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sábado, 14 de março de 2009

Crepúsculo

Joaquim Bispo

– As informações que recolhi, Grande Kha, indicam que o clima sofreu variações dramáticas nos últimos ciclos. As grandes quantidades de poeiras, fumos, e óxidos de carbono e de enxofre lançadas para a atmosfera, foram imperceptivelmente criando uma capa que, deixando penetrar muita radiação, constituía um obstáculo à sua libertação para o espaço. Isso provocou um aquecimento progressivo que fez derreter as calotes polares, aumentou exponencialmente a evaporação dos oceanos, e favoreceu vagas de incêndios que devastaram as florestas das zonas equatoriais e adjacentes. Tanto vapor de água na atmosfera começou a impedir a luz solar visual de chegar ao solo, mas que continuava a deixar penetrar a radiação infra-vermelha. Sem luz solar, a fotossíntese deixou de se fazer. As plantas morreram e os que delas se alimentavam. O calor tornou a vida impossível à maior parte das espécies, até às latitudes polares. Os organismos ficaram literalmente estufados. Neste mundo escuro e escaldante, medram fungos de todas as espécies, que dispõem de muita matéria orgânica em decomposição. Os indivíduos da espécie dominante – os 50 milhões que restam – retiraram-se para junto dos pólos. Chamam Novo Mundo ao continente situado no pólo sul. Creio que estão criadas, enfim, as condições para a nossa instalação.

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Joaquim Bispo
Português, reformado, ex-técnico da televisão pública, licenciado tardio em História da Arte. Alimenta um blogue antiamericano desde o assalto ao Iraque e experimenta a escrita de ficção desde 2007, com pontos altos nas oficinas virtuais da revista Samizdat, de Henry Bugalho, e da Câmara dos Deputados do Brasil, de Marco Antunes. Integra várias coletâneas resultantes de concursos literários dos dois lados do Atlântico.
todo dia 25


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