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domingo, 4 de janeiro de 2009

Lolita, de Vladimir Nabokov


Nunca é fácil se aproximar dum livro como "Lolita", de Vladimir Nabokov. Abrimos suas páginas repletos de opinões prévias, de preconceitos, de interpretações herdadas de outros ou da nossa experiência com as adaptações cinematográficas.

Eu já assisti às duas versões para o cinema, a de 1962, dirigida por Stanley Kubrick e com roteiro do próprio Nabokov, e a mais recente, de 1997, com Jeremy Irons no elenco.
Nenhuma das duas impressionam, nem pela história, nem para quem busca o elemento erótico. O filme de Kubrick é contido - não se poderia esperar mais da época -, enquanto a última versão é fraca.
Felizmente, Nabokov e sua "Lolita" são muito maiores do que o estrago feito pelo cinema. Logo nas primeiras páginas, nas primeiras linhas, temos as doses iniciais de genialidade de Nabokov. A escrita magistral deste autor russo-americano extrapola qualquer adaptação, é irreprodutível.

O narrador da obra é Humbert Humbert, um intelectual francês obcecado por ninfetas. Ele se muda para os EUA e, na casa da sua senhoria, conhece a filha dela, Dolores Hayes, ou Lolita, para os íntimos.
Lolita tem apenas 12 anos e, aparentemente, é uma adolescente como outra qualquer: deslumbrada pelos galãs de Hollywood e mascadora de chiclete. Imediatamente, Humbert se apaixona por ela, se é que a fixação do protagonista pode ser considerada paixão. Antes de tudo, Humbert tem um desejo carnal incontrolável pela menina.
Humbert se casa com Charlotte, mãe de Lolita, apenas para poder se aproximar ainda mais da garota.
A morte de Charlotte liberta Humbert e o permite finalmente se tornar amante de Lolita. Ambos partem numa viagem pelos EUA, de costa a costa, vagando por hotéis de beira de estrada, fugindo para poderem viver uma existência condenada pela sociedade.
Humbert é muito racional, apesar de seu comportamento passional; ele sabe que o relacionamento entre um homem e uma menina de 12 anos é condenável e durante todo o romance ele tenta se justificar: apresenta vários argumentos e inúmeros casos semelhantes no curso da História e, por alguns momentos, até chega a convencer o leitor.
A primeira parte do romance possui alguns trechos eróticos, mas de maneira alguma a escrita de Nabokov se torna vulgar. Através de metáforas, duma escolha quase absurda pela palavra certa, o autor contorna seu objeto e sublima o comportamento execrável do protagonista. Na segunda parte, as cenas eróticas quase desaparecem e inicia o afastamento entre Humbert e Lolita, que culiminará com a fuga da menina e o assassinato que arruinará a vida de Humbert.
Qualquer um que assistiu aos filmes sobre "Lolita" conseguirá visualizar o desenvolvimento do enredo, mas apenas a leitura permite o acesso ao maravilhoso estilo literário de Nabokov.

A princípio, Lolita é apresentada a nós quase como uma vítima da lascívia de Humbert, porém, aos poucos, o quadro se inverte e Humbert se converte na presa de Lolita, submetendo-se a todos os caprichos da menina. Contudo, do mesmo modo que o romance de Machado de Assis "Dom Casmurro" nos lança questionamentos sobre a fidelidade de Capitu, sem nos permitir uma resposta conclusiva, posto que a narração é feita a partir da visão do protagonista, Bentinho, em "Lolita" também não podemos ter certeza até que ponto a narração de Humbert é fidedigna. Humbert sempre se dirige a nós leitor e a um juri imaginário; ele se defende; ele justifica seus atos; por isto, não podemos esperar que ele esteja nos contando toda a verdade, mas sim apenas a verdade que ele quer que vejamos.

Há uma crítica burra que alega ser "Lolita" uma apologia à pedofilia. Isto seria equivocado, se não fosse uma crítica absurda. Nabokov está longe de defender sexo com menores; a crítica do autor é muito mais profunda, atinge as bases da hipócrita sociedade americana, desmantela a fachada dos costumes, do puritanismo. O fato é que se "Lolita" fosse um mero panfleto pedofilista, o romance dificilmente teria se tornado um dos maiores clássicos da literatura do século XX.

O erotismo de Nabokov não se funda em cenas sexuais, mas sim no confronto entre tabu e desejo, entre vontade e repressão, entre permitido e proibido - é o conflito que todo ser humano tem de empreender, seja para aceitá-lo ou reprimi-lo.

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4 comentários:

Ótima resenha, Henry.

Até hoje não li este livro. Mas agora, mais do que nunca, estou com vontade de lê-lo.

Ótima indicação!

gostei da critica de lolita, me deu vontade de ler o livro...mas tenho ainda uma fila de livros pra eu ler....

ótima resenha e perfeito ponto de vista ...

Li o romance Lolita de Nabokov e concordo que o romance é, sim, uma apologia a pedofilia, pois em todas as suas páginas não consegui identificar nenhuma censura ao comportamento do protagonista. Se é verdade que defendemos o que nos apraz, sugiro uma investigação sobre o comportamento do autor.

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