 

 

v.


as cascas do ovo virariam comida

o ninho da ave viraria comida

o oco da pedra viraria comida

 

pátrias, homens, livros

a própria mãe do passarinho

e eu mesmo, se não sair correndo



vi.

 

e se ele devorar a si próprio

que ironia, meu Deus, que ironia

mesmo o nada seria devorado

 

melhor continuar com a ironia besta

pensar o mundo como um ovo cozido

ainda que ridícula, oval forma de planeta





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Volmar Camargo Junior EDITOR DE POESIA
Volmar Camargo Junior, V., nativo de Cruz Alta, ativo em Rio Grande, é poeta, vendedor de livros. professor não praticante, arquivista em formação, pai do Dimitri. Escreveu os blogs Um resto de café frio e O balcão das artes impuras. Escreve o Verbo.

todo dia 08


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