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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

A Filha da Capa

— Gerusa, você viu esta pouca vergonha?

— Benza Deus! Olha como nossa filhinha ficou bonita na revista!

— Bonita? Ela está peladona da Silva! Meu Deus, que vergonha! A gente cria uma filha com tanto carinho para ela acabar assim, como veio ao mundo em uma revista de tarados? Eu virei motivo de chacota lá no ponto de táxi, todos os colegas me apontaram. Apontavam para esta revista, para mim e diziam: “Olhem como a filha do Adalberto é gostosa”. Tinham a safadeza no timbre da voz.

— Deixa de besteira, homem. Nossa filha agora é famosa.

— Eu imagino a fama dela. Sabia que quando ela veio com esta história de que iria morar fora pra ter “o seu espaço” era nisso que ia acabar.

— Acabar em quê?

— Nossa filha é uma perdida Gerusa! Será que você não percebeu?

— Ninguém se perde mais homem. Ela se achou, isto sim, achou uma carreira.

— Nossa Senhora! Ela quando saiu daqui de casa não tinha estes peitões!

— Silicone, Adalberto.

— E quem pagou por isto?

— O padrinho dela. Um senhor que ajuda ela na carreira. Ele é o empresário.

— Nunca mais boto minha cara na rua...

— Relaxe, Adalberto. São só umas fotinhas. Hoje os tempos são outros.

— Sou do tempo em que uma costa nua já provocava um escândalo. Não isto aqui. A gente quase consegue ver o interior da... eu vou sair Gerusa! Vou comprar todas as revista da cidade! Não quero meu nome emporcalhado por uma safadeza destas!

— Vai comprar todas as revistas do Rio de Janeiro?

— E esta tatuagem indecente no traseiro? “Made In Brazil”. Quem iria tatuar um “Made in Brazil” nas ancas se não estivesse à venda?

— Você é muito careta, Adalberto. Estou tão orgulhosa da nossa filhinha...

— Jesus! E este “R” aqui na perseguida?

— Foi ideia minha.

— Sua? Quer dizer que você sabia? Traído dentro de minha própria casa...

— Deixa eu te explicar, homem. Foi uma jogada de marketing.

— E desde quando você entende marketing, mulher?

— Desde que vejo programa de fofocas na TV. Ela precisava depilar a... a perseguida para as fotos. Então eu sugeri que ela fizesse um “R” lá para, se perguntassem, ela dissesse que era uma homenagem ao namorado.

— E quem é este otário que está namorando esta aprendiz de Messalina?

— Bonito este nome, Adalberto. Nossa filha podia usar como nome artístico. Não tem namorado, seu bocó. Fica o mistério de quem seria o “R”. Tem muito jogador de futebol que começa com a letra “R”.

— Não quero ouvir mais nada... Aliás, não quero também ver mais nada! Joga esta revista pecaminosa no lixo, Gerusa!

— Isto Nunca. Vou guardar de recordação. Minha filha agora é uma artista! Já vejo os próximos passos. Ela vai para o Bigue Bródi e depois, capa da Prei bói! Adalberto... Adalberto, você tá bem? Meu Deus, você tá ficando roxo! Vou ligar para o seu cardiologista! Adalberto! Fala comigo, Adalberto!

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Zulmar Lopes
Carioca, jornalista, contista e aspirante a romancista, Zulmar Lopes tem um punhado de prêmios literários, a maioria de nenhuma importância. Membro correspondente da Academia Cachoeirense de Letras (ACL). Roteirista do curta de animação “Chapeuzinho Adolescente”. Em 2011 lançou o livro de contos “O Cheiro da Carne Queimada”. Finalmente concluiu o maldito romance cujo pano de fundo é o carnaval carioca e está na expectativa de que alguma editora incauta se atreva a publicá-lo.
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